Argentina - Boletim ASA nº 119, jul-ago/2009

Momentos duros     

Heliete Vaitsman / Especial para ASA

                           

Depois do atentado à AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina), que está completando 15 anos sem que os culpados tenham sido punidos, o presidente Carlos Menem manifestou seu pesar aos israelenses – que responderam, não sem ironia, que eles é que lhe deviam condolências, afinal os 85 mortos e 300 feridos eram em sua maioria argentinos... Naquela manhã do inverno portenho, 18 de julho de 1994, 300 quilos de explosivos derrubaram os oito andares do prédio, no centro de Buenos Aires, onde funcionavam várias instituições culturais e sociais, inclusive a entidade-mãe, Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA), além de uma das maiores bibliotecas em hebraico da América Latina e uma das maiores do mundo com obras em ídish (parcialmente recuperadas dos escombros, nas semanas seguintes, por voluntários).  

O atentado – o mais letal contra uma comunidade judaica desde a Segunda Guerra – ocorreu dois anos depois que outro, também impune, deixara 22 mortos e centenas de feridos na embaixada de Israel em Buenos Aires. Ambos foram desde então atribuídos por distintos governos argentinos a um inalcançável “terrorismo internacional” (regimes iraniano e/ou sírio, Hezbolá); as conexões locais continuaram a salvo, apesar dos protestos de familiares de vítimas e da mídia. Ainda que os ataques tivessem mais relações com a ação de máfias criminosas e disputas entre complexas redes de interesses internacionais do que com a persistência do antissemitismo na Argentina, as duas coisas convivem. E desde então as instituições judaicas se protegeram com fortes medidas de vigilância.

Corta para 2009. No mesmo centro de Buenos Aires, numa bela tarde de domingo (17 de maio), homens armados de pedaços de pau e correntes de ferro atacaram os participantes de um ato de homenagem ao 61º. aniversário do Estado de Israel, aos gritos de “morram os judeus” e “vão para Israel”. O vice-chanceler, Victorio Tacetti, expressou ao embaixador Daniel Gazit e à comunidade judaica a “solidariedade” do governo. Diante de protestos da comunidade judaica e da mídia, as autoridades desmentiram que não houvesse policiais no ato; garantiram que  estavam lá,  mas à paisana, tanto que teriam perseguido e detido alguns dos atacantes.

Será que isso lembra alguma coisa? A explosão na embaixada ocorreu em 17 de março de 1992, num horário em que toda a segurança se ausentara do local. Mas o então ministro do Interior, José Luis Manzano, apressou-se a informar que ela tinha sido provocada por um arsenal guardado dentro da própria representação diplomática, acrescentando que havia indícios de que os israelenses tinham um plano para colonizar o sul do país. Ele não estava sendo original: em 1971, um professor de Direito local denunciara o “Plan Andinia”, suposta conspiração judaica mundial para apoderar-se da...Patagônia!
Os momentos históricos são diferentes, claro, mas de uma forma ou de outra, e em que pese sua integração ao tecido sócio-econômico e cultural do país, os judeus argentinos não se livraram da marca do “estrangeiro”. Antes estigmatizados pelas oligarquias ultranacionalistas, agora o são por grupos minúsculos que se dizem de “esquerda” (ainda que não apresentem pontos programáticos que pareçam de esquerda) e vociferam teorias da conspiração em que avulta a supremacia judaica ou “sionista”. Os atacantes de maio eram militantes de uma das facções do grupo Quebracho, e também havia gente que se dizia da FAR, sigla que foi da guerrilha dos anos 1970.

Depois de 1930, o antissemitismo foi influenciado pelo nazismo e o fascismo europeus. Surgiram grupos como a Liga Patriótica e a Aliança Libertadora Nacionalista, e dezenas de publicações conclamavam à “resistência” contra os judeus, ora apontados como sugadores das riquezas nacionais ora como fomentadores do comunismo. O governo militar que assumiu o poder em 1943 restabeleceu a educação religiosa nas escolas públicas, pondo fim ao laicismo estabelecido em 1884. Em 1948, quando Evita acusou os antissemitas de serem “representantes nefastos da oligarquia”, Perón já abrira as portas, ao final da Segunda Guerra, a centenas de criminosos de guerra nazistas.

