A minha estréia
Jacques Gruman / Especial para ASA
Ao Paulo Blank, vizinho de cima e do lado
Eu e minha mulher, Sara, chegamos a Israel no início de setembro passado. Minha primeira vez. Fazia um calor carioca quando caminhamos da orla de Tel Aviv até Jafa. Com o crescimento urbano, Jafa se transformou num prolongamento do calçadão. É um espaço em restauração, as construções antigas ganham um banho de loja e, claro, valorizam-se em ritmo de especulação imobiliária (a gente conhece muito bem esse tipo de processo no Rio). Em torno da praça da Torre do Relógio, serpenteiam ruas maltratadas, com incontáveis lojinhas de “antiguidades” (quase sempre bugigangas que precisam de um garimpo paciente para revelarem, se a sorte permitir, um objeto mais interessante). Numa delas, o senhor Pinto.
Não sei o que chamou a atenção. As quinquilharias não pareciam diferentes das outras. No fundo da loja escura, com ar indiferente, um comerciante bigodudo. Não sabíamos, mas essa tocaia era parte da estratégia. Bastou tocarmos numa menorá para cairmos na rede. Não respiramos três vezes e Natan Pinto, judeu turco, fluente em ladino, já estava ao nosso lado. Simpático, fingindo não estar nem aí, convenceu-nos da beleza daquele objeto, quem sabe uma relíquia, peça única e, maravilha das maravilhas, que ótimo preço! Não deu pé. Saímos dali com a menorazinha, orgulhosos do bom negócio... Não apostaria um shekel nisso. O bigodudo certamente contabilizou mais um par de trouxas no seu currículo. Grande lábia, grande Pinto.
Houve momentos em que nos sentimos em casa. Na cafeteria da Universidade de Tel Aviv, por exemplo, o som ambiente era Ari Barroso. Minas na Terra Santa. O segurança de lá, ao saber que éramos brasileiros, abriu um baita sorriso. Numa primeira página do Haaretz, notícias familiares: políticos corruptos, guerra de quadrilhas, violência brutal contra uma criança. Positivamente, estávamos em casa.
Ninguém conhece de verdade um lugar em doze dias. Só turista deslumbrado pensa o contrário. Mesmo assim, deu para dissolver um mito: o de que os sabras são antipáticos, intratáveis. Não vi