| Scholem Aleichem - Boletim ASA nº 118, mai-jun/2009 |
Um coroinha esclarecido Carlos Acselrad / Especial para ASA
Embora já haja pesquisas na área da arqueologia cultural que apontam para Abraão como tendo sido o sujeito mais engraçado da Caldéia, não há evidências do caráter genético deste complexo humor-ironia-sátira-sarcasmo. Supostamente apanágio do povo judeu, esta entidade ganhou – por um processo de simplificação-banalização – o epíteto de “humor judaico”, o qual, atropelado pela revolução informática, fica tanto mais indefinido quanto mais abusivamente usado. Ainda mais: assolada pela progressiva fragilidade da língua ídish, muito da produção cultural em geral, e particularmente a literária, perde-se, dilui-se, as banaliza mesmo, juntamente com o rótulo. Certamente este menino nascido há 150 anos levaria algum tempo até perceber que o mundo à sua volta cercara-o de ironias desde o nascer, providenciando-lhe o nome de Sholem (em hebraico, “paz”) Rabinovitz (em russo, “filho de rabino”). Na maioria dos países da Europa, as comunidades judaicas foram se formando lentamente, através dos tempos, por várias migrações sucessivas e frequentemente amparadas por leis de proteção e incentivo, interessados que estavam os governos na atividade comercial dos judeus. Com a partição da Polônia – e tendo ainda anexado os territórios da Lituânia, Letônia, Bielo-Rússia e Ucrânia – a Rússia recebeu, de uma só vez, uma população judaica que contava alguns milhões. Este episódio terá gerado grande deterioração na vida dos judeus russos, especialmente à custa do decreto dos Limites de Assentamento. O decreto configurava verdadeiro gueto que confinou a população judaica, criando-lhe ainda toda sorte de dificuldades de acesso ao livre comércio, saúde, habitação e educação. Isto se fez, por exemplo, através de impostos humilhantes sobre tudo e qualquer coisa: compra de velas, compra de roupas consideradas típicas, venda de bebidas, cotas máximas para vagas nas escolas, além das limitações propriamente geográficas para residência tanto nas cidades como nas pequenas aldeias. Devastadora foi a imposição do serviço militar, especialmente mais longo para judeus, além da absurda exigência de um pré-treinamento a partir dos 12 anos de idade. Estas condições agravam-se mais ainda após o assassinato do czar Alexandre 2˚, em 1881. É possível avaliar a extensão do antissemitismo como política de Estado por uma simples declaração de conhecido conselheiro do novo czar a respeito da “questão judaica”: “Tornaremos a vida deles de tal modo insustentável que 1/3 emigrará, 1/3 se converterá e 1/3morrerá de fome.” Data daí, 1883, na cidade de Nijni-Novgorod, o registro do primeiro pogrom (massacre e pilhagem da comunidade judaica executados ora por hordas de criminosos comuns, ora pela própria população russa, frequentemente com participação da polícia czarista, mas sempre organizados e incitados pelo poder local sob as bênçãos do governo). Logo após a derrota da Rússia na guerra com os japoneses, em 1904, desencadeou-se uma onda de pogroms pelo país, agora com a intenção de culpar os judeus pela derrota e consequentes sofrimentos do povo russo com respectiva inquietação social. Um dos piores ocorreu em Odessa, deixando 300 mortos, milhares de feridos e dezenas de milhares desabrigados. Foi sobre este mundo e esta gente que escreveu Sholem Aleichem sua caudalosa obra (há uma edição de obra completa em 28 volumes) feita de romances, contos, dramas e novelas curtas. Trocara o Rabinovitz pelo Aleichem. Conservando o verdadeiro pré-nome, Sholem, formou a expressão que significa “a paz seja convosco”. A primeira publicação que leva o pseudônimo definitivo do “humorista” Sholem Aleichem data de 1883, na Folha Popular Judaica de São Petersburgo. No entanto, desde os 18 anos ele já publicava na imprensa, aqui e ali. O espírito irônico-sarcástico que cercara sua vida desde o nascimento foi semente em terra fértil, como refletem seus primeiros pseudônimos literários: Solomon Bikherfresser – evidente auto-ironia no Solomon, forma usada por aristocratas para ostentar espécie de “aculturação” do simplório Sholem, e mais Bicherfresser (em ídish, devorador de livros); Der ídisher gozlen (em ídish, O judeu ladrão) − resposta afrontosamente irônica aos antissemitas; Barão de Pipernuter − ridicularizando a nobreza russa (Pipernuter - termo vulgar para ogre, anão barrigudo e disforme). Considerar o escritor um humorista é ignorar a essência e a riqueza da obra. A constatação – já lugar comum – de que “S.A. nos faz rir e chorar ao mesmo tempo” é verdadeira, mas insuficiente. Profundo conhecedor do seu povo e seu linguajar, seus tipos ele os encontrava todo dia. Ele mesmo confessa que não começava a escrever sem ter lido os jornais da