O sim dele, o que significa?
Uri Avnery
Jornalistas vieram me dizer: “Você deve estar comemorando! Após tantas décadas, ele está aceitando a sua proposta!”
Estaria mentindo se negasse um certo gosto de satisfação, embora por pouco tempo. Não há, na verdade, nenhum discurso “histórico”; nem mesmo um “grande” discurso. Apenas um discurso bem endereçado, para acalmar Barack Obama, logo seguido de acenos pacificadores na direção da extrema direita israelense. Nada mais do que isso.
Netaniahu declarou que “nossa mão está estendida para a paz”.
Na Guerra do Sinai, em 1956, um jornalista amigo, nascido no Egito, servia na brigada que conquistou Sharm-al-Sheih. Como falava árabe, foi designado para interrogar um coronel do exército inimigo. “Cada vez que Ben Gurion anunciava que sua mão estava estendida para a paz”, disse-lhe o egípcio, “nós nos colocávamos em alerta máximo.”
Esse era o método de Ben Gurion. Antes de qualquer provocação, declarava que “nossas mãos estão estendidas para a paz”, acrescentando condições que sabia serem totalmente inaceitáveis para a outra parte. Assim, o mundo via Israel como um país amante da paz, ao passo que os árabes ficariam no papel próximo ao de assassinos seriais. Nossa arma secreta era a recusa dos árabes, dizia uma piada na época.
Em junho, Netaniahu lançou mão do mesmo velho truque.
Não subestimo o significado de o chefe do Likud pronunciar as palavras “Estado palestino”. Elas carregam um peso político. Uma vez difundidas pelo mundo, passam a ter vida própria, não podem ser chamadas de volta.
Numa canção popular israelense, o rapaz pergunta à moça: “Quando você diz não, o que isso significa?” Podemos, da mesma forma, perguntar: “Quando Netaniahu diz sim, o que quer dizer?”
Mas, mesmo se aquelas palavras soarem falsas na boca de Netaniahu, o chefe do governo e chefe do Likud se sentiu obrigado a pronunciá-las. Pois a ideia de um Estado palestino faz hoje parte de um consenso nacional, rejeitada apenas por um punhado de ultradireitistas. No entanto, a luta principal é transformar essa ideia em realidade.
O discurso todo foi endereçado a Barack Obama. Não se destinava a apaziguar os palestinos ou a lhes fazer um apelo. Os palestinos não passam do objeto passivo de uma discussão entre o presidente dos EUA e o primeiro-ministro de Israel. Exceto por alguns velhos e batidos clichês, Netaniahu falou deles, mas não para eles.
Está pronto, conforme diz, para conduzir negociações com a “comunidade palestina”, naturalmente, “sem pré-condições”. Significando: “sem pré-condições do lado deles”. Do lado de Netaniahu, há uma série de pré-condições, cada uma destinada a fazer com que nenhum palestino ou nenhum árabe, ou mesmo nenhum muçulmano, concorde em entabular negociações.
Condição nº 1: Os árabes devem reconhecer Israel como “o Estado-Nação do povo judeu” (e não simplesmente como um “Estado judeu”, conforme a mídia tem reportado equivocadamente). Nas palavras de Hosni Mubarak: nenhum árabe aceitará isso, pois significa cortar do Estado um milhão e meio de cidadãos árabes de Israel e negar a priori o direito de retorno dos refugiados palestinos, principal trunfo de barganha do lado árabe.
Quando da resolução das Nações Unidas sobre a partilha da Palestina, em 1947, entre um “Estado judeu” e um “Estado árabe”, não se pretendia definir o caráter dos Estados, apenas confirmar fatos: havia duas populações mutuamente hostis, e o país deveria ser dividido entre elas. (De todas as formas, 40% da população do “Estado judeu” seriam constituídos de árabes.)
Condição nº 2: A Autoridade Palestina deve, antes, estabelecer seu controle sobre a Faixa de Gaza. Mas como, se o governo israelense impede deslocamentos entre a Margem Ocidental e a Faixa de Gaza, e nenhuma força palestina pode passar de um lado para o outro? E a solução do problema pelo estabelecimento de um governo palestino de unidade também está descartada, pois Netaniahu declarou que não haverá negociações com uma liderança palestina que inclua “terroristas que nos querem aniquilar”, como se refere ao Hamas.
Condição nº 3: O Estado palestino deverá ser desmilitarizado. Todos os planos de paz falam de disposições de segurança que protejam Israel de ataques palestinos e a Palestina, de ataques israelenses. Mas Netaniahu não tem em mente reciprocidade, ele fala de domínio. Israel controlaria o espaço aéreo e os cruzamentos de fronteira do Estado palestino, transformando-o em uma Faixa de Gaza gigante. Além disso, o estilo de Netaniahu foi deliberadamente arrogante e humilhante: é óbvio que espera que a palavra “desmilitarizado” seja suficiente para que os palestinos digam “não”.
Condição nº 4: Jerusalém não será dividida e permanecerá sob domínio israelense. Essa proposta não foi apresentada como um lance de abertura para negociações, mas como uma decisão final. Garante, em si mesma, que nenhum palestino, árabe ou muçulmano a aceitará.
