Jornalismo judeu no Brasil -
Alberto Dines e Henrique Veltman
Um desfile de reminiscências envolvendo os principais nomes da imprensa judaica do Brasil e sobretudo do Rio de Janeiro, acrescido de um estudo sobre os patriarcas dessa mesma imprensa, foi o que os jornalistas Alberto Dines e Henrique Veltman ofereceram ao público que esteve na ASA, na noite de 5 de agosto, para comemorar os 45 anos da Associação e os 20 anos do boletim ASA. Depois de sublinhar que “quem poderia fazer um congresso sobre a imprensa judaica” era o professor Nachman Falbel, de São Paulo, em virtude de sua extensa pesquisa sobre a matéria, Dines fez uma exposição enriquecida com termos em ídish. “Ídish é a língua mais importante do mundo. Quando eu posso e onde eu posso, eu falo. Hoje eu vou abusar.” Contou casos marcantes da vida dos personagens e fez um desafio: “Eu vim aqui para incomodar. Não adianta lembrar apenas hoje. Tem que fazer um ízkor todo dia.” Henrique Veltman, que é colaborador deste boletim desde 2005, acrescentou alguns casos vividos por ele e está preparando outras histórias para a sua coluna, o Beco da Mãe. Os dois convidados foram apresentados pelo diretor Jacques Gruman, que falou algumas palavras sobre a ASA e seu boletim e apresentou cada um dos colaboradores permanentes. Leia abaixo uma condensação do que disseram Dines e Veltman.
ALBERTO DINES
O jornalismo é a espinha dorsal da sociedade, porque fornece a matéria-prima para a formação da memória e, a partir da memória, a História. A minha apresentação será extremamente abreviada e muito na base da memória pessoal.
Tudo o que aconteceu na comunidade judaica aqui, no início do século 20, tem a ver com a Argentina, onde a comunidade se formou no século 19 e já tinha jornais em ídish e em alemão. Ela influenciou demais a vida brasileira a partir de Porto Alegre, e de Porto Alegre para cá.
O primeiro jornal judaico do Brasil foi lançado em Porto Alegre, em 1915, pelo judeu argentino Josef Halevi. Chamava-se Di Mentch’hait-A Humanidade. Era o segundo ano da Primeira Guerra, e já começava um movimento pacifista. O jornal durou seis edições. Mais tarde, Halevi fez Di Ídishe Tsukunf- O Futuro Israelita, que também não deu certo.
De altíssimo nível literário, A Coluna, feito em português pelo professor de origem marroquina David José Perez, durou alguns anos. O doutor Perez era professor emérito de várias disciplinas, filólogo, fluente em hebraico e ladino,um dos baluartes do sionismo brasileiro, da cultura judaica e do jornalismo judeu. Ele teve como colaborador Álvaro Castilho, que, embora não judeu, era um filossemita.
Os jornais desapareciam e eles próprios geravam um filhote, que depois gerava outro. Em 1923, Dos Ídishe Vochenblat - O Semanário Israelita cria a alavanca da imprensa ídish. Construído em bases profissionais, tinha redação, máquinas e uma lojinha com livros importados da Argentina e dos Estados Unidos. Era um complexo midiático, sem dinheiro, mas com muito idealismo. A Biblioteca Scholem Aleichem surgiu do Ídishe Vochenblat, que não era de esquerda. Naquela primeira fase, a comunidade, pequena, procurava não se dividir. Poucos eram pessoas cultas, que soubessem escrever bem ídish.
Um dos jornalistas precursores da imprensa judaica em Porto Alegre, Itzhak Raizman, tem um livro intitulado Um quarto de século da imprensa judaica no Brasil, que é um relato do jornalismo e da vida comunitária. Um resumo desse trabalho está publicado em Os judeus do Brasil, do professor Nachman Falbel.
O filhote do Ídishe Vochenblat foi o Brazilianer Ídishe Presse-Imprensa Israelita Brasileira. O grupo brigou e se fundou a Ídishe Presse-Imprensa Israelita.
Um dos nossos patriarcas se chama Jacob Nachbin. Ele publicou estudos historiográficos na França, e aqui publicou outros sobre os cristãos novos no Brasil. Depois foi para uma universidade americana, mas não pôde progredir porque não tinha titulação. Sumiu, e ninguém sabe onde morreu.