manhã. Da vida real ele reconhecia, transfigurava e construía seus personagens, que eram simplesmente todos: o mendigo e o milionário, a casamenteira e a solteirona, o novo rico, o falso aristocrata, o religioso e o livre-pensador. O cotidiano da maioria dessa gente era essencialmente de chorar: pobreza, fome e humilhação. Isto bastaria para retratar a realidade. O que S.A. consegue é apontar o risível ou o grotesco de uma situação ou tipo psicológico. Jamais ridicularizou o sofrimento em si, bem como jamais o pintou com tintas leves como a dizer “ora, não é tão ruim; vou lhe mostrar o lado alegre”, ou seja, a esconder a realidade. Ao contrário, a intenção evidente era a de fazer o leitor confrontar-se com seu sofrimento, sem pena, mas demonstrando-lhe solidariedade e compreensão. Da sua própria realidade doméstica S.A. aproveitou o que pôde: ele relata que tinha na própria madrasta uma fonte rica de imprecações judaicas, no que “ela era uma boa especialista”. Talvez sejam essas famosas pragas judaicas uma instância reveladora oferecida pelos personagens, quase sempre femininos. Elas carregam consigo a comédia, inerente à situação em que surge, mas também a tragédia na violenta crueldade das palavras: se o filho quer comer (as crianças no shtetl estão sempre com fome) – “comer? quero mesmo é que os vermes comam você!”; se tem sede – “beber? pois que eles bebam teu sangue!”; se está sentado – “ainda? pois que você fique sentado para sempre, mas sobre um traseiro coberto de feridas abertas!”; se vem correndo – “que uma carroça venha correndo por cima de você!” Embora não caracterize propriamente o personagem, a praga bem interpretada revolve até mecanismos da sua psicologia profunda, além de sublinhar o cômico da situação. A propósito, uma das filhas de Sholem Aleichem, de passagem pelo Brasil, em memorável palestra, contava que era acordada frequentemente, no meio da noite, por uma voz aguda e estranha; quando resolveu levantar-se para desfazer o mistério, deparou-se com o pai, de pé (como sempre escrevia), rindo às gargalhadas daquilo que acabara de escrever. Inegavelmente, era também um grande humorista. Se a ironia pontilhou sua vida e dominou sua obra, começou cedo: o adolescente Sholem Rabinovitz teve, como primeiro emprego na Pereislav natal, as funções de auxiliar de rabino na sinagoga da cidade. Se o episódio, na época, não tinha conotações, terá passado a ter no decorrer da sua vida, quando ficaram mais claras suas idéias sobre religião refundidas por suas convicções sócio-políticas. O auxiliar de serviços religiosos na sinagoga tornara-se um herege. Suas heresias foram tanto contra os cânones religiosos como contra a sociedade estabelecida, do regime feudal, da discriminação de classe, do antissemitismo. Mesmo assim, não deixa de surpreender o relato de um genro, Berkovitz, que revela um S.A “leitor assíduo da Bíblia que mantinha sempre na sua cabeceira; lia especialmente os versículos do Livro de Job, sobre o qual gostava de me fazer interrogatórios”. De qualquer modo, é tentador identificar, como sendo marcos extremos de sua vida e obra, o adolescente na sinagoga de Pereislav e sua última e grande criação, Teive, der Mílchiker (Tobias, o leiteiro), popularizada como Fiddler on the roof. Teive, típico trabalhador numa pequena comunidade judaica, sempre acossado por sofrimentos vários decorrentes da pobreza, fala com seu Deus. Para isto acha melhor usar a língua hebraica dos Salmos de David, dos Profetas e outros textos sagrados (quase sempre equivocadamente). Isto lhe confere certa intimidade com o Senhor, a quem confia suas inquietações. Quando a loja de um comerciante notoriamente trapaceiro foi destruída por um incêndio, Teive não diz simplesmente “ele mesmo ateou fogo para receber o seguro”; dirá que ele “borei m’boirei to esch” (o Criador que criou a luz do fogo), expressão constante na reza final do Shabat. Tobias, também leitor do Livro de Job, encontra ali perplexidades que ressoam suas próprias. Como resposta às questões sobre a existência de Deus, adota aquela das religiões monoteístas: “Deus existe, é bom, é onipotente”, mas acrescenta: “Porém é injusto - cabe aos homens cobrar Dele todas as injustiças do mundo.” No final da primeira década do século 20, Sholem Aleichem presenciou o tenebroso pogrom de Kiev, onde vivia com a família; por detrás das janelas de um hotel em que conseguira se refugiar, assistiu às atrocidades que o chocaram como se não as conhecesse. Logo depois emigrou para os Estados Unidos, onde morreu, provavelmente de tuberculose, no ano de 1916. Nenhuma homenagem ser-lhe-ia suficientemente justa. Podemos, no máximo, parafrasear-lhe o nome: a paz seja conosco. Carlos Acselrad é médico. |
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