Casa Grande - Boletim ASA nº 122, jan-fev/2010

A luta continua

Entrevista

Agosto de 1966.

Sob a batuta de Moysés Ajhaenblat, Max Haus, Moysés Fuks e Sérgio Cabral Santos (pai do atual governador do Rio), nasce, no Leblon, o Café-Teatro Casa Grande. Mal sabia o quarteto que aquela casa de espetáculos se tornaria uma referência indispensável para a cidade, não apenas nas artes cênicas, mas também na resistência contra a ditadura militar e na defesa dos valores democráticos e progressistas.

Em 1997, as instalações do Casa Grande foram consumidas por um incêndio. Onze anos depois, ele renasceu na forma de um teatro moderno e confortável. Seguindo a tradição de ser também um centro de debates, está lutando para criar o Centro Cultural Casa Grande, projeto tocado principalmente pelo Instituto Casa Grande (ICG).

Nesta entrevista, Moyses Ajhaenblat, Roberto Saturnino Braga (ex-prefeito do Rio e ex-senador, presidente do ICG desde 3 de novembro passado) e Marcelo Barbosa (coordenador executivo do ICG) falam sobre seus planos e os obstáculos para dar vida ao Centro Cultural.          

ASA-  Como surgiu a idéia do Centro Cultural Casa Grande (CCCG) ?

Moysés Ajhaenblat - Como consequência natural de nossa resistência política e dos debates realizados durante a ditadura. Por quase três anos, de 1975 a 1978, o Casa Grande foi  o único espaço onde se vislumbrava uma luz no horizonte. A partir daí, a luta pela liberdade se ampliou para todo o país. E nós, Casa Grande, também passamos a pretender mais: o Centro Cultural, a Universidade Aberta (Antônio  Houaiss acrescentou o termo  Livre), o Fórum de Debates de Problemas Brasileiros (e por que não mundiais?). Desde então, lutamos por este belíssimo projeto, que está tendo o apoio quase unânime dos artistas,  intelectuais, jornalistas, sindicalistas. De todos aqueles que lutam, almejam um mundo igualitário, justo – um mundo progressista. 
                                                                                                                
ASA- Quais serão as principais atividades do Centro ?

MA- A Universidade Livre e Aberta, o Fórum Permanente de Debates de Problemas Brasileiros, ateliê para artistas pobres, seminários sobre poesia, música, teatro, cinema, comunicação, formação de lideranças, uma creche – tão necessária no nosso entorno - a Sala das Bandas, a Sala dos Blocos, a Sala das Associações de Moradores, o Centro Albino Pinheiro   de Defesa das Tradições Cariocas.
  
ASA- Embora a destinação cultural e pública dos cinco andares construídos acima do Teatro Casa Grande tenha sido aprovada por três governadores (Leonel Brizola, Nilo Batista e Benedita da Silva), o atual governo do Estado está tentando anular a decisão e leiloar o espaço. Por quê? Como vocês esperam garantir o direito de criar o CCCG nos termos chancelados por governos anteriores ?

MA- Claro que é ato de discriminação política, aliado à desmoralizada política econômica neoliberal, e que será derrotado por nossa luta com o apoio de toda a sociedade, dos artistas e intelectuais, o que já está  ocorrendo. Convidamos  todos que apoiam este belo projeto para uma vida progressista a se juntarem a nós. Venham para o Instituto Casa Grande. Conheçam o nosso blog:www.institutocasagrande.wordpress.com.

ASA- O que é o Instituto Casa Grande (ICG) ? Por que aceitou assumir a presidência ?

Saturnino Braga - A principal missão do Instituto Casa Grande é a luta pela implantação do grande Centro Cultural, ocupando os cinco andares sobre o Teatro, de acordo com o compromisso assumido pelo governo do Estado com os construtores e os proprietários do antigo Teatro. Para bem desempenhar esta missão, o Instituto vai desenvolver atividades, eventos públicos capazes de suscitar o interesse e mobilizar mais amplamente o empenho da sociedade carioca na obtenção do Centro. Aceitei a presidência na qualidade de remanescente dos grandes debates de resistência à ditadura realizados nos anos 70 naquele “Território Livre da Democracia” definido por Tancredo Neves. Aceitei como um dever de cidadania, engajado, como sempre estive, no movimento pela instalação do Centro Cultural.

ASA - Com que apoios o ICG conta?

SB -  Os apoios explícitos recebidos até agora, nos meios artístico, intelectual e político são tão numerosos e expressivos que ficaria difícil relacioná-los aqui. Oscar Niemeyer e Chico Buarque estão entre eles.

ASA: Quais são os planos para sua gestão no ICG ?

SB: Nossos planos são de começar sem demora a atividade pública do Instituto, com a realização, ainda neste fim de ano, de pelo menos um grande evento mobilizador que marque fortemente a existência do Instituto na cidade. Assim é que resolvemos realizar um expressivo debate sobre a decisiva questão do petróleo, novamente em pauta com grande destaque, em decorrência da descoberta da riqueza extraordinária do pré-sal.

ASA - Como o ICG e o CCCG se inserem na vida cultural e política do Rio de Janeiro ?

SB -  O Instituto observará sempre a preparação da existência do Centro e seguirá a sua vocação. O projeto do Centro é tão abrangente que se caracteriza como uma verdadeira Universidade Aberta voltada precipuamente para as comunidades carentes da cidade, especialmente aquelas localizadas nas proximidades do Casa Grande. Uma Universidade Aberta, em princípio, é uma instituição cultural multitemática. Entretanto, creio que o Instituto deverá seguir a vocação que firmou a tradição do Casa Grande, desenvolvendo práticas, ensinamentos e criatividade na área das artes cênicas (o Casa Grande é um teatro), e atuando também na promoção de estudos e debates no campo das idéias políticas e dos problemas da sociedade brasileira e do Rio especificamente. O Centro Cultural Casa Grande pode vir a ser um importante centro de filosofia política do Rio de Janeiro. Mas essas são opiniões minhas, pessoais, que precisam ser discutidas com os fundadores do Instituto e do futuro Centro Cultural, e também com a comunidade que vem apoiando a sua implementação.

ASA - Moysés e Saturnino mencionaram a idéia de criação de uma Universidade Livre e Aberta. A seu ver, quais seriam as principais atividades desta Universidade ?

Marcelo Barbosa - A Universidade Livre e Aberta Casa Grande é o momento mais significativo de todo este projeto concebido pelo saudoso escritor e filólogo Antonio Houaiss.  Porém, não estamos falando de uma instituição acadêmica, mas sim de um centro multidisciplinar, um corpo político engajado no debate, diagnóstico e solução dos principais problemas do Brasil em sua relação com o mundo. Vão merecer destaque os temas da economia, da cultura e do meio ambiente. Autônoma em relação aos partidos, a Universidade Livre e Aberta Casa Grande deverá buscar o diálogo com as universidades acadêmicas – especialmente as públicas - com as quais pretende celebrar parcerias estratégicas.
 
ASA -Faz parte dos planos do CCCG um Fórum Permanente de Problemas Brasileiros. O que será e a que público se destinará ?

MB - O Fórum Permanente de Discussão de Problemas Brasileiros será a face mais visível dos projetos reunidos nesta retomada das tradições históricas do Teatro Casa Grande. As atividades do fórum - fundamentalmente debates promovidos com grandes personalidades de vida pública  brasileira – visam atingir o público mais amplo possível, especialmente as comunidades faveladas do entorno do teatro, a exemplo da Cruzada São Sebastião, Morro do Vidigal e Rocinha. Todas as atividades terão caráter público e gratuito.    

 

 

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