Israel - Boletim ASA nº 118, mai-jun/2009

Beco sem saída     

Fábio Metzger / Especial para ASA

                           

Sobretudo da lembrança das da minha infância.Após os resultados das eleições para primeiro-ministro de Israel, em fevereiro, muitas dúvidas surgiram. Quem governaria Israel? O partido mais votado foi o Kadima de Tsipi Livni, de centro-direita, com 28 cadeiras. Em segundo lugar, ficou o direitista Likud, de Biniamin Netaniahu, com 27 cadeiras. Curiosamente, o convidado a formar gabinete governamental  foi  o segundo colocado. Livni ganhou, mas não levou.  Netaniahu não ganhou, mas foi o escolhido para governar. Pior do que isso: na sua insaciável sede de poder,   recusou-se a compartilhar o cargo de primeiro-ministro com Livni, cada um ocupando dois anos de mandato, algo já feito nos anos 1980, com a coalizão Avodá-Likud. Contudo, Netaniahu propôs que o Kadima e o Avodá fizessem parte de seu gabinete. O Kadima recusou. Depois de uma série de longas negociações,  Netaniahu acaba de formar um gabinete em forma de ornitorrinco: tem ferrão, bota ovo, dá leite e se arrasta. Articulou para todos os lados, e acabou costurando um gabinete com trinta ministros e oito vice-ministros.

O Israel Beitenu, de Avigdor Lieberman, conseguiu aquilo que mais se temia. Lieberman foi escolhido chanceler. O homem que já defendeu o bombardeio da represa Assuan, no Egito, agora é responsável pelas relações diplomáticas de Tel Aviv. Muitos dirão que ele defende a solução de dois Estados, para resolver os conflitos do Oriente Médio, e a laicização da sociedade israelense, propondo, entre outras coisas, a não obrigatoriedade de casamentos religiosos. Tudo isso pareceria, aos olhos de um desavisado,  um “avanço”. No entanto, se formos mais a fundo, notaremos o contrário. Lieberman defende a cassação dos direitos de cidadania dos árabes israelenses, cerca de 20% da população total. Recentemente, tentou implementar sua agenda, propondo a exclusão dos partidos árabes das eleições, com o apoio do Likud, do Kadima e do Avodá, o que a Suprema Corte de Israel acabou impedindo. É este o Lieberman que foi nomeado chanceler.

Outro partido do novo governo é o Shas, defensor da religião na política e da colonização dos territórios ocupados. Trata-se de um partido religioso, mas com suas plataformas variando ao sabor da conjuntura. A principal reivindicação do Shas não é a Grande Israel ou a solução de dois Estados, mas sim ter sua rede de assistência religiosa atendida com subsídios vindos do governo, além de cargos no alto escalão. Recentemente, o líder espiritual do Shas, rabino Ovadia Iossef, defendeu o extermínio de populações árabes. Em outro momento, durante as administrações trabalhistas dos anos 1990, esteve na base de sustentação desses governos. Ou seja: é um partido reacionário do ponto de vista ideológico. Mas que prioriza a sustentação pelo Estado de sua máquina assistencialista.

Ehud Barak, por sua vez, permanece como ministro da Defesa −  forma que Netaniahu encontrou de dar uma aparência de “abertura” ao seu governo. Com tudo isso, o governo Netaniahu parece mais  uma colcha de retalhos, onde é bastante visível a falta de horizontes. O Likud tende a estar em rota de colisão com o governo estado-unidense de Barack Obama, que já declarou defender de forma “agressiva” a criação de um Estado palestino, além de pretender dialogar com o Irã e se retirar do Iraque até o próximo ano. Nesta hora, os limites da direita israelense estão bem claros. Aliás, já estavam claros desde a construção do Muro que toma terras da população palestina, a retirada de Gaza, as eleições do Hamas e o fracasso no Líbano em 2006. O repertório de “saídas pela tangente” apenas vem adiando a questão essencial: o povo palestino vive há mais de quatro décadas sob ocupação militar de Israel e sem um Estado soberano. No longo prazo, isto poderá ter consequências desastrosas. Israel se vê hoje em um beco sem saída. Ou reverte a atual tendência ou poderá pagar  um preço que não se vê hoje pagando.

 

Fábio Metzger é jornalista, sociólogo e mestre em Ciência Política pela USP.
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