Uma figura que está presente em quase todos os veículos, sobretudo no Ídishe Vochenblat, é o Shabtai Karakushansky, Shebsl, para os íntimos. Karakushansky era tio da professora Bela Josef.
A terceira figura que aparece no grupo inicial do Ídishe Vochenblat − me botava no colo e me cantava canções revolucionárias em ídish − é Aron Bergman. Ele emigrara da Polônia, onde era secretário geral do Poalei Tsion, então um partido social-democrata, borochovista. Não era revolucionário, mas tinha concepções muito firmes, que hoje a maioria dos partidos social-democratas já não têm mais. Bergman foi um grande animador da cultura, política, vida social, escrevia muito bem, um jornalista. Eu me lembro do espírito dele. Foi preso uma ou duas vezes porque, num momento em que não era permitido editar em língua estrangeira, ele insistiu. Morreu prematuramente e deixou essa coisa fantástica chamada Ídishe Presse. Jornal que sofreu altos e baixos e atravessou todas as décadas de 1930 até 1988, foi um pouco o espelho da comunidade judaica do Rio de Janeiro. Samuel Malamud, além de ter sido seu acionista, também escrevia.
É claro que houve em São Paulo outras iniciativas, mas curiosamente a imprensa judaica no Rio foi mais importante. Marcos Frankental foi uma das figuras importantes em SP. Méier Kucinsky, pai do Bernardo Kucinsky, era um literato e, portanto, tinha um lugar de honra na imprensa paulista em ídish. A comunidade do Rio não tinha tanta gente nem tanto dinheiro, mas o Rio era a capital, era aqui que as coisas ocorriam.
Um pequeno parêntese: antes do golpe integralista de 1938, houve aqui no RJ uma campanha antissemita brutal, ostensiva, em vários jornais, revistas e livros, e a comunidade judaica se organizou para enfrentá-la. Saíram vários livros de resposta, e uma das iniciativas que renderam mais frutos de resistência aos ataques antissemitas foi o Almanaque Israelita, produzido por Samuel Vainer em 1937. Meu pai, que era muito amigo do irmão do Samuel, Artur Vainer − cultíssimo, muito ligado à comunidade, trabalhou na Brazilianer Ídishe Presse −, organizou algumas coisas da resistência à campanha antissemita. Provavelmente por sugestão do Artur, meu pai indicou o nome do Samuel, então um jovem jornalista, para dirigir o Almanaque, do qual acho que saíram quatro números. Isso explicaria − e só recentemente fiz o vínculo − o agradecimento que Samuel faz a meu pai em algumas entrevistas gravadas. Samuel Vainer tem um papel na história da imprensa brasileira e também na da imprensa judaica. Inácio de Azevedo Amaral, que foi reitor da Universidade do Distrito Federal, emprestou o nome ao Almanaque, porque tinha que ser um nome brasileiro. Mais tarde, o professor Azevedo Amaral presidiu o Comitê de Ajuda às Vítimas da Guerra. Seu nome está ligado a uma cadeia de entidades judaicas da maior importância.
Quero lembrar também Nelson Vainer (nenhum parentesco com Samuel), um repórter que escrevia em jornais e revistas, e me deu uma mão quando comecei no jornalismo. Era da Bessarábia, falava romeno muito bem e traduziu várias antologias de contos romenos. Embora não tivesse uma atuação marcante na imprensa judaica, teve na imprensa brasileira com toda a sua carga de judaísmo.
E tem também Levi Cleiman, que foi secretário de redação do Jornal Israelita, um dos primeiros em português. Cleiman me deu uma oportunidade de escrever crítica de cinema na revista A cena muda. Depois, Nahum Sirotsky me levou para a revista Visão, e aí a coisa foi adiante.
Uma figura importantíssima dentro desse espectro da Ídishe Presse é David Markus. Sua história, no fundo, é a hist[ória da Segunda Guerra. Ele estava estudando na Universidade de Vilna, que não é pouca coisa, quando começou a guerra. Salvo pelo filossemitismo ou por um espírito humanitário ou, talvez, pacifismo de um dos Grandes Justos (como foi o Schindler), o cônsul japonês Chiune Suguihara, David Markus recebeu um visto e foi parar em Xangai, onde escreveu textos humorísticos para o Shanghai Jewish Club. Fez programa de rádio em Xangai − em ídish. É extraordinário o que a guerra fez, virou o mundo de cabeça para baixo. Em 1950, ele foi para SP, onde trabalhou no jornal ídish mais à esquerda Der Naier Moment-O Novo Momento. Depois veio para o Rio e ficou como diretor da Ídishe Presse até o fim. Tudo o que eu vivi como jornalista, ele estava cobrindo. O Fabio Koifman me contou que a primeira entrevista que deu ao publicar o famoso livro, que é uma obra-prima de pesquisa histórica, o Quixote nas trevas, foi para o David Markus. Um jornalista de mão cheia. Se houver tempo, eu conto um episódio com Isaac Bashevis Singer e eu, articulado pelo Markus [não houve tempo]. A sua vida dá um romance biográfico extraordinário.
