| Samuel Rawet /80 ANOS - Boletim ASA nº 121, nov-dez/2009 |
Samuel Rawet*
Se isso foi verdade não sei. Quem me contou pediu o mais absoluto silêncio, e eu...ora eu, segredo contado, segredo guardado. Vocês já estão curiosos, vejo. Pois bem. Aí vai, com uma condição, segredo contado, segredo guardado. Guerra vai, guerra vem, aumento de família, casamentos, imigração, o fato é que a sinagoga do lugar foi ficando pequena e tornava-se necessário a construção de outra maior, para dar vazão à fúria de fé. Havia outro fato ainda, como o mundo é pequeno, e uma bola, dá voltas e mais voltas e, dizem, chega ao mesmo lugar, os dois grupos mais numerosos da coletividade eram das cidades X e Y da velha Polônia. X e Y tinham entre si uma birra, já secular, birra amainada pelas desgraças seguidas e pela peregrinação ao segundo desterro. Mas birra é birra, e, mais cedo ou mais tarde, teria que saltar com o mesmo vigor do fundo dessa grande sacola que é o coração, ou o fígado. A primeira coisa a ver era o terreno. X e Y discutiram, discutiram, e concordaram. Depois a sinagoga. X e Y discutiram ainda mais. Entre ambos havia filhos engenheiros e cada facção queria ter a honra de ver o seu projeto realizado. Após muitos insultos açucarados em “língua sagrada”, imprecações no mais puro latim, chegaram a um acordo. O projeto seria misto. Ora, vivas! Não acabaram as discussões. Havia ainda um mundo de detalhes miúdos, mas importantes, e que mereceram, todos eles, as mesmas honras de sovas verbais proclamadas com o mesmo ardor de antes. Grande tenacidade dessa gente. Nada os cansava, ao contrário, o mínimo despertava o máximo de irritação. E como discutiam. Na campanha de finanças a luta foi um pouco mais dura. X descarregava o peso sobre Y alegando dificuldades, apertos, etc. Y descarregava sobre X alegando apertos, dificuldades, etc. Arranca daqui, aperta de lá, em meio a copos de chá e suspiros pela velha cidade (você se lembra?...) a coisa firmou. Obtida a quantia, nesse sábado houve mais vivacidade. A oração foi mais fervorosa. O coração de Deus nas alturas deve ter tremido com tanta devoção. Ao entardecer, então, os arenques foram deglutidos em banho de chopp empanturrando e alegrando muito sisudo. Não fosse a penumbra, era cedo ainda para acender as luzes, e se veria narizes vermelhos e olhos brilhantes ninando cantigas. Pela graça de Deus. Amém. Muita alegria, alegria demais. Impossível. Feitas as preces, acesas as luzes, novas preces, e a última saudando a semana que entra. Depois os cigarros, a doce fumaça azulada escapando em espirais das bocas ávidas pela abstenção de 24 horas. Tanta felicidade junta Deus nunca permite, pudera! Havia risos demais no ar. Muitos abraços, cochichos, muita alegria, enfim. A ideia partiu não se sabe de onde, e foi aceita. Reuniram-se X e Y para escolher o cantor oficial da sinagoga, a voz que embalaria os festejos e as preces e levaria os apelos diretamente para cima. A garganta privilegiada. E ai... ninguém arredava o pé. Nada de solução mista, de arranjo. Ambos inflexíveis. Inflexibilíssimos. E dessa inflexibilidade nasceu a história. Todos os insultos anteriores, somados de ambas as partes, eram poucos para a data magna. Glórias e misérias de ambos os lados. Gerações e gerações desfiadas, árvores genealógicas plantadas em meio minuto. _ Com quem você pensa que fala? Eu sou Chaim, filho de Schloime, neto do rabino de Z. e casado com a filha de um primo que teve a honra de conhecer o grande Santo W, quando da peregrinação... E agora, por favor, segredo! Se ainda fosse verdade, está bem. Tinha uma desculpa a contar. Mas podendo ser mentira, não! Que Deus me perdoe a calúnia espalhada!
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