Ação afirmativa - Boletim ASA nº 121, nov-dez/2009

O Brasil não é racista     

José Roberto Pinto de Goes / Especial para ASA

                           

DA ideia de que as desigualdades sociais se reproduzem  determinadas por preconceitos raciais não se sustenta nos fatos. Uma criança “negra” nascida numa família pobre terá as mesmas oportunidades desfrutadas pelas famílias pobres, e o mesmo acontecerá com uma criança nascida numa família de classe média ou de maiores posses. O acesso a bens materiais e culturais é regulado por critérios estritamente econômicos e impessoais.
Mas tem gente que não acredita no Brasil, não tem orgulho de nossa História e não compartilha de uma cultura (a dos brasileiros em geral) na qual o traço talvez mais relevante seja o orgulho da tolerância e da mistura.

Há quem não acredite que o Brasil seja uma nação. No debate acontecido na ASA, uma garota, muito emocionada, disse que tinha direito de saber a história do seu povo. Ela se referia ao “povo negro”, que aqui,  supostamente, encontra-se subjugado por uma minoria branca e racista, mais cruel (porque disfarça o ódio) do que aquela que governou a África do Sul.

Há quem de nada  se orgulhe na nossa História, exceto do sangue que correu em Palmares. As comemorações do 13 de maio foram substituídas pelas  do 20 de novembro, dia da morte de Zumbi, dia da “consciência negra”. Mas  a população do Rio de Janeiro comemorou durante uma semana a Abolição, que foi feita por livres, escravos, libertos, pretos, pardos e brancos.  Não dá para esquecer. Nem de deixar de render homenagem à Princesa, que  afinal assinou a Lei Áurea.

Para achar que o Brasil é racista, só não compartilhando da talvez melhor herança recebida das gerações passadas:  a facilidade com que diferentes povos e tradições culturais se integram com  a nacionalidade. O traço mais evidente da identidade nacional brasileira é a valorização da mestiçagem. Os que dizem que o Brasil é racista querem trocá-la por uma consciência racial.

Ler as estatísticas através de um deformado viés racial é fácil. Difícil é levar os brasileiros a se conceberem como integrantes de raças diferentes e em conflito. O finado Hércules Correia, comunista importante no Brasil de décadas atrás, contou em suas memórias uma história que diz muito do jeito brasileiro de contornar dificuldades e perigos. Era o início de 1964. Ele engraxava os sapatos,  quando escutou um engraxate dizer a outro: “Estão dizendo que o comunismo vem aí.” A resposta foi: “Não tem problema, se vier, a gente avacalha.” (Sabedoria popular, outro motivo de orgulho.)

Se os políticos sucumbirem à pressão de ONGs racialistas e o Estado vier a classificar racialmente os brasileiros (cabendo a uns direitos que são negados a outros),  avacalhar será inevitável. Muito misturados, ninguém sabe, nem se importa em saber, se é negro ou se é branco (categorias bi-polares ao estilo norte-americano). Em 1976, um recenseamento do IBGE não pediu que os brasileiros se auto-declarassem, como de costume, nas categorias branco, pardo, preto, amarelo ou indígena. Deixou a resposta em aberto. Computou mais de uma centena de auto-designações. A minha preferida é “marrom-bombom”, mas acho que essa não apareceu no levantamento, deve ter sido inventada depois. Unifica os brasileiros não uma pertinência racial, mas, além da História, uma aspiração comum relacionada a igualdade de direitos, cidadania, prosperidade, paz, essas coisas simples e ao mesmo tempo muito importantes.

O recenseamento é mais uma evidência, entre tantas outras, da nossa dificuldade em nos reconhecermos segundo critérios raciais rígidos. Os racialistas vão continuar criando tribunais dedicados a examinar a pureza racial das pessoas, como faz a Universidade de Brasília, mas não vai adiantar, pois a gente vai avacalhar. E quando digo a gente, refiro-me também aos racialistas, pois os tenho como brasileiros como eu e o leitor. Nos Estados Unidos, graças a uma tradição obscurantista firmada pelos tribunais na virada dos séculos 19 e 20,  todo mundo acredita que negro é quem tem ao menos uma gota de sangue negro. Todos sabem quem é quem. Aqui, o próprio tribunal racial da UNB contribui para tornar tudo muito avacalhado. Aprovou cota racial para um irmão e negou para o outro. Um foi classificado como negro e o outro como branco. E eles eram gêmeos. É possível não rir, mesmo diante de tamanho obscurantismo?

Quanto às chamadas Políticas de Ação Afirmativa, dentre as quais as cotas para negros em universidades ganharam destaque especial, eu desconheço o que vem a ser uma ação que não seja afirmativa. As políticas públicas devem ser concebidas para melhorar a vida das pessoas, especialmente as mais pobres e desamparadas. A  que deu certo em todo lugar do planeta onde a miséria e a pobreza insultante foram extintas é investir na escola pública de boa qualidade. Isso significaria dar a todos os jovens brasileiros oportunidades iguais antes do início da vida adulta. Política pública baseada em critérios raciais é política racista. E do mal só sai o mal.

 

José Roberto Pinto de Goes é professor de História da FFP / UERJ e autor dos livros A Paz das Senzalas e O Cativeiro Imperfeito.

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