Outra figura, vinda do teatro ídish da Argentina, chamava-se Jacob Parnes. Ele e a mulher, dona Marta, tinham um programa de rádio interessantíssimo, com comentários em ídish e em português. A primeira vez que ouvi o meu nome em rádio − eu devia ter uns seis anos − foi quando ele atendeu um pedido meu de música em ídish.
Aonde Vamos? era uma grande revista que eu detestava, de extrema direita, rancorosa, às vezes desonesta, mas que acompanhou a vida judaica com espírito jornalístico. O relato que Aron Neuman faz da morte de Stefan Zweig é de capital importância. A Aonde Vamos? Tinha importantes colaboradores, como Isac Izeckson, Avi Deutscher, crítico de balé, e Jorge ....... um dos melhores críticos de cinema daquela época.
Tínhamos que falar também de um jornal da esquerda proletária feito por Rubem Zinguers. Der Un’hoib-O Começo, estava ligado à Cozinha Popular Judaica, que era uma cooperativa de trabalhadores judeus, na Praça Onze. A polícia invadiu a Cozinha e prendeu todo o pessoal, inclusive Motl Gleizer, cuja vida é um filme. A filha, Geni, foi deportada. Chegando à França, os estivadores comunistas tiraram-na do navio. Ela reapareceu nos EUA, formou-se em Psiciologia e deu um grande depoimento para a socióloga e ex-senadora Eva Blaj.
Em 1919, aconteceu na Argentina La Semana Trágica, um pogrom anticomunista. Foram pegar los rusos, e quem eram los rusos? Entraram e destruíram o bairro judeu. A partir da Semana Trágica, a Argentina começou a exportar muita coisa para cá. Toda a nossa vida cultural começa mais ou menos depois disso.
Outro fator importante é que a primeira tentativa de organizar a comunidade judaica foi com o objetivo de se diferenciar dos tmeimim, os linke, as polacas. Os tmeimim faziam teatro, compravam turnês de companhias teatrais ídish só para eles, tinham a própria sinagoga. Uma das formas de a comunidade se diferenciar dos tmeimim era com os jornais, porque isso eles não podiam fazer.
HENRIQUE VELTMAN
Depois do que o Dines falou, tenho pouca coisa a acrescentar. Uma, é dar uma atenção ao Unzer Shtime-Nossa Voz, que foi um jornal da esquerda, editado primeiro no Rio e depois em SP.
Você [dirigindo-se ao Dines] falou do Samuel Vainer. Eu fui filho, fui adversário, fui tudo do Samuel. É impressionante a presença dele até hoje. Em 1968 ou 69, a Última Hora estava numa situação muito difícil. Fizemos um caderno especial sobre Israel para ganhar um dinheirinho e pagar a folha durante um ou dois meses. E o Moisés Fuks, que está aqui, aproveitando o embalo, convenceu alguém na Hebraica a fazer uma homenagem ao Samuel, uma placa bonita. Foi a única homenagem que ele teve na comunidade judaica, que eu saiba.
Uma historinha do Aron Neuman. Eu fui do Partidão até 1956, quando Agildo Barata e Wilson de Mendonça romperam com o Partido. Em seguida, comecei a receber em casa a Aonde Vamos? Até hoje não sei quem resolveu me presentear com uma assinatura. No início, eu olhava sem maior cuidado. Mas foi o primeiro veículo em língua portuguesa a publicar a íntegra do Relatório Khruschev. Tinha um mundo de colaborações extraordinárias, os textos mais importantes contra e a favor de todos os lados, maravilhosos. Foi a única revista que eu colecionei, de 1956 até o final. A Esther Feldman, uma mulher finíssima, muito culta, fazia a última página. Depois que o Aron morreu, ela ainda tentou segurar a revista, mas não conseguiu.
|