Samuel Rawet /80 ANOS - Boletim ASA nº 121, nov-dez/2009

Escritor sem limites

Heliete Vaitsman / Especial para ASA

 

Entre os meios de comunicação da comunidade judaica do Rio de Janeiro na década de 1950, o boletim O Espelho, publicado no subúrbio de Olaria por jovens filhos de imigrantes, retrata as preocupações e as ilusões de um grupo populacional que se consolidou social e economicamente numa época em que o mundo e o país eram varridos pelas ideias de liberdade e confiança pós-Segunda Guerra, pós-Estado Novo e, para os judeus, pós-criação do Estado de Israel. Em outro registro, o boletim mostra o início da trajetória de Samuel Rawet, que teria completado 80 anos em 23 de julho último e ali publicou seus primeiros escritos, entre crônicas e contos, e alguns desenhos.

Uma das grandes figuras cult da literatura brasileira, tanto pela originalidade da obra e pelo domínio técnico como pela coerência da trajetória vital sem concessões, Rawet já se mostra um mestre da ironia num conto como esse “A Nova Sinagoga”  (ao lado). Nas páginas de O Espelho, “órgão interno do Grêmio Cultural e Recreativo Stefan Zweig”, um dos muitos grêmios laicos que congregavam os jovens judeus, procurando evitar a assimilação, o rapaz de apenas 20 anos escrevia boa ficção, fazia críticas de teatro e condenava desde o antissemitismo da imprensa brasileira (que chamava os judeus, quando estes participavam de manifestações políticas, de “elementos israelitas”) até a inércia das lideranças comunitárias diante da acolhida do governo brasileiro a refugiados nazistas.

Os amigos de então não desconfiavam do tamanho do sentimento de rejeição que, apesar da inserção aparente, acompanhou Rawet por toda a vida, e que ele expressa no livro de estreia, Contos do Imigrante (onde está o famoso conto “Gringuinho”), de 1956. Ano que, lembra o romancista Esdras Nascimento, foi apontado como um divisor de águas da literatura brasileira devido à publicação de Grande serão: veredas, e...do volume de Rawet! Guimarães Rosa e Rawet juntos? O aclamado escritor, acadêmico e diplomata, e o jovem recém-formado em Engenharia cuja língua materna, o ídish, parecia fadada à extinção depois do Holocausto?  Saudado como renovador da narrativa curta no Brasil, Rawet teria tudo para ser motivo de orgulho judaico, mas a contundência do seu grito até hoje produz estranhamento, e ele mesmo arcou com os custos de publicação de vários de seus livros (agora reunidos pela Editora Civilização Brasileira).

Nascido em Klimontow, Polônia, Rawet chegou ao Rio em 1936, aos sete anos, em companhia da mãe, de um irmão e da irmã. Vinham ao encontro do pai e do irmão mais velho. Foi para a escola primária suburbana, o ginásio suburbano, fez vestibular, destacou-se pelo brilho. Como integrante da equipe de Oscar Niemeyer, foi o calculista do Congresso Nacional e, em 1963, mudou-se para Brasília. Continuava a escrever contos, romances, ensaios, peças teatrais.

Por muito tempo, Rawet se manteve fiel à Lei do clã. Mas o maior desejo era ser um brasileiro completo. Não um brasileiro aburguesado, e sim um carioca livre de injunções familiares. Não queria loja de móveis, transações comerciais, sábados na sinagoga, casamento. Via a si mesmo, como escreveu em mais de um ensaio, como dono e senhor de si mesmo, de bares, botequins e praças da cidade. Daí, talvez, a necessidade de negar a própria erudição, que poderia colocá-lo num indesejado pedestal. Em entrevista ao jornalista Flavio Moreira da Costa em 1972, disse: “Sou fundamentalmente suburbano. Eu aprendi português nas ruas, apanhando e falando errado, e acho essa a melhor pedagogia...”

Quando a imaginação delirante substituiu a sanidade, Rawet largou a equipe de Niemeyer. E rompeu publicamente com a sociedade judaica que conhecera (e não com o judaísmo, muito menos com a ética judaica), ao publicar, em 1977, o ensaio “Kafkae a mineralidade judaica ou a tonga da mironga do kabuletê”. “Estou farto de pathos, farto de ahhs!, ohhhs!, uhhhs!, arreganhos de dentes, deboches (...)”, escreveu. Anunciou que não queria mais saber de amigos judeus, comida judaica, negócios imobiliários judaicos...

Morreu em Brasília, em 1984. Sozinho, mas não isolado, pois amigos escritores acolhiam-no.

Entre os judeus que se debruçaram sobre o escritor, Pérola Engellaum, autora da tese de doutorado (UFRJ) “Samuel Rawet, a alma que sangra, pergunta: “Por que Rawet?” E responde: “(...) Ele expressa em sua trajetória meus mais profundos conflitos, meus profundos temores. Enquanto lia “Os sete sonhos” e “Abama”, passei a respirar, a viver minha ancestral melancolia judaica, e estas são as melhores obras, sejam filmes, livros ou músicas, aquelas que nos levam aos nossos limites. Como os românticos, Rawet expressa seu desconforto em relação às engrenagens da modernidade. Expressa também sua indignação com a hipocrisia da comunidade judaica de sua época, que viveu um período de ascensão graças ao desenvolvimentismo do governo JK. Esse brado de inconformismo e revolta atravessa todos os movimentos críticos da modernidade, seja artística ou politicamente (...)”.

 

Heliete Vaitsman, jornalista, é colaboradora deste Boletim.

 

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