Falando de tapeceiros
Márcio Scalercio / Especial para ASA
O historiador inglês Ian Kershaw disse uma vez que “o passado é uma terra estrangeira”. Nem preciso dizer que esta sentença foi imediatamente incluída na lista de frases que eu próprio adoraria ter cunhado. Em casos como esse, resta-me remoer a inveja, iludir-me imaginando que poderia ter pensado nisso antes e, finalmente, de modo vingativo e despudorado, apropriar-me da observação para meus próprios fins. Kershaw queria dizer que, muito embora possamos visitar o passado, jamais poderemos viver como no passado. Por meio de livros, estudos de documentação, do exame de objetos e da coleta de testemunhos dos mais velhos, podemos ter uma idéia razoável do passado. Contudo, a mentalidade que campeava no passado é tão diferente da nossa, que tudo o que podemos fazer é tentar agir como “turistas aplicados”.
A sentença elaborada por Kershaw me vem à mente toda vez que leio sobre o dito “fundamentalismo islâmico” em geral e sobre o Irã pós-revolução de 1979 em particular. Aliás, o sociólogo Peter L. Berger observou, em artigo publicado em 1999, como o termo fundamentalismo é pouco apropriado para designar o processo. De acordo com Berger, o conceito foi emprestado do fenômeno religioso evangélico norte-americano, os sucessivos Great Awakening, que ocorrem de tempos em tempos nos Estados Unidos desde meados de 1725. A transferência de conceitos calcados em experiências histórico-culturais específicas, sua conversão em chaves para o entendimento de situações muito diferentes daquelas nas quais o conceito se originou, sempre produziu problemas de interpretação graves. Mais do que ajudar, o uso indevido de conceitos fora de lugar acaba toldando o entendimento. Sem querer levar muito adiante o caso, basta dizer que, de acordo com a leitura vulgar sobre o “fundamentalismo”, renascer em Cristo e promover a Jihad seriam ações pertinentes a campos muito próximos.
O fenômeno do rigorismo religioso iraniano tem relação com os elementos específicos da tradição islâmica de viés xiita, é claro, mas jamais podemos deixar de lado que os eventos foram alimentados pelos caminhos e as agruras da modernização da sociedade daquele país. Parte considerável da história do Irã moderno é uma tragédia, e os iranianos, mesmo os religiosos, não estão a tentar viver como no passado. Como Kershaw observou, isso não é possível. O marco do islamismo iraniano não reside estagnado nos cenários das épocas da revelação divina endereçada ao Profeta, ou na paixão encenada pelo martírio do imã Hussein, o principal ícone da versão xiita do islã, liquidado junto com seus seguidores na emboscada de Karbala. A religião é um marco cultural inquestionavelmente importante do Irã do presente. Os rituais celebrados e os modos de sentir a fé sofrem permanentes contaminações provenientes do acúmulo de experiências novas, satisfatórias ou dolorosas percebidas pela comunidade iraniana ao longo das eras. É uma rematada tolice imaginar que a questão religiosa nada mais é do que um arcaísmo manipulado por meia dúzia de lunáticos que insistem em viver no mundo de anteontem. Em qualquer cenário provável do futuro do Irã e nas modulações dos vínculos do Irã com a comunidade internacional, a religião estará inevitavelmente presente.
Desde fins do século 19, a relação entre o Irã e o Ocidente tem sido traumática. O país foi degradado à condição de peão do Grande Jogo – uma disputa em que a Grã-Bretanha procurava conter a expansão russa na Ásia Central e na região dos estreitos do Mar Negro. O Irã se tornou um estado tampão, com agentes russos e britânicos aprontando muita intriga e confusão na política interna do país. Mas, no final das contas, a Grã-Bretanha levou vantagem. Em 1908, criou a Anglo-Iranian Oil Company, e, em 1909, deu início à construção da grande refinaria de Abadan. Providenciou que, por uma bagatela, mares de petróleo e nuvens de gás fluíssem para alimentar a demanda britânica. Tais iniciativas contaram com o apoio governamental iraniano, pois, em 1925, os ingleses deram suporte à ascensão do coronel Reza Khan ao trono do pavão como o novo xá do país. Assim sendo, montou-se no Irã um cenário do tipo “veias abertas” descrito por Eduardo Galeano para a América Latina. O Ocidente ficava com todos os ganhos auferidos com o petróleo e o gás. Aos iranianos coube apascentar camelos e tecer tapetes.
A Segunda Guerra Mundial foi seguida pela descolonização e pelas lutas de libertação nacional. Os países muçulmanos assumiram a ponta desse processo. Hoje sabemos que a mera formação de países independentes não soluciona todos os males. Mas, na época, imaginava-se com alguma razão que, suprimindo a exploração imperial, os novos países teriam recursos de sobra para abrir seus próprios caminhos. No Irã não foi diferente. Entre 1951 e 1953, chegou ao poder um novo primeiro-ministro, o médico Mossadegh. Este, contando com o apoio da classe média e de setores de esquerda da sociedade – inclusive o partido comunista Tudeh –, deslanchou uma campanha pela nacionalização do petróleo e da refinaria de Abadan. Esse era o clima da época. Aos reclamos dos proprietários quanto à necessidade de um acordo justo ou um debate quanto à indenização, os nacionalistas respondiam que tudo já havia sido pago, graças aos mares de petróleo e às nuvens de gás extraídos do Irã desde 1909. Na Grã-Bretanha, de volta ao posto na liderança do governo, Winston Churchill disparava nervosas baforadas de seu charuto. Considerava inadmissível que “nativos” se atrevessem a expropriar propriedade britânica. Muito embora o poderio inglês já não fosse lá essas coisas, moveu céus e terras possíveis para gorar as intenções de Mossadegh. A Marinha Real foi mobilizada para ocupar posições no Golfo Pérsico. A imprensa foi arregimentada para exibir a tese de que o ministro iraniano iria despejar o país no abraço do urso soviético. Churchill, pintado para a guerra, atraiu o interesse dos americanos.
É trágico que as relações entre Estados Unidos e Irã no pós-guerra tenham sido inauguradas dessa maneira. O presidente Eisenhower, inclinado a acreditar nas acusações contra Mossadegh, permitiu que a recém-criada CIA armasse seu circo no Irã para elaborar um golpe. O Irã foi o primeiro país no mundo a ser mimoseado por um golpe de Estado conduzido pela CIA. Uma vez derrubado, Mossadegh foi substituído pelo xá Mohamed Reza – filho de Reza Khan –, investido em poder absoluto. O xá, escudado por militares e por uma polícia secreta das mais violentas do mundo – a SAVAK –, colocou em prática um processo de ocidentalização acelerada do país denominado Revolução Branca. No final das contas, tratava-se de modificações eminentemente cosméticas, pois, como de hábito, a massa do povo iraniano era mantida apartada dos benefícios oriundos das principais riquezas do país. Parece frase de escritor panfletário, mas não é. Enquanto o xá e os seus levavam uma vida de luxo e prodigalidades, pavoneando-se na imprensa ocidental como governantes esclarecidos e progressistas, a SAVAK encarcerava a oposição, e a população urbana iraniana, que não parava de crescer, deparava-se com a pobreza e a falta de oportunidades.
Os temas da religião que se manifestaram na Revolução Islâmica de 1979 estão envolvidos com todas essas peripécias do passado relativamente recente do Irã. É inegável – e aqui, devo declarar que de modo algum simpatizo com os excessos da Revolução – que o povo do Irã tem motivos de queixas contra o Ocidente e que a liderança carismática do aiatolá Khomeini soube habilmente catalisar e se fazer de fio condutor principal das mesmas. De nada adianta ficarmos a criticar o sistema político iraniano sem que tenhamos consciência de como o mundo externo contribuiu para que o arranjo das coisas evoluísse de tal maneira.
Hoje o Irã é acusado de desenvolver um programa nuclear com o intuito fundamental de ameaçar seus vizinhos. Parece que passa pela cabeça de muito poucos que o Irã pode também sentir-se ameaçado, e que o passado lhe apresenta bons motivos para tanto. Mas, para que recorrer ao passado, esta terra estrangeira? Basta que nos contentemos com o presente. Por meio de uma mera espiada no mapa, perceberemos que os Estados Unidos, hoje, tornaram-se vizinhos do Irã, em ambos os lados da fronteira. Um formidável sanduíche geopolítico onde o Irã desempenha o papel de recheio.
Márcio Scalercio , historiador, é professor titular da Universidade Candido Mendes e professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-RJ.
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