Comunistas e rabinos
Henrique Veltman / Especial para ASA
Ele foi sepultado no novo cemitério judaico de São Paulo, na cidade de Embu das Artes. Um grupo enorme de comunistas antigos compareceu ao féretro e, a pedido do Sylvio Band, um jovem rabino paulista ocupou-se do serviço religioso. Ele, o rabino, observou que os velhos comunistas não estavam à vontade, por isso mesmo, após as preces de lei, tratou de entoar a Internacional. “De pé, ó vítimas da fome...”
Dito e feito, depois das primeiras estrofes, comunistas e ex-comunistas, irmanados, comovidos, prestaram todas as homenagens devidas ao companheiro Castiel.
Castiel nos deixou no início deste ano.
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O mesmo rabino foi participar de um seminário na Cidade do México. No intervalo entre uma sessão e outra, foi conhecer a casa, hoje museu, onde Leon Trotsky morou até o fim da vida. Pra seu espanto, encontrou outro rabino na visita, um jovem norte-americano. Depois de alguns rápidos momentos de constrangimento, a verdade: ambos passaram pelos movimentos de Esquerda no Brasil e nos EUA. Não havendo minian para um kádish, decidiram-se por um El malé rahamim seguido, claro, da Internacional em dois idiomas, em inglês e na versão brasileira do anarquista José Oiticica.
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Depois de perder para Stalin a luta pelo poder, Leon Trotsky foi expulso da União Soviética em 1929. Estabeleceu-se de forma temporária e sempre precária na Turquia, França e Noruega, chegando ao México em 1936, onde o governo lhe ofereceu oficialmente asilo político e abrigo. Trotsky conheceu a pequena cidade de Teotihuacán, onde intelectuais mexicanos tentavam reviver uma nova religião, o culto do Sol.
Assim, depois de deixar a casa luxuosa de Diego Rivera, foi morar numa residência modesta, hoje museu, nas cercanias de Teotihuacán.
Uma organização privada, que se encarrega do apoio a exilados políticos, administra com visíveis dificuldades financeiras a casa em que Leon Trotsky viveu desde 1937, e onde foi assassinado em agosto de 1940.
Nenhum outro acontecimento do século 20 inspirou esperanças tão grandes, mais intensas e mais nobres quanto as despertadas por Leon Trotsky; nenhuma ideologia política contemporânea constituiu uma homenagem maior para a Humanidade do que sua fé no advento de uma Revolução permanente.
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Na reza pela morte de um familiar próximo, o jovem rabino Iossi Halpern me pede pra colocar tefilin. Não quero, não faz parte da minha tradição. Ele insiste, eu proponho: O.K., eu ponho os tefilin se você cantar a Internacional.
Pois é, ele não sabia do que se tratava. Expliquei, ele topou. Fez a sua pesquisa na internet. No dia seguinte, sorridente, entoou os primeiros versos do hino anarco-comunista. Botei os tefilin...Ou seja, achei legal a atitude do jovem rabino, ele se mostrou um cara aberto e inteligente.
O incrível SAPS
Ficava ali, na Praça da Bandeira, o restaurante central e a sede do SAPS, criado em 1940 por Getúlio Vargas, com os então dirigentes da Sociedade Brasileira de Alimentação, da qual fazia parte o Josué de Castro.
Entre as ações do SAPS destacavam-se a criação de restaurantes populares, o fornecimento de alimentos por alguns empregadores e a participação na educação alimentar. Na verdade, o SAPS mudou o cardápio do brasileiro, introduzindo o hábito de comer saladas, verduras e, por último, mas não menos importante, soja.
Mas não é disso que eu quero falar. O SAPS da Praça da Bandeira, além de fornecer refeições boas e baratas, por 10 centavos, tinha uma ótima biblioteca e uma razoável discoteca. Alimento para o espírito.
Tudo, quase que por obra e graça de seu diretor, o general Umberto Peregrino. Militar, mas antes de mais nada, um intelectual (graças a quem, em Santa Tereza, funciona hoje a Casa de Cultura São Saruê). Peregrino exerceu diversas funções na carreira militar: professor do Colégio Militar do Rio de Janeiro, diretor do SAPS, diretor da Biblioteca do Exército, diretor do Instituto Nacional do Livro. Recebeu o Prêmio Paula Brito (1959) e diversas condecorações. Publicou vários livros entre os quais Literatura de Cordel em discussão (1984), além de ensaios e artigos em revistas e jornais.
Pois é, mas no nosso SAPS da Praça da Bandeira, Fraim Hechtman e eu (naquela época ele era simplesmente o Felipe), Jacó Gandelman e meu irmão Moysés, moradores do Beco da Mãe, e José Lipes, vizinho da vila, íamos quase que diariamente ouvir música clássica e pegar livros. No início, a gente até selecionava títulos e autores; mais adiante, por preguiça, decidimos explorar os livros por prateleira. E foi assim, numa confusão danada, mas muito proveitosa, que misturamos autores, temas, épocas. Devoramos de Emilio Salgari a Emmanuel Kant, sem traumas.
Mas nem só de judeuzinhos do Beco se alimentava o SAPS: uma turma enorme do nosso Colégio Hebreu Brasileiro, diariamente, vinha de bonde depois das aulas, almoçava por 10 centavos (pra desespero das mamães, sem entender como seus filhos trocavam a comida iídiche por feijão com arroz) e freqüentava a Biblioteca e Discoteca. Sem contar outros eventos que o Umberto Peregrino inventava para agitar o SAPS. Por exemplo, um concurso literário sobre a figura do historiador Otávio Tarquínio de Souza. Deve ter sido em 1950. Acho que 90% dos estudantes que concorreram eram do Hebreu. Claro, o concurso foi vencido pelo Ari Vaisman !
Acredite quem quiser, mas a partir de uma certa prateleira, a biblioteca do SAPS já não saciava nossa fome de leitura. Foi assim que os meninos do Beco descobriram as demais bibliotecas públicas do Rio, a Experimental Castro Alves, do IPASE, as da avenida Venezuela, a BIBSA, e claro, a Biblioteca Nacional.
Tempos bons, aqueles, quando a gente não tinha grana pra comprar livros, mas tinha um enorme apetite por eles !
Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.
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