Alemanha - Boletim ASA nº 118, mai-jun/2009

O amor no tempo da guerra

Esther Kuperman / Especial para ASA

O passado não morre. Ele nem sequer passa.
                                William Faulkner

Numa Europa   pós-guerra, Michael, menino deslumbrado com a descoberta do amor, e Hanna, mulher solitária e rude, encontram-se e se desencontram por obra do acaso. Nesta história, o destino foi feito protagonista e tudo funciona como se fôssemos incapazes de nos conduzir, levados pelas circunstâncias da vida que não podemos mudar. É sobre isto que trata o filme de Stephen Daldry O leitor, baseado no livro de Bernhard Schlink.

Anos depois do desencontro,  Michael não é mais menino e relembra o amor que viveu com Hanna e que agora o torna incapaz de amar.  É como se tudo tivesse acontecido num país distante, cuja lembrança guarda apenas os momentos de afeto, memória seletiva, destinada a guiar o espectador na direção do entendimento de Hanna e suas razões.

Durante a guerra, ela havia participado da eliminação de milhares de judeus. O impacto desta revelação leva Michael de volta ao tempo em que estavam juntos, na tentativa de entendê-la. No passado, ele descobre algo que é oferecido ao espectador como uma espécie de chave interpretativa para as atitudes de Hanna, tanto nos momentos em que estavam juntos quanto na época em que trabalhara nos campos de extermínio.

Segundo a lógica dos autores, a participação de Hanna na morte de seres humanos deveria ser avaliada a partir da compreensão de sua miséria íntima e de tudo o que a sociedade lhe havia negado. Sem emprego e sem ter como garantir a sobrevivência, não lhe restou outra saída a não ser o trabalho como guarda em um campo de extermínio.

Esta maneira de ver as coisas leva à convicção de que o destino é o único balizador da nossa vida, pois somos incapazes de nos transformar e mudar as condições que nos cercam. Partindo desta lógica, tudo se justifica, e não somos mais responsáveis pelas nossas atitudes. Que culpem as circunstâncias.
O olhar invertido altera o papel dos protagonistas: no lugar do algoz, a vítima. Sua trajetória deve ser revista, à luz das revelações, podendo ser perdoada, tendo em vista as suas razões. Só quem não perdoa é uma das sobreviventes. Retratada como rica e arrogante judia nova-iorquina, é insensível aos argumentos de Michael. A antiga vítima, no filme, é transformada em algoz.

As histórias de Eichmann e Hanna têm semelhança. Eichmann também procurava esconder-se atrás de suas carências. Segundo Hannah Arendt, durante toda a vida ele alegou que as dificuldades financeiras de seu pai foram um impedimento para que concluísse os estudos. Fazia isto para ocultar suas dificuldades intelectuais. Mas em seu julgamento usou as deficiências cognitivas como pretexto para provar uma incapacidade de tomar iniciativas. Tentava, com isso, provar que apenas cumpria ordens, eximindo-se da responsabilidade sobre todo o horror que havia produzido. A culpa é do destino.

Zygmunt Bauman recuperou um fato que também encontra conexões com a história do filme. Em 1945, quando o mundo tomava conhecimento do que fora feito durante a guerra, a Academia de Ciências dos Estados Unidos iniciou articulações com vistas à absolvição retroativa dos cientistas alemães. A absolvição também se estendeu à ciência, mesmo sendo do conhecimento público a maneira como as experiências foram feitas e que esta ciência tinha considerado os resultados das “pesquisas” valiosos e de alta qualidade. Mesmo sabendo da cooperação com o que tinha sido definido como crime contra a Humanidade, uma comissão da Academia alegou que a objetividade da ciência baseava-se na “indiscutível imparcialidade” dos cientistas, que haviam prestado serviços aos nazistas como “forma de resistência”. Desta maneira, a ciência que participou do regime nazista foi redimida, absorvida e festejada pelas elites liberais dos países ocidentais. Afinal, ela também tinha as suas “razões”....

Não costumo pensar as situações sob o prisma das teorias conspiratórias, mas uma pergunta me acompanha desde que as luzes do cinema se acenderam: num momento em que reaparecem manifestações de negação ou de minimização do Holocausto,  um filme  retoma a discussão do fato, partindo da noção de que a atitude dos assassinos encontra explicação em suas histórias. Quando governantes transformam a negação do Holocausto em bandeira política e clérigos se recusam a reconhecer os fatos, fazendo  disto um elemento de identidade ideológica, aparece uma história que interpreta a participação ativa  de uma mulher no aniquilamento de seres humanos, sem ter como referência a ética. O estranho  é que a trama emerge de uma história de amor.

As primeiras cenas do filme mostram uma cidade de ruas cinzentas. Chove em Berlim e uma mulher tem um gesto de solidariedade. Mas a solidariedade  esconde um segredo, só revelado anos depois. Transformado no leitmotif de Hanna, o segredo é usado como argumento em sua defesa e pode ser a sua redenção.   

 

Esther Kuperman, historiadora,  é colaboradora do boletim ASA.

*
*  *

[topo]