| Cinema - Boletim ASA nº 118, mai-jun/2009 |
Um Brasil germanizado Thais Blank / Especial para ASA
Enquanto realizava a pesquisa para o filme Os golpes do Estado Novo, dirigido por Eduardo Escorel, o pesquisador Antônio Venâncio encontrou, em um arquivo de cinema em Berlim, um surpreendente conjunto de imagens da nossa História recente. Foi assim que descobrimos que de 1934 a 1941 cinegrafistas alemães realizaram por aqui uma série de cinejornais para serem exibidos na Alemanha. Produzidos pela Ufa, a produtora oficial do Partido Nazista, os filmes estão inseridos na lógica de propaganda que caracterizou as realizações cinematográficas da produtora. Fundada em 1917, a Ufa possuía em seu currículo clássicos do cinema alemão como Dr. Mabuse e Metrópolis. Em 1927, a produtora foi adquirida por Alfred Hugenberg, político simpatizante do Partido Nacional Socialista, tornando-se responsável pela propaganda nazista e pela realização de cinejornais. Filmados como pequenos documentários, os cinejornais transmitiam ao espectador uma impressão de autenticidade, difundindo por trás da linguagem jornalística o projeto ideológico do partido. Sem o apelo publicitário das produções assumidamente propagandísticas, eles revelaram ser uma ferramenta eficaz na representação de uma sociedade alemã unida e harmônica, contribuindo para a formação da identidade ariana. Ao todo foram realizados no Brasil seis cinejornais para serem exibidos na Alemanha. Uma das primeiras reportagens, de 1934, retrata a colonização alemã no Rio Grande do Sul. A voz em off conta a história dos primeiros colonos, que, além de transformarem a “mata fechada” em fazendas produtivas, ainda conseguiram superar as adversidades empregando técnicas de cultivo desconhecidas no país. O filme começa: vemos o mapa do Brasil, o locutor identifica o país e suas fronteiras ao sul com Argentina e Paraguai. Em seguida, o espectador é transportado para uma paisagem campestre onde agricultores alemães cultivam as “novas terras”. A matéria continua mostrando a rotina dos camponeses, a pecuária, a escola, os clubes onde se encontram para reviver as tradições de seu país. Nas imagens, o arianismo resiste até mesmo ao calor dos trópicos. No século 19, o Brasil só perdia para os Estados Unidos em matéria de imigração de falantes de alemão. No início do século 20, Santa Catarina já havia se tornado um polo de colonização germânica. Em cidades como Joinville, Blumenau e Itajaí, era possível encontrar clubes só permitidos a alemães e seus descendentes, escolas onde o ensino era dado em alemão, e uma forte imprensa local escrita na língua de origem que se dedicava a assuntos de interesse da comunidade teuta. Toda essa atividade se completava com associações voltadas para a defesa do pan-germanismo, como por exemplo, a Liga Pan-germânica, que preparava grupos para representar a nação alemã e seus interesses. Foi para esse Brasil germanizado que os cinegrafistas da Ufa apontaram as suas câmeras, levando para os cinemas da Alemanha a imagem de um país formado por colonos alemães ou por brasileiros que se identificavam com a comunidade ariana. Quando pensamos nos filmes de ficção americanos realizados durante esse mesmo período, lembramos a imagem de um Brasil exótico, tropical, marcado pela sensualidade e a musicalidade de Carmen Miranda. A Ufa não estava interessada nesse Brasil; ao invés de buscar em nós a diferença, a produção alemã se concentrou em mostrar a semelhança. Thais Blank é professora substituta e pesquisadora da UFRJ. Está escrevendo a dissertação de mestrado “A representação do Brasil nos cinejornais alemães das décadas de 30 e 40”, orientada pelo professor Maurício Lissovsky. |
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