Beco da mãe -Boletim ASA nº 121, nov-dez/2009

O incrível SAPS

Henrique Veltman / Especial para ASA

                

Ficava ali, na Praça da Bandeira, o restaurante central e a sede do SAPS, criado em 1940 por Getúlio Vargas, com os então dirigentes da Sociedade Brasileira de Alimentação, da qual fazia parte o Josué de Castro.

Entre as ações do SAPS destacavam-se a criação de restaurantes populares, o fornecimento de alimentos por alguns empregadores e a participação na educação alimentar. Na verdade, o SAPS mudou o cardápio do brasileiro, introduzindo o hábito de comer saladas, verduras e, por último, mas não menos importante, soja.

Mas não é disso que eu quero falar. O SAPS da Praça da Bandeira, além de fornecer refeições boas e baratas, por 10 centavos, tinha uma ótima biblioteca e uma razoável discoteca. Alimento para o espírito.

Tudo, quase que por obra e graça de seu diretor, o general Umberto Peregrino. Militar, mas antes de mais nada, um intelectual (graças a quem, em Santa Tereza, funciona hoje a Casa de Cultura São Saruê).  Peregrino exerceu diversas funções na carreira militar: professor do Colégio Militar do Rio de Janeiro, diretor do SAPS, diretor da Biblioteca do Exército, diretor do Instituto Nacional do Livro. Recebeu o Prêmio Paula Brito (1959) e diversas condecorações. Publicou vários livros, entre os quais Literatura de Cordel em discussão (1984), além de ensaios e artigos em revistas e jornais.

Pois é, mas no nosso SAPS da Praça da Bandeira, Fraim Hechtman e eu (naquela época ele era simplesmente o Felipe),  Jacó Gandelman e meu irmão Moysés, moradores do Beco da Mãe, e José Lipes, vizinho da vila, íamos quase que diariamente ouvir música clássica e pegar livros. No início, a gente até selecionava títulos e autores; mais adiante, por preguiça, decidimos explorar os livros por prateleira. E foi assim, numa confusão danada, mas muito proveitosa, que misturamos autores, temas, épocas. Devoramos de Emilio Salgari a Emmanuel Kant, sem traumas.

Mas nem só de judeuzinhos do Beco se alimentava o SAPS: uma turma enorme do nosso Colégio Hebreu Brasileiro, diariamente, vinha de bonde depois das aulas, almoçava por 10 centavos (pra desespero das mamães, sem entender como seus filhos trocavam a comida ídish por feijão com arroz) e frequentava a biblioteca e a discoteca. Sem contar outros eventos que o Umberto Peregrino inventava para agitar o SAPS. Por exemplo, um concurso literário sobre a figura do historiador Otávio Tarquínio de Souza. Deve ter sido em 1950. Acho que 90% dos estudantes que concorreram eram do Hebreu. Claro, o concurso foi vencido pelo Ari Vaisman !

Acredite quem quiser, mas a partir de uma certa prateleira, a biblioteca do SAPS já não saciava nossa fome de leitura. Foi assim que os meninos do Beco descobriram as demais bibliotecas públicas do Rio, a Experimental Castro Alves, do IPASE, as da Avenida Venezuela, a BIBSA, e claro, a Biblioteca Nacional.

Tempos bons, aqueles, quando a gente não tinha grana pra comprar livros, mas tinha um enorme apetite por eles !

 

 

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.

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