A partir da década de 1960, grupos como Tacuara e Guarda Restauradora Nacionalista atuaram livremente tanto nos períodos de democracia quanto na ditadura. Houve dezenas de ataques contra judeus nas décadas seguintes. Uma jovem judia foi morta sob a “acusação” de ter ajudado o Mossad no sequestro de Adolf Eichman. Em agosto de 1960, membros da Tacuara atiraram num adolescente judeu. Um editorial do semanário Mundo Israelita se queixou: “A polícia nunca os encontra, nunca os pune. Sabe quem são, quem os comanda, onde estão. Eles não escondem suas intenções, mas ninguém os incomoda (...).”

Quando Raul Alterman, 32 anos, militante comunista, foi morto a tiros em 1964, seus pais receberam uma carta, assinada pela Tacuara, que dizia: “Ninguém mata por acaso. Mataram seu filho porque era um judeu sujo.” Mas nenhum anúncio fúnebre mostrou a estrela de Davi: só em 1986 foi cancelada a disposição oficial que impedia que ela aparecesse nesses anúncios dos jornais argentinos.

E tão recentemente quanto 1998, um Congresso Neonazista se realizou no Colégio Lasalle. Naquele momento, a comunidade, que se fora reduzindo desde os anos 1970, tinha cerca de 300 mil pessoas, 80% delas na capital e na Grande Buenos Aires. Era também uma fase de crise profunda das instituições judaicas centrais, cujos principais dirigentes, vinculados aos setores financeiros e aliados ao governo Menem, foram protagonistas de uma série de escândalos, falências, desfalques, corrupção. É importante lembrar esse contexto, já que não há fatos surgidos por geração espontânea. O jornalista Diego Melamed relata, em seu livro Los judíos y el menemismo. Un reflejo de la sociedad argentina (Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1999), o seguinte diálogo com um entrevistado:

“Você entende por que roubei o dinheiro dos mortos da AMIA? Tenho um sangue-frio que me assombra...”

O jovem dirigente [comunitário] terminava de negociar arduamente uma questão judiciária grave. Ao desligar o telefone, ele me olhou fixamente e lançou esta frase que nunca esquecerei. Nesse momento, confirmei que alguém tinha que contar esta história.”

Ele se referia aos milhões de dólares de indenizações que sumiram em meio às operações dos chamados “bancos comunitários” (Patricios, Mayo, Banco Israelita de Córdoba, Banco Israelita de Rosario), cuja quebra, em 1998 e 1999, levou o presidente da DAIA a processar por antissemitismo o presidente do Banco Central, Pedro Pou. O possível antissemitismo de Pou, contudo, não era a maior preocupação dos judeus comuns: àquela altura, 30% deles, antes de classe média, tinham perdido renda e se tornado neo-pobres (conforme estudo  sociodemográfico patrocinado pelo American Jewish Joint DistributionCommitee, publicado em 2005, citado por Ricardo Feierstein em Historia de los judíos argentinos, Editora Galerna, 2006).

Num panorama com tantas variáveis, encerro com o filósofo argentino Darío Sztajnszrajber, professor do Seminário Rabínico de Buenos Aires, para quem fatos como o de maio não significam que a comunidade esteja em risco, mas apontam para uma crise tanto do discurso da esquerda (“uma denominação hoje esvaziada de ideologia, já que alberga posturas que vão do fascismo ao trotsquismo, ou desde a defesa das minorias até o apoio a regimes teocráticos”) como das instituições judaicas centrais, “que buscam colocar toda a esquerda sob o mesmo teto e acusá-la de judeufóbica”.

 

Heliete Vaitsman, jornalista, é colaboradora deste Boletim.

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