Judeus no Islã - Boletim ASA nº 119, jul-ago/2009


Irã e outros, ontem e hoje

Michael Gordon / Especial para ASA

A visita do presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad ao Brasil foi cancelada na última hora. Isso, todos ficamos sabendo, embora o motivo do cancelamento continue uma incógnita. Em que pese o fato de Ahmadinejad ser o presidente eleito da República Islâmica do Irã, trata-se, sem sombra de dúvida de uma das figuras menos palatáveis no atual cenário geopolítico.


O Irã não chega a ser exatamente uma democracia, apesar de seus cidadãos votarem para presidente. Antes da eleição, entretanto, um colegiado de clérigos decide quem poderá ser ou não candidato. Via de regra, sobram poucos candidatos, sendo  a maior parte deles  aiatolás (clérigos). Ahmadinejhad não é um aiatolá e concorreu no pleito contra o ex-presidente Khatami, este sim um aiatolá. A sociedade iraniana, sedenta de mudanças, escolheu um “não-aiatolá” para presidir o país, mas, na prática, essa escolha se mostrou absolutamente infeliz.


Estive no Irã em 2001 e em 2006, na primeira vez, sob o regime de Khatami, na segunda, sob o regime de Ahmedinejad. Embora a frota de carros estivesse de fato mais nova, as liberdades individuais pareciam ter retrocedido. Ao menos em teoria, os jovens iranianos de 2001 imaginavam que em breve teriam acesso livre à internet e que a “polícia moral” baixaria a vigilância. Já em 2006, algumas jovens iranianas com quem conversei mostravam-se assustadas com a notícia de que teriam de vestir um uniforme padrão, que as cobriria da cabeça ao calcanhar!


Na minha primeira visita, conheci a comunidade judaica do país, surpreendentemente grande e ativa. Visitei as sinagogas de Abrishami e Youssefabad, na capital, Teerã, e tive o privilégio de participar de um Shabat na primeira delas, com cerca de 200 integrantes da comunidade. Saindo da cerimônia, recebi o convite do rabino para jantar em sua casa. Visitei também a Manucheri, rua do comércio judaico.


A leveza e o frescor da comunidade me deixaram com a sensação de que os judeus viviam muito bem no país refundado por Khomeini por meio da revolução iraniana de 1979. A bem da verdade, os judeus possuem regalias que os muçulmanos não possuem. Os jovens, por exemplo, podem se encontrar em clubes, enquanto que aos muçulmanos é proibido dois jovens de sexo oposto se tocarem se não forem casados (pior ainda se forem dois jovens de mesmo sexo, já que o homossexualismo é visto como um crime no país).


Mas bastou me afastar alguns metros da sinagoga para perceber algumas sutilezas, como a estátua em homenagem à Intifada, na praça Felestin, em frente ao templo. A mesma rua da sinagoga abriga ainda a Embaixada da Palestina, justamente na casa onde havia sido a Embaixada de Israel, nos tempos do xá Reza Pahlevi. Também notei que não era tão fresca e tão leve assim a vida dos judeus, diante de sua preocupação com a minha segurança e a deles. A vigilância correria a noite toda ou, pelo menos, até o apagar das velas do Shabat. Diziam que era muito perigoso para os judeus no Shabat devido ao risco de serem atacados.


Corri o país visitando comunidades menores, como a de Kerman e a de Yazd. Por lá, os judeus são tão poucos que nem sempre se completa o minian. Já em Shiraz, 8 mil judeus vivem em paz e procuram não associar a religião ao Estado de Israel. Lá, em 1998, oito judeus foram presos sob acusação de espionagem para Israel. De volta à capital, onde vivem 12 mil judeus, visitei o Comitê Judaico e vi, com surpresa, um quadro de Khomeini na parede. Havia também diversas fotos do funeral do “imã Khomeini”, com a presença da comunidade judaica chorando por sua morte. Retórica? Não creio. Há muitas sutilezas na relação entre os judeus iranianos e Israel. Por um lado, as mães choram de saudades dia e noite por seus filhos e netos que migraram para lá; por outro lado, eles se declaram iranianos fiéis ao seu país.


O populismo do presidente iraniano é visto com euforia na região sul da capital, a  mais pobre. Ao mesmo tempo, no norte, mais alto, no pé das montanhas, o presidente não goza do respeito necessário para se manter no cargo após as eleições deste ano.
Se hoje a situação dos judeus é complexa no Irã, certamente viveram períodos muito mais tensos quando, no século 4, ainda antes de o islã desembarcar na Pérsia, o rei sassânida Yazdegird 2˚ os proibiu de celebrar o Shabat. Ou no século 8, sob a dinastia dos omíadas, quando, juntamente com os cristãos, foram obrigados a usar vestimentas distintas das dos muçulmanos.

