| Crise -Boletim ASA nº 120, set-out/2009 |
Descaminhos da Humanidade Renato Mayer / Especial para ASA
Ao bradar contra a iniquidade e a insensatez dos homens e, sobretudo, dos judeus, no século 8 antes da Era Comum, o profeta Isaías já conclamava [43]: “Faze com que apareça este povo que é cego, embora tenha olhos; este povo de surdos, apesar de ter ouvidos. Congreguem-se todas as nações, reúnam-se todos os povos!” E, numa afirmação clara de como deveria o mundo obedecer à moldagem do Divino [45]: “Ele estabeleceu a terra; não a criou como um deserto, mas, sim, modelou-a para ser habitada.” No entanto, há um quê de cegueira e surdez no mundo a ser moldado pelas propostas atuais de saída da crise econômico-financeira. À parte uma possível limpeza e neutralização dos chamados ativos podres, isto é, os títulos de aplicações que perderam praticamente todo o valor, sobrarão milhões e milhões de desempregados, infelizes sem perspectivas outras que as das filas do auxílio social, enquanto os governos de todo os países enchem de mimos e agrados sua mesma e velha menina dos olhos: a indústria automobilística. Não importa que avanços tecnológicos sejam incorporados aos novos modelos de carros particulares; o fato é que se veem os veículos individuais como os condutores da saída para esses tempos de depressão. O que vale é que mais e mais carros sejam comprados e despejados nas ruas, nas estradas e nas cidades. Alega-se a sua importância na economia mundial. Na França, 2 milhões e meio de empregos, ou seja, 10% da população econômica ativa, estão vinculados à indústria automobilística; no Brasil, ela representa ¼ de toda a riqueza gerada anualmente pelo setor fabril. Isso justificaria os milhões e milhões de dólares transferidos do setor público às empresas nos Estados Unidos e na França e a redução dos impostos sobre as vendas ao consumidor em nosso país. Aqui, os motorizados apenas ultrapassam um terço da população, e os que compram carros zero são exatamente os que possuem maior renda. Argumenta-se que a relação veículo/habitante no Brasil é baixa se comparada à dos Estados Unidos ou mesmo à do México e que há ainda grande espaço para crescimento. Mas quem já foi à América do Norte constatou por seu próprio olhar a inviabilidade de uma sociedade em que praticamente todos dependem de um veículo individual, consumidor de energia essencialmente não renovável. Quais valores humanos proliferam e se fortalecem em tal ambiente? Quando será possível introduzir um padrão de vida mais coletivo, mais solidário, menos predador? Um novo modo de produção e convivência social, como anteviam os nossos velhos visionários? Que futuro a médio prazo podemos então visualizar? Uma repetição do que foi vivido até o ano passado, apenas com bancos mais saneados? Não se trata de deter o progresso das pessoas ou o avanço da indústria, a qual precisa de mercado para se expandir, mas de questionar se a Humanidade não está deixando passar a oportunidade da crise para refazer o caminho rumo ao resgate de valores materiais, culturais, ambientais e simbólicos outros, de maior utilidade e necessidade. Mas temos, nesse caso específico, um exemplo emblemático das prioridades imediatas dos governos. Invadem as vias do Estado de São Paulo cerca de 48 mil novos carros todo mês, mais de meio milhão por ano. Até Brasília, uma cidade planejada, já tem engarrafamentos. É o tempo útil que se perde em esperas desnecessárias, é poluição, são problemas de saúde, respiratórios e cardíacos, sobretudo, são os gastos públicos desviados de outras destinações, o resto do mundo apenas visualizado pelo vidro protegido por insulfilm da janela do automóvel. Pensadores judeus contemporâneos têm reiterado essas preocupações. O conhecido médico e rabino norte-americano Abraham Twerski conclui uma de suas obras com o seguinte chamamento à mudança: “Qual rumo tomará nossa civilização? Adotará os princípios da espiritualidade e pulará fora de um mergulho sem fim ou continuará no incessante caminho da busca da gratificação imediata, justificada pela negação e pela racionalização, até que seja tarde demais?” Os valores da espiritualidade, claramente indicados, são os da solidariedade, da tolerância, do desapego aos bens materiais, da empatia pelo sofrimento alheio e de um saudável meio ambiente. Comunidades inteiras têm-se esquecido disso, tornaram-se belicosas e agressivas, por mais que rezem ou se autoproclamem em favor da “paz”. Para elas, mais do que nunca, valem as palavras do profeta. Renato Mayer, economista, é colaborador deste Boletim.
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