Nos Acordos de Oslo, Israel se dispôs a negociar o futuro de Jerusalém. Quem se dispõe a negociar − é um princípio legal aceito −, tem que fazê-lo de boa fé, na base do dar e receber. Todos os planos de paz, por conseguinte, proveem que Jerusalém Oriental seja, no todo ou em parte, devolvida ao controle árabe.
Condição nº 5: Entre Israel e o Estado palestino haverá “fronteiras defensáveis”. Este é o código para as anexações feitas por Israel e significa nenhum retorno às fronteiras de 1967, nem mesmo uma troca de territórios que permita que alguns dos assentamentos maiores sejam juntados a Israel. A fim de criar “fronteiras defensáveis”, uma grande parte dos territórios ocupados (os quais, juntos, somam 22% da Palestina de antes de 1948) será incorporada a Israel.
Condição nº 6: O problema dos refugiados será resolvido “fora do território de Israel”. Ou seja: nem um único refugiado receberá permissão para retornar. Qualquer pessoa realista concorda que não poderá haver retorno de milhões de refugiados. Segundo a iniciativa árabe de paz, a solução deve ser “acordada mutuamente”, o que significa que Israel tem que aceitar alguma solução e que as duas partes venham a concordar com o retorno de um número simbólico. Esta questão deve ser tratada com prudência e com o máximo de sensibilidade. Netaniahu faz o oposto: sua declaração provocativa visa claramente gerar uma recusa automática.
Condição nº 7: Nenhum congelamento dos assentamentos. Vai continuar a “vida normal” dos colonos, isto é, a atividade de construção visando “o aumento natural”. Como afirmou Michael Tarazy, consultor jurídico da OLP: “Ficamos negociando como repartir uma pizza e, nesse meio tempo, Israel a vai comendo”.
Tudo isso constou do discurso. Não menos interessante é o que dele não constou: palavras como o Mapa da Estrada, Anápolis, Palestina, o plano árabe de paz, ocupação, soberania palestina, abertura dos cruzamentos da fronteira com a Faixa de Gaza, as colinas do Golan. E, ainda mais importante, nada sobre o inimigo que deve ser transformado em amigo, segundo as palavras de um velho provérbio judaico.
Resta a pergunta: o que é mais importante, o reconhecimento verbal de “um Estado palestino” ou as condições que tornam as palavras vazias de conteúdo?
Há uma minoria de extrema direita que prefere bater de cabeça com os Estados Unidos a ceder qualquer sombra de território entre o Mediterrâneo e o Rio Jordão. Mas a grande maioria do povo compreende que um rompimento com os Estados Unidos deve ser evitado a todo custo.
Netaniahu e a extrema direita esperam que os palestinos rejeitem suas palavras, colocando-se no papel de permanentes recusadores da paz, enquanto o governo israelense seria visto como dando um pequeno, porém significativo, passo nessa direção. Eles estão seguros de que isso poderá ser obtido a troco de nada: o Estado palestino não será constituído, o governo israelense não terá que ceder nada, a ocupação permanecerá, assim como a atividade de colonização, e tudo isso será aceito por Obama.
Como Obama reagirá?
A primeira reação foi uma resposta polidamente favorável. Obama não está buscando uma colisão frontal com o governo israelense. Parece mais disposto a exercer uma pressão “branda”, de modo vigoroso, mas sem alarde. Uma postura acertada.
Tanto israelenses como palestinos perderam a esperança. Em ambos os lados, a imensa maioria deseja pôr um fim ao conflito, mas não acredita que a paz seja possível – um põe a culpa no outro. Nossa tarefa é reacender a crença de que isso seja de fato possível. Para tanto, é necessário um evento dramático, uma espécie de choque elétrico energizante, tal qual a histórica visita de Anuar Sadat a Jerusalém, em 1977.
Num encontro com o ex-presidente Jimmy Carter, em Jerusalém Oriental, arranjado pelo Gush Shalom e outras organizações pacifistas israelenses, sugeri que Obama deveria vir a Jerusalém e falar diretamente ao público israelense, talvez até mesmo da Knesset, como fizera Sadat.
A questão decisiva é a dos assentamentos. Será que Obama insistirá em um congelamento total das construções?
Netaniahu espera tirar o corpo fora. Encontrou agora um novo mote: deve-se autorizar a conclusão dos projetos aprovados e já começados. Não se pode interrompê-los no meio. Os ocupantes estão esperando pelos seus apartamentos, e não é justo fazê-los sofrer. A Corte Suprema não autorizará um congelamento. (Um argumento particularmente ridículo, como se a Corte devesse autorizar um ladrão a gastar uma parte do dinheiro que ele roubou antes de lhe dar a sentença.)
Se Obama aceitar isso, descobrirá mais tarde que esses projetos somam 100 mil novas unidades habitacionais.
O mais importante é que os colonos não se levantaram após o discurso de Netaniahu. Pelo contrário, aqui e ali se pôde ouvir uma crítica miúda, mas o grosso da população de colonos permaneceu estranhamente tranquilo.
O que nos remete ao inesquecível Sherlock Holmes, ao explicar que solucionara um mistério devido à atenção despertada pelo “curioso incidente do cão no meio da noite”.
“Mas o cão não fez nada durante a noite”, objetou alguém.
“Pois aí é que está o incidente curioso”, concluiu Holmes.
Publicado no boletim eletrônico do grupo israelense Gush Shalom.
Uri Avnery é jornalista, pacifista e ex-membro da Knesset.
Tradução de Renato Mayer. |