| Argentina - Boletim ASA nº 121, nov-dez/2009 |
A crise das shuln Nerina Visacovsky / Especial para ASA
O Em minhas pesquisas acadêmicas, tenho priorizado as propostas educacionais das entidades vinculadas ao ICUF. Na Argentina, no Brasil e no Uruguai, foram criadas escolas idishistas que floresceram nos anos 50. E depois, aconteceu o quê? Por que desapareceram? Na Argentina, a história das shuln progressistas começou na década de 1920 com as escolas operárias, as árbeter shuln. Em 1929, existiam oito árbeter shuln em Buenos Aires e arredores, associadas ao Arbshulorg (Árbeter Shuln Organizátsie). Essa Federação publicava a revista Undzer Shuln (Nossas Escolas) para pais e professores, e cedia um local para se debaterem os problemas das escolas. Em ídish, um professor ensinava a crianças de diferentes idades História e Política segundo o ideário marxista-leninista, que entusiasmava boa parte do operariado idishista. As árbeter shuln, para crianças, e a Pionner Organizátsie, para os pré-adolescentes, constituíram os primeiros passos organizados rumo à socialização política das novas gerações. Não eram experiências sistemáticas ou com um programa de estudos, nem seus professores tinham um preparo pedagógico; eram intelectuais com vasta formação, admiradores da Revolução Soviética cuja intuição e paixão criavam ambientes aconchegantes e atraentes, reconhecidos por seus alunos como um “segundo lar”. Por trás de toda essa atividade trabalhava a Idséktsie (a seção ídish do Partido Comunista), mas o público era heterogêneo, frequentemente determinado pela proximidade do bairro. Lá pelo fim dos anos 20, o clima de instabilidade que gerou a “grande depressão” deu margem a que grupos de direita, desencantados com a prédica liberal, dessem um golpe de Estado em 1930. O governo militar de Uriburu iniciou uma intensa repressão contra os operários estrangeiros, proscreveu o PC argentino e organizou a “Seção Especial” de repressão ao comunismo, dependente da Polícia Federal. A “Seção Especial” se ocupava de perseguir tudo o que propagasse “ideologia dissoluta”. Assim, em 1932, as escolas operárias foram revistadas e fechadas. A rápida recuperação econômica permitiu a redução da intranquilidade social e, no contexto de uma democracia fraudulenta, os ativistas/militantes reabriram as escolas. Nessa etapa, marcada pela política de frentes populares, procuraram conferir um marco de legalidade às folks shuln, que se agrupavam então no Farbandfun Ídishe Folks Shuln. Contudo, todas as tentativas fracassavam numa atmosfera que abria, cada vez mais, passagem para grupos católico-nacionalistas xenófobos. As folks shuln foram fechadas novamente pela “Seção Especial” da Polícia em 1937, e o uso do ídish, proibido em atos públicos. Os problemas de antissemitismo e anticomunismo que, projetados nos acontecimentos europeus, tiveram lugar na Argentina foram especialmente significativos durante a ditadura de 1943. Porém, apesar da “onda reacionária”, a fortaleza dos progressistas na transmissão de sua herança foi mais poderosa. A partir de 1940, criaram-se em todo o país numerosas instituições – entre elas, uma dezena de escolas judaicas laicas -, que somaram cerca de 25 nos anos 50. As véltlehe shuln se agruparam na flamante Federação ICUF, fundada em Paris, em 1937, e em Buenos Aires, em 1941. No contexto político da Segunda Guerra Mundial, enquanto o mundo enfrentava o horror do nazismo, nasciam as escolas progressistas para proteger o legado cultural idishista. Durante os anos peronistas, consolidaram-se e foram reconhecidas oficialmente sob leis que regulavam “a dose de patriotismo argentino” nas escolas complementares idiomáticas. Iniciava-se assim a terceira etapa, e a mais duradoura, para as shuln. Em 1943 e 1944, as escolas Jaim Zhitlovsky de Villa del Parque e I.L.Peretz de Villa Lynch, que eram as mais concorridas, foram incorporadas à política de subsídios do Vaad HaHinuch, a comissão educativa da AMIA. Mais três escolas se somaram em fins dos anos 40. Nessa época, as escolas laicas de esquerda – bundistas, poaleissionistas e icufistas – eram as mais populares. No entanto, a criação do Estado de Israel, em 1948, e o início da Guerra Fria foram determinando polarizações no entorno comunitário. Em dezembro de 1952, os dirigentes icufistas se negaram a assinar uma condenação aos processos de Praga e à União Soviética, acusada de antissemitismo, o que culminou com a expulsão do ICUF. Aquele processo, conhecido como “o hérem”, encontrou as escolas progressistas em pujantes dificuldades financeiras. O firme idealismo de seus ativistas, um público simpatizante do PC e uma rede de cooperativas e empreendimentos solidários as mantiveram de pé. O I.L.Peretz de Villa Lynch, por exemplo, contava com kinder-gartn, shul e mitl-shul. A década de 1950 foi, sem dúvida, a de maior expansão das shuln. O Shul-Rat Central editou doze números da revista Kindervelt para o