Beco da mãe -Boletim ASA nº 118, mai-jun/2009

Libânio Guedes

Henrique Veltman / Especial para ASA

                
A internet tem dessas coisas. A gente vai pesquisando um assunto e, de repente, tropeça em outro tema. Busca uma coisa, encontra outra. Serendipity. Eu estava zapeando à procura de algumas informações sobre os programas infantis e juvenis da antiga RádioMinistério da Educação, a PRA-2. Basicamente, os programas de Geni Marcondes e de Silvia Regina, para os quais cheguei a escrever alguns esquetes, ainda  de calças curtas.

E aí, lendo uma entrevista da atriz Ieda de Oliveira, encontrei uma informação valiosa. Ela conta do início de sua vida artística, ao lado de Orlando Prado (que foi, aliás,  um dos meus principais atores na “Escolinha do Caçula”, programa diário que eu escrevia para a Rádio Globo, na década de 1960) e outros rádio-atores.

Diz a Ieda, lá pelas tantas, que “o Orlando Prado, inclusive, é o culpado por eu ter ocupado o microfone pela primeira vez”. Eles eram alunos do Colégio Pedro II, que mantinha um programa na Rádio Roquette-Pinto. Foi lá que Orlando, um dos intérpretes principais, deu a ela a primeira chance de participar. O responsável pelo programa era o professor Libânio Guedes.

Bingo! Libânio Guedes! 1948!

Foi meu inesquecível professor de História, no Colégio Hebreu Brasileiro. O cara era sensacional, montava um tribunal no qual as grandes questões eram por nós, seus alunos, julgadas. Havia um promotor, um defensor, um corpo de jurados. Certa vez, “julgamos” Mussolini...e eu fui o derrotado advogado de defesa, apesar dos subsídios fornecidos pelo professor de Talmud, Jacob Fajngelernt. Libânio nos deixou uma definição de História que a gente repete até hoje: a sucessão de sucessos sucedida sucessivamente no seio da sociedade...

Nós acompanhamos os julgamentos de Nuremberg pelos jornais da época. Mas nós, meninos do primeiro ginasial do Hebreu Brasileiro, fizemos o nosso próprio julgamento dos carrascos nazistas, na Rua Desembargador Isidro, 68, num tribunal organizado pelo professor Libânio Guedes. Claro, Goëring e cia. foram condenados à mais cruel das sentenças, pelos jurados meninos de quase calças curtas.

Libânio é um dos meus tipos inesquecíveis.

 

Genésio Arruda


Eu devia ter quatro anos quando minha mãe me levou, pela vez primeira, ao cinema. Ao cinema Rio Branco, ali na Praça Onze, embaixo da sinagoga Adass Israel. Era um cinema interessante, um hall comprido, onde os espectadores, antes da sessão propriamente dita, faziam o seu social. Não lembro o nome da fita, mas sei que era com Nelson Eddy e Janete MacDonald. Uma opereta, enfim.

Algumas semanas depois, numa manhã de domingo, fomos de novo ao Rio Branco eu, meu irmão Moysés e alguns vizinhos, provavelmente o Leon e o David Cardeman, o Roberto Grossman, as meninas Goldfeld. Mas o importante estava no palco e não na tela: era o grupo de Genésio Arruda.

Muita palhaçada em cena, Genésio encarnando um caipira e introduzindo um mágico. Lembro até hoje: ele encheu um copo grande com café e o atirou na platéia. Um Oooh! geral e o líquido se transformou em confete... Sim, depois do ato, um filme. De O Gordo e O Magro, como mandava o figurino de então.
Foi só na minha adolescência que eu descobri quem era esse tal de Genésio Arruda − um dos pioneiros da música sertaneja. Apresentou-se em  rádio, circos e cine-teatros. Nas décadas de 1920 e 1930, atuou e dirigiu no cinema. Em 1929, gravou seu primeiro disco, interpretando a marcha Vai, Santinha, dele e de Jorge Peixoto, e o foxtrote Odalisca, de Edgardo Ferreira. No mesmo ano, participou do primeiro filme sonoro brasileiro, Acabaram-se os otários, no qual, claro, fazia o papel de um caipira. A produção era do Lulu de Barros (de quem, acreditem, atuei numa comédia em 1955, estrelada pelo Osvaldo Elias).

A sincronização ficou a cargo de um aparelho inventado na própria produtora de Barros e Tom Bill, segundo a revista Cinearte: “Luis de Barros encontrou um sistema, Sincrocinex, que, julga ele, suprirá a deficiência, ou antes, a lacuna até aqui existente no cinema brasileiro, e ainda, oferece a vantagem de não precisarmos recorrer aos aparelhos da Western Electricou da Radio Corporation”.

Em 1931, ele dirigiu o filme Campeões de futebol, com Otília Amorim e o cantor paulista Paraguassu. Um clássico do cinema brasileiro, com a participação, no elenco, de craques como Feitiço e o meio-judeu Arthur Friedenreich. O roteiro era de Menotti del Pichia. E sua carreira chegou até nossos dias de adulto, na televisão.

Pois é. Aquele caipira que tanto nos encantou no cinema Rio Branco era um artista e tanto!

 

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.

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