No ano de 1091, o califa de Bagdá obrigou as mulheres judias a vestirem sapatos diferentes em cada um dos pés, um preto e outro vermelho. Judeus e cristãos não podiam ter paredes mais altas que as construções dos muçulmanos e não podiam montar cavalos. Durante o período sefevida, no século 15, foi criada a Lei da Apostasia, que dizia que qualquer judeu ou cristão que se convertesse ao islamismo poderia reclamar as propriedades de seus parentes.
Os judeus tiveram, entretanto, momentos dos mais marcantes na sua história, quando finalizaram o Talmud da Babilônia, nas academias de Sura e Pumbedita, no século 5. Ou, no século 14, quando viveu Shahin, o maior poeta judeu iraniano, no período da invasão mongol. Ou até mesmo retrocedendo aos aquemênidas, quando Artaxerxes se casou com Ester.


A história dos judeus no Califado Muçulmano foi escrita ora com tinta das penas de grandes pensadores como Maimônides e Avicena, ora com sangue, como quando eram forçados à conversão para o islã, assim como na Inquisição espanhola. Entretanto, era mais fácil para os judeus a conversão ao islã do que a conversão ao cristianismo, por um motivo óbvio. Enquanto neste, eles deveriam acreditar em Jesus como filho de Deus e o próprio Deus, naquele, bastava acreditar que Maomé era o último dos profetas de Deus, precedido por Jesus, Moisés e Abraão.


O encontro de duas culturas, a árabe e a judaica,  transfigurou-se num dos mais belos capítulos da História do judaísmo e serviu de base para grandes descobertas científicas. Isso  do século 7 até o século 10. Nos dias atuais,  só há desencontros entre essas duas culturas baseadas no monoteísmo. Assim, visitar os países árabes que fazem fronteira com Israel tornou-se um grande desafio. Comecei em 2003, visitando Líbano e Síria. No primeiro, restam apenas ruínas do bairro de Wadi Abu Jamil. A sinagoga Maguen Avraham insiste em revelar alguma beleza que resta em seus azulejos quebrados, e os tratores tomam conta do bairro todo, derrubando os prédios que resistiram às rajadas de metralhadoras  durante os mais de 20 anos de guerra civil. O cemitério localizado na Rua Damasco está sob os cuidados de uma família xiita. Em Damasco, o bairro judaico ainda existe nos mapas da cidade velha, mas são poucas as famílias de judeus que restaram após a abertura de 1992, feita por Hafez Assad, pai do atual presidente.


O Egito vive em paz com Israel desde os acordos de Camp David, mas os israelenses não são bem vindos no Cairo. Ouvi o que não queria, mesmo não entendendo árabe (e mesmo não sendo israelense). Na cidade, as sinagogas Shaar Hashamaim e Ben Ezra não realizam serviços rotineiros para a pequena comunidade que ainda vive por lá. Em Alexandria, a sinagoga Eliau Hanabi está fechada. Já na Tunísia e no Marrocos a situação é mais favorável, e existem comunidades ativas. Em Túnis são cerca de mil judeus e em Jerba, ilha ao sul do país, cuja sinagoga El Ghriba remonta aos primórdios do judaísmo portátil, também conta com mil judeus. No Marrocos, a comunidade se concentra em Casablanca, mas ainda há algumas dezenas de judeus vivendo em Fez, Marrakesh e Rabat.


A surpresa ficou por conta dos países da ex-União Soviética, como o Azerbaijão, com seus mais de 10 mil judeus. Muitos deles descendem dos judeus da Geórgia, país vizinho. Outros tantos são conhecidos como os Judeus das Montanhas, pois habitam os pés do Cáucaso. No Uzbequistão, vivem os descendentes dos Judeus de Bokhara. Acredita-se que sejam cerca de 30 mil os judeus que lentamente retomam a tradição sefaradi, proibida nos tempos de Stálin, Khruschev e companhia.

A balança sempre foi bastante instável para os judeus persas. Viveram recentemente um período excepcional sob a dinastia Pahlavi. Durante a guerra contra o Iraque,  alistaram-se e morreram para defender o regime de Khomeini. Agora vivem sob o olhar atento da polícia secreta e, ao mesmo tempo, gozam de certa liberdade de locomoção dentro do país. Procuram separar semitismo e sionismo, mas a existência de um presidente antissemita (que nega a existência do Holocausto) e antissionista (que prega a destruição de Israel) os coloca sob pressão. É pouco provável que em uma década ainda reste algum judeu vivendo em países árabes.

 

Michel Gordon é físico e repórter fotográfico. Acaba de lançar o livro Um judeu no islã (Editora Maayanot).

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