Boletim, 20 anos - Boletim ASA nº 120, set-out/2009

Um som na madrugada

Jacques Gruman / Especial para ASA

 

Um sonho sonhado sozinho não passa de um sonho.
 Um sonho sonhado em grupo é realidade (John Lennon)

                     

O vizinho até que foi delicado. Perguntou, com todo o cuidado, se aquele tic-tic-tic que ouvia de madrugada vinha do meu apartamento. Vinha. Era o som da máquina de escrever que a Sara, editora do Boletim, usava para datilografar os textos. Sem problemas. O vizinho não rompeu relações.


            Tempos heroicos, aqueles. Na primeira metade dos anos 1990, ainda éramos mastodônticos. Computador não passava de uma referência distante. Internet, então, era uma sigla misteriosa, coisa para iniciados. Toda a produção do Boletim se fazia em blocos pautados, que a Hama depois transformava em arte final e encaminhava para a gráfica. Sem Google, pesquisa demandava acúmulo de conhecimentos e acesso a livros e publicações. Contatos com potenciais colaboradores eram diretos, sem a mediação confortável dos e-mails. Nada a reclamar. Era o prazer do trabalho artesanal, suado, tocado por gente que ajudou a construir um veículo de comunicação que estava fazendo falta à comunidade judaica. Uma publicação que nunca aceitou ser chapa branca. Nem engolir tabus.


            A Hama (Rama, no início), responsável pela programação visual, é um capítulo à parte nesta jornada de duas décadas. Está conosco desde o parto, em agosto de 1989. Olhem só o que seus diretores, Rosangela Feitosa e Jorge Vieira, disseram: “Há muitas teorias de administração e marketing que dão conta do relacionamento entre fornecedor e cliente, mas nenhuma delas consegue dimensionar o nível de respeito e fidelidade que há entre a Hama Editora e seu mais antigo cliente, a Associação Scholem Aleichem, na produção do seu informativo. Já são 20 anos de prestação de serviços e parece que foi ontem... A Sara chegava na editora, na Rua Evaristo da Veiga, com seus textos originais datilografados e algumas imagens. Este era o início de um processo que continuava com  a digitação (num TK3000), diagramação da página (com cálculo em régua de paica), montagem da arte-final, fotolito, até finalmente a impressão e entrega dos boletins na sede da Associação. Muita coisa mudou nestes 20 anos na produção gráfica, mas o cuidado da equipe de comunicação da Associação com o informativo, não. Depois de 120 "fechamentos", muitas diferenças no processo de realização do informativo e algumas mudanças de endereço da Hama (do Centro para a ainda longínqua Barra da Tijuca), temos como saldo uma rica história de crescimento profissional e de mútuo aprendizado. Isto sem contar uma imponderável satisfação de ter participado do registro das atividades e do pensamento de uma comunidade atuante e realizadora. Parabéns, associados da ASA, por manterem o Boletim vivo e por fazê-lo chegar a esta edição histórica”. Fizeram, também, alguns elogios pessoais, mas, para não passar recibo de rasgação de seda, vamos conversar sobre isso numa roda de chopp.


            A comunidade judaica do Rio tem, hoje, um perfil sócio-econômico totalmente diferente daquele dos tempos da Praça Onze. De clientéltchiques e pequenos comerciantes, em geral com baixa escolaridade, transitou-se para um grupo social com elevado nível de instrução e renda média superior à da população em geral. Como em qualquer mudança, isso trouxe novos valores, em sintonia com a nova situação de classe. De meu posto de observação, percebo, e não é de hoje, uma inclinação conservadora no terreno político e dogmática nas questões do Oriente Médio. A divergência é traduzida, não raro, como traição. É triste, mas o nacionalismo israelocêntrico se transformou em ideologia inquestionável, definitiva. Olhar Israel com independência virou antessala do herem. É neste ambiente, não raro hostil, que circula o Boletim ASA. Se estou certo, o fato de completarmos vinte anos não deixa de ser um pequeno milagre. Salve ele, pois!


            Mario Benedetti, falecido recentemente, foi um dos maiores escritores e poetas do Uruguai. Em sua obra-prima, A trégua, há uma conversa tremendamente atual entre o personagem central e um amigo que já não via há muito tempo. Diz este amigo, a propósito do que seu interlocutor considerara uma piora na situação do país: “Na realidade, a acomodação e as negociatas sempre existiram. Então, o que piorou? Depois de pensar muito, estou convencido de que o que está pior é a resignação. Os rebeldes viraram semi-rebeldes, os semi-rebeldes são hoje resignados.” Eis aí, sem tirar nem pôr, uma análise muito precisa dos tempos que correm. Seja por cansaço, cinismo, oportunismo ou desencanto, a verdade é que há uma crise de militância, os ativistas se recolheram. Não é esse o espaço apropriado para descer no detalhe, mas a constatação é imperiosa. Nossa mensagem de rebeldia, pelo pensamento independente, pela corrente laica do judaísmo, repercute num meio balofo, resignado, pouco receptivo. Somos rotulados como “teimosos” e “antiquados”. Mudar esse quadro melancólico é vital para projetar um futuro viável para a ASA e seu Boletim. Não depende da vontade e do empenho de alguns, mas de condições objetivas e subjetivas que ultrapassam as fronteiras da ASA e mesmo da comunidade judaica.


            Vale a pena olhar mais de perto essa história de “antiquados”. Na verdade, o adjetivo se traveste, com inusitada frequência, em “stalinistas”. A ASA e o Boletim, talvez por incomodarem os desinformados e/ou preguiçosos (pensar dá trabalho), são equiparados à esquerda autoritária. Há base para isso? Basta acompanhar as programações da ASA e as edições deste Boletim para responder com um veemente não. Dialogamos, damos espaço para opiniões divergentes (muitas vezes antagônicas às da diretoria da entidade), cooperamos com instituições de dentro e de fora da comunidade judaica, lutamos por uma democracia substantiva, enriquecemos e divulgamos o campo da cultura judaica. O que há de autoritário nisso? A permanência de clichês ultrapassados não pode ser atribuída à má-fé. Acredito mais na hipótese da ignorância, da dificuldade em se admitir que há novidade na praça, da alergia às diferenças. Falta olho no olho. Lembro-me do texto de Brecht sobre Galileu Galilei. Na presença da nobreza, Galileu mostra um pequeno telescópio e convida os ilustres ouvintes a olharem através daquele singelo canudo adaptado a um jogo de lentes. Poderiam, com um simples gesto, destruir o dogma de que a Terra era o centro do Universo. Ninguém deu um passo à frente. Preferiram a posição esclerosada a enfrentar a descoberta. Eppur si muove ...

A equipe de colaboradores que integro, composta por Heliete Vaitsman, David Somberg, Renato Mayer, Tania Mittelman e Esther Kuperman, não deixa cair a peteca. O trabalho de Sara Markus Gruman na editoria dá consistência jornalística ao Boletim, e sua dedicação ultrapassa o vínculo profissional. Ao lembrá-los, homenageio todos aqueles que contribuíram para que chegássemos até aqui.

 

Jacques Gruman é diretor da ASA e colaborador deste Boletim.

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