Beco da mãe -Boletim ASA nº 119, jul-ago/2009

Concertos no Cine Rex

Henrique Veltman / Especial para ASA

                

O leitorado deste Boletim, com certeza, lembra os Concertos para a Juventude, na sua fase maravilhosa, no cinema Rex, na Cinelândia. Foi lá, por exemplo, que em 1953 vi e ouvi a Eudóxia de Barros na primeira audição no Brasil do Concerto n˚ 1, de Villa-Lobos.


Eudóxia foi uma das vencedoras para solista da Orquestra Sinfônica Brasileira, sob a regência de Eleazar de Carvalho. Ele  a convidou a solar primeiramente no Rio de Janeiro, no dia 11 de outubro de 1953. Ela tinha 16 anos. Hoje, Eudóxia se exibe mensalmente nos concertos dominicais de A Hebraica de São Paulo, com grande sucesso.


Naquela época, e mesmo em alguns anos anteriores, o Concerto era transmitido pela Rádio Ministério da Educação. E quem era a locutora-apresentadora?  Fernanda Montenegro. Eleazar trazia para reger a orquestra grandes maestros que tinham fugido da Guerra, e que se juntavam aos músicos brasileiros.
Nesses espetáculos, nós, a garotada que lotava o Cine Rex, recebíamos verdadeiras aulas de como assistir a um concerto. Além de aprender a cantar o Hino Nacional. Era muito engraçado, mas extremamente didático, levar os “bailes” de Eleazar de Carvalho, insistindo duas, três vezes, até que nós, o público,  entoássemos o hino corretamente.


Em 1956, o Nahum Sirotsky foi dirigir o Diário da Noite, e eu fui ser o repórter mais jovem daquele jornal Associado. Um dia, o Werneck sem-barba (havia o outro Werneck, com-barba), secretário de Redação, me mandou entrevistar o Villa-Lobos. Não foi difícil marcar a entrevista, e uma bela tarde lá fui conhecer de perto o gênio da música brasileira. Era um apartamento ali na Araújo Porto Alegre, num prédio ao lado do Bar Vermelhinho, em frente à sede da ABI.
Mestre Villa, trajando um robe verde com bolinhas brancas,   recebeu-me friamente, e foi logo me perguntando o que eu sabia dele. Gaguejando, falei nas Bachianas e travei. Você não sabe nada de música, exclamou. Depois,  me puxou-me pro lado do piano e foi me explicando, com muitos detalhes, o que era a música, desde o homem da caverna até o seu clímax, isto é, ele, Villa-Lobos.


Essa aula durou a tarde inteira e entrou pelas primeiras horas da noite. Umas duas vezes foi interrompida pela proverbial intervenção de dona Arminda, que nos serviu rápidos lanches.


Aí pelas 22 horas, Villa-Lobos encerrou a aula, ligou o rádio na Nacional e prestou muita atenção ao seriado “O Sombra”, na voz do Saint-Clair Lopes: “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? O Sombra sabe, he, he, he...”


Saí do apartamento noite fechada e, no dia seguinte, quem disse que eu conseguia escrever a reportagem? O Werneck com-barba teve pena dos meus problemas,  passou-me uma nota de 20 cruzeiros e sugeriu: deixe tudo aí de lado, vá a Copacabana, olhe as garotas, tome um sorvete. Depois você volta à Redação e, aí, com certeza, o texto sai.


Fiz exatamente o que ele me aconselhou. E mais tarde, já na redação do jornal, a reportagem fluiu sem problemas. Começava assim: “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? O Sombra e Heitor Villa-Lobos sabem...”

No dia seguinte à publicação da entrevista, soou o telefone na Redação e alguém gritou: “Henrique, telefone, acho que é o Villa-Lobos!” Tremi. Atendi ao chamado, Villa simplesmente me intimou a comparecer à ABI “para uma partida de bilhar”. O porteiro da ABI queria me impedir de acessar a sala de jogos, afinal eu ainda tinha cara de garoto, imberbe. Mas Villa interveio, o funcionário recuou e eu joguei algumas partidas com o maestro. Tudo no maior silêncio possível. No final, ele limpou as mãos cheias de giz, deu um sorriso e me garantiu: “A reportagem estava ótima, guri!”

 

 

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.

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