ensino do ídish, e, sob a coordenação de Tzalel Blitz e do lérer Simon Gordon, produziu-se uma infinidade de materiais temáticos em ídish com “conteúdo progressista”. Entretanto, surgia uma geração de professores jovens. Nas shuln, ocorreu uma “hibridação pedagógica”, caracterizada por uma cultura idishista que se amalgamou com o legado educativo de Domingo F.Sarmiento, a pedagogia coletivista de Makarenko e as novas correntes da escola ativa. A história é longa e complexa, mas esta breve introdução ao período de desenvolvimento é importante para nos concentrarmos nos motivos da deterioração e do fechamento definitivo das shuln. Em fins dos anos 1950, as dificuldades financeiras aumentavam à medida que o país sofria as consequências de uma indústria não competitiva no mercado internacional. Isso, entre outros motivos, abriu uma crise no Estado de bem-estar peronista e, com o golpe militar de 1955, iniciaria um período de permanente instabilidade política entre governos civis fracos e outros comandados por setores militares. Enquanto isso, a principal força política do país, o peronismo, estava proscrita do sistema e crescia na clandestinidade. O tempo em que a juventude se tornara protagonista encontrou uma segunda geração icufista nativa, que falava espanhol e que estava disposta a se integrar na luta pelas causas nacionais e latino-americanas. Foi assim que, nos anos 1960, os jovens “esclarecidos”, motivados pela utopia cubana, voltaram-se para a militância e a participação em universidades, partidos políticos e organizações civis. Até aqui, portanto, temos dois motivos concretos para o encolhimento das shuln: dificuldades financeiras e desinteresse da juventude pelo ativismo nas entidades. Mas tem mais. A política idiomática do Estado de Israel para a Diáspora impusera o ensino do hebraico, e o ídish, em geral, começava a perder seguidores em toda a comunidade. Mesmo correndo o risco de simplificar, digamos que, em linhas gerais, nos círculos sionistas, o hebraico era o novo, enquanto o ídish era identificado como o idioma “dos velhos”. Enquanto isso, não eram poucos os jovens icufistas que se perguntavam: para que ensinar o ídish nas escolas, se não haverá um território para falá-lo?, para que ensinar em ídish, se o importante são “os conteúdos progressistas” e não o idioma de transmissão? Essas perguntas circulavam e eram debatidas nas instituições. Os que eram a favor de acelerar o desaparecimento do ídish defendiam a passagem para o castelhano a fim de “atingir as massas trabalhadoras” e atrair os jovens que não o falavam; já os que resistiam, sobretudo os professores de escola, trabalhavam para tornar o ídish ameno e interessante para as crianças. O impacto final chegou em meados dos anos 1960, quando uma sociedade em ebulição incorporava maciçamente a mulher ao mercado de trabalho e transformava as tradições familiares. No marco de novas necessidades sociais, emergiu com êxito a “escola estatal de horário integral”. As primeiras experiências na Argentina tiveram muito bons resultados, e essa modalidade cresceu, obrigando as famílias a optar entre o estabelecimento público de dupla jornada e a shul. No 9° Congresso do ICUF, em 1968, quando restavam só três escolas, discutiu-se a crise das shuln. A opção, para modernizá-las, era transformá-las em escolas integrais (de dupla jornada). Contudo, essa decisão comportava polêmicas: os favoráveis, a minoria, argumentavam ser essa a única possibilidade de salvá-las; os contrários sustentavam que a escola integral promovia a exclusão da criança judia da sociedade argentina, além de ser uma alternativa privada acessível apenas a quem podia pagá-la e de ir de encontro ao espírito da lei 1420, de ensino livre, gratuito e obrigatório. Após o voto de pais, professores e ativistas, o Congresso do ICUF adotou a posição da maioria: manter as escolas complementares até que sua luz se esgotasse. Em 1969, saíram os últimos alunos da mitl-shul, e em 1977, os últimos da única escola primária que restava, o I.L.Peretz de Villa Lynch. O jardim de infância em castelhano, no entanto, teve outra sorte e continuou crescendo até a década de 1980, porque seu nível de excelência estava ligado mais às atividades recreativas do que à shul. O êxito dos Kinder-clubes e das colônias Zumerland levou a maior parte do icufismo a sustentar que a educação judaico-progressista podia ser transmitida nesses espaços e em castelhano. Definitivamente, encerrava-se um ciclo no movimento e se abria talvez a quarta etapa em sua proposta educacional. Se a ampla gama de atividades recreativas e esportivas do icufismo conseguiu ou não substituir a shul a partir dos anos 1970, já é outra história.
Nerina Visacovsky, doutoranda pela Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, é docente e pesquisadora da Escola de Política e Governo da Universidad Nacional de San Martín.
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