Pessach - Boletim ASA nº 117, mar-abr/2009

Estar juntos     

Publicado no site Judíos Argentinos Gays (GLBT) em 18 de abril de 2008 / Tradução de Sara M. Gruman

                           

Gosto da festa de Pessach! Sobretudo da lembrança das da minha infância.


A minha bobe cozinhava como se precisasse alimentar todo o povo judeu no deserto durante 40 anos seguidos. Com minha bobe entre eles, a matsá nunca teria sido necessária, haveria uma lenda a menos, mas os judeus teriam demorado muito mais para chegar à Terra Prometida, de tão empanturrados.
Minhas tias e minha mãe cozinhavam mais alguma coisa “por via das dúvidas, vai que não é suficiente tudo o que a bobe fez” (isso queria dizer que, se alguns egípcios se cansassem do faraó e resolvessem aderir aos judeus em fuga, era preciso ter  com que alimentá-los).


Nos Dez Mandamentos não está escrito “Não superalimentarás”, o que expunha a minha família a um alto nível de colesterol, mas não à heresia.
A minha bobe  fazia frangos, fazia sopa com kneidlach (bolinhas de farinha de matsá), fazia um delicioso holodets (gelatina de frango ou de vitela), e também não podia faltar − eu não gostava − o guefilte fish (peixe recheado). Aposto que vocês não adivinham que peixe minha bobe usava para fazê-lo. Brótula!?... Friiiio! Merluza!? Frio!... Peixe-rei!?... Frio! Dourado!? Frio! Sabem que peixe minha bobe usava? Esse segredo partiu com a história, nunca foi revelado...
Dias de trabalho, sem micro-ondas, sem geladeira nem lava-louças, e na lenha. A mesa impecável, com a toalha branca engomada! Com pratos, copos e talheres juntados de toda a família. Mas quem ligava... A única coisa realmente importante nessa festa era que estávamos todos juntos!
No Seder, eu adorava ver a cara que todos faziam ao experimentar o hrein (condimento à base de raiz forte). Alguns davam uma de “valentes”, outros faziam uma careta, mais ou menos como a cara do faraó quando os judeus se mandaram pelo meio do Mar Vermelho.
O zeide Salomão, sentado à cabeceira, esquadrinhava os movimentos de todos e os dirigia apenas com o olhar. Com suas mãos de padeiro... que personalidade, que carisma!


Todos os anos contavam a mesma história de Moishe Rabeinu e, quando nos distraíamos, ficavam zangados.
Mas os escutávamos com a secreta esperança de que, naquele ano, a história terminasse diferente, que os judeus não tivessem que vagar tantos anos sob o sol do deserto (e isso que não havia o buraco de ozônio), ou que, em vez dos Dez Mandamentos, recebessem uma bola de futebol e a história do povo mudasse, ou que os judeus, em vez de irem para Canaã, fossem para um lugar com  menos leite e mel, mas com um pouco de petróleo.


Todos os anos, a minha esperança era que, desta vez, algum dos meus primos  recitasse o Ma nishtaná (eu estava condenado porque era o único que ia ao shul). De qualquer maneira, aprendi bem (quando esquecia, meu zeide me soprava).
Quanto mais se referiam aos tempos da escravidão e de sofrimento dos judeus no Egito, mais a bobe insistia que comêssemos, para compensar o déficit nutricional de nossos antecessores de 3 mil anos atrás. Cheguei uma vez a imaginar um capataz me chicoteando na cara e gritando: “Come! Come!”

Meus tios Shulem e Etel, Duve e Sofia, Nhato e Berta − todos apenas lembranças. Como eu gostava deles!

O zeide preparava um cálice para Eliahu Hanavi, e, embora ninguém o dissesse, todos sabíamos que, se o profeta chegasse a passar pela casa, não se livraria de nossa família com apenas um calicezinho, teria, pelos menos, que comer três pratos, ou levá-los numa quentinha.

Meus pais nunca precisaram discutir sobre com quais avós passaríamos o Seder. Quem tinha coragem de dizer “Não vou”...

Em Pessach, os judeus celebramos a nossa libertação dos egípcios, quando então passamos a depender de nós mesmos. Deixamos de ser escravos, ainda que meu  pai e meus tios dissessem que trabalhavam como escravos.

Ao fim do Seder, eu me divertia com meus primos (os menores corríamos atrás dos maiores), e os adultos, ao som da vitrola à manivela, dançavam o tradicional sher.

Enfim, pensava eu, deixamos todos de ser escravos. Tivemos as nossas próprias leis, os Dez Mandamentos, embora meu tio dissesse que uma lei  só, “viver e deixar viver”, bastaria, o resto era para dar serviço aos advogados.

Eu não sabia que do outro lado do mar havia judeus para quem ser escravos do Egito teria significado uma esperança.

Em Pessach, para variar, nós, judeus, nos fazemos perguntas. Perguntamos o Ma nishtaná, ou seja, “em que esta noite é diferente de todas as demais noites?”. E a resposta é que, nesta noite, nos perguntamos “em que esta noite é diferente de todas as demais noites?”, enquanto que nas demais noites nos perguntamos “o que tem para comer?”, “como foi o seu dia?”, “como as crianças foram na escola?”, “não quer ligar a televisão para ver o que é que está levando?”, etc.

Mas em Pessach sabemos o que tem para comer, sabemos que as crianças não foram à escola porque é Pessach, e sabemos que não vamos ligar a televisão porque tem Seder e quem faz o espetáculo é a família.

Amo os Pessachim da minha infância, embora, quando  eu era pequeno, não fosse hábito nós, crianças judias, faltarmos à escola pública e sentirmos que,  uma vez na vida, esse negócio de “povo eleito” jogava a nosso favor.

Mas, quando o zeide nos dizia “fomos escravos no Egito”, nós acreditávamos, apesar de nunca termos nos afastado muito de nossas casas, em Montevidéu. E, quando a bobe nos invadia com as suas sopas e o guefilte fish, sabíamos que, além daquela sensação de empanzinamento total, nada de ruim poderia nos acontecer, que nenhum faraó se atreveria a nos fazer seus escravos (e, além do mais, cheios do jeito que ficávamos,  ao faraó não prestaríamos para nada).

Era como uma poção mágica, que nos daria a mesma força que durante mais de 4 mil anos manteve vivo o espírito judaico, aquilo que, em nossa diferença, nos iguala aos demais: somente a felicidade de estar juntos!
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