| Pessach - Boletim ASA nº 117, mar-abr/2009 |
Estar juntos Publicado no site Judíos Argentinos Gays (GLBT) em 18 de abril de 2008 / Tradução de Sara M. Gruman
Gosto da festa de Pessach! Sobretudo da lembrança das da minha infância.
Meus tios Shulem e Etel, Duve e Sofia, Nhato e Berta − todos apenas lembranças. Como eu gostava deles! O zeide preparava um cálice para Eliahu Hanavi, e, embora ninguém o dissesse, todos sabíamos que, se o profeta chegasse a passar pela casa, não se livraria de nossa família com apenas um calicezinho, teria, pelos menos, que comer três pratos, ou levá-los numa quentinha. Meus pais nunca precisaram discutir sobre com quais avós passaríamos o Seder. Quem tinha coragem de dizer “Não vou”... Em Pessach, os judeus celebramos a nossa libertação dos egípcios, quando então passamos a depender de nós mesmos. Deixamos de ser escravos, ainda que meu pai e meus tios dissessem que trabalhavam como escravos. Ao fim do Seder, eu me divertia com meus primos (os menores corríamos atrás dos maiores), e os adultos, ao som da vitrola à manivela, dançavam o tradicional sher. Enfim, pensava eu, deixamos todos de ser escravos. Tivemos as nossas próprias leis, os Dez Mandamentos, embora meu tio dissesse que uma lei só, “viver e deixar viver”, bastaria, o resto era para dar serviço aos advogados. Eu não sabia que do outro lado do mar havia judeus para quem ser escravos do Egito teria significado uma esperança. Em Pessach, para variar, nós, judeus, nos fazemos perguntas. Perguntamos o Ma nishtaná, ou seja, “em que esta noite é diferente de todas as demais noites?”. E a resposta é que, nesta noite, nos perguntamos “em que esta noite é diferente de todas as demais noites?”, enquanto que nas demais noites nos perguntamos “o que tem para comer?”, “como foi o seu dia?”, “como as crianças foram na escola?”, “não quer ligar a televisão para ver o que é que está levando?”, etc. Mas em Pessach sabemos o que tem para comer, sabemos que as crianças não foram à escola porque é Pessach, e sabemos que não vamos ligar a televisão porque tem Seder e quem faz o espetáculo é a família. Amo os Pessachim da minha infância, embora, quando eu era pequeno, não fosse hábito nós, crianças judias, faltarmos à escola pública e sentirmos que, uma vez na vida, esse negócio de “povo eleito” jogava a nosso favor. Mas, quando o zeide nos dizia “fomos escravos no Egito”, nós acreditávamos, apesar de nunca termos nos afastado muito de nossas casas, em Montevidéu. E, quando a bobe nos invadia com as suas sopas e o guefilte fish, sabíamos que, além daquela sensação de empanzinamento total, nada de ruim poderia nos acontecer, que nenhum faraó se atreveria a nos fazer seus escravos (e, além do mais, cheios do jeito que ficávamos, ao faraó não prestaríamos para nada). Era como uma poção mágica, que nos daria a mesma força que durante mais de 4 mil anos manteve vivo o espírito judaico, aquilo que, em nossa diferença, nos iguala aos demais: somente a felicidade de estar juntos! |
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