Alemanha - Boletim ASA nº 118, mai-jun/2009


O passado nazista

Fernando Vieira / Especial para ASA

Nos últimos dez anos, a produção acadêmica e cultural na Alemanha tem buscado apresentar novo olhar sobre o passado nazista que marcou a história alemã. No Brasil, a publicação dos trabalhos destes novos historiadores permanece pouco acessível, enquanto que a produção literária e, em especial, cinematográfica obteve uma relativa divulgação.

O eixo central desse novo olhar sobre a herança nazista passa pela lembrança de que a Alemanha sofrera com os horrores da Segunda Guerra, sendo também vítima da mesma. O bombardeio de Desdren, entre 13 e 15 de fevereiro de 1945, considerado militarmente pouco significativo para o esforço de guerra, é um marco dessa nova leitura sobre a participação alemã na guerra mundial, realçando o sofrimento e a dor dos alemães na guerra, como a mesma sofrida por outros povos no conflito.

No cinema, o lançamento, em 2004, do filme alemão A Queda – as últimas horas de Hitler resultou num intenso debate acerca do retrato do líder nazista, interpretado por Bruno Ganz. Uma das tendências mais comuns ao se analisar o papel da liderança nazista de Adolf Hitler é a de desumanizá-lo, tornando-o uma encarnação viva do mal, deslocando do terreno humano o Holocausto, os crimes contra os comunistas, ciganos, homossexuais e testemunhas de Jeová, entre outros.

A humanização de Hitler nos lembra que a Humanidade necessita estar atenta para impedir que lideranças políticas façam de práticas genocidas um instrumento de força eleitoral e/ou de reforço de determinada identidade étnica. Afinal, a Bósnia, Ruanda e, mais recentemente, o Sudão nos lembram que a defesa do extermínio de uma comunidade étnica e cultural é uma expressão cultural humana e não a encarnação de uma entidade metafísica  que se  apropriou de caracteres vinculados ao mal.

Por outro lado, ao centrar o nazismo na maligna figura de Hitler, absolve-se  o papel da sociedade alemã no contexto das perseguições e políticas genocidas. Uma das polêmicas retratadas nessa nova corrente cultural alemã se traduz na busca de desvincular o nazismo do conjunto da sociedade alemã, isentando-a dos crimes cometidos em seu nome.  Se o povo alemão também foi vitimado pela guerra, a culpa recairia exclusivamente em quem  a defendeu: os nazistas e os militares alemães.

Em 1996-1997, no Brasil , o pesquisador da Universidade de Harvard Daniel Jonah Goldhagen provocou verdadeiro furor na literatura acadêmica sobre o Holocausto, ao publicar Os carrascos voluntários de Hitler e defender que inexistiria punição ou coerção que obrigasse a humilhar e assassinar os judeus. Em seu texto, Goldhagen afirma que o leitmotiv alemão para a perpetração dos crimes foi a crença, disseminada em largos setores da sociedade alemã, no perigo judeu e na certeza de que sua eliminação física traria benesses para a Alemanha.

Sem entrar na polêmica contrária ou favorável aos estudos de Daniel Goldhagen, cabe-nos lembrar outra história também recentemente filmada que, ainda que se insira nessa releitura do passado nazista alemão, buscou recriar os momentos finais de um personagem histórico emblemático por nos lembrar que outras alternativas existiam ante a barbárie nazista. Trata-se do filme Sophie Scholl:  Uma mulher contra Hitler, lançado no Brasil em 2006.

O filme relata os últimos dias de uma jovem estudante alemã da Universidade de Munique que liderou um grupo de resistência ao nazismo, o Rosa Branca, denunciando o Holocausto e defendendo a retirada alemã da guerra.  Boa parte dos membros do grupo Rosa Branca serviu no Exército alemão, incluindo o irmão de Sophie, Hans Scholl, que lutara na União Soviética. Todos se horrorizaram com a carnificina e a violência contra civis empreendidas pela Wermacht e pelas SS. A repressão foi inclemente. Sophie e seu irmão foram presos, julgados e guilhotinados logo após o término do julgamento.

A história de Sophie Scholl, morta na idade de 22 anos, lembra-nos que o povo alemão podia resistir e apresentar alternativas ao nazismo. As opções feitas foram conscientes, e suas consequências  afetaram a sociedade alemã ao longo dos anos da guerra. Vitimizar a sociedade alemã é esquecer que a cada ação existe uma reação contrária com igual intensidade. O custo pago pelos delírios racistas e belicistas do nazismo não podem e não devem ser relativizados e, mesmo ante uma nova abordagem alemã sobre os anos do nazismo, cabe aos historiadores separar  o joio do trigo.

Fernando Vieira é mestre em História, doutor em Sociologia pela UFRJ e professor da rede privada de ensino médio e da UCB. É autor de diversos artigos, entre os quais “Sociedade brasileira: Uma história através dos movimentos sociais” e “PCB - 80 anos de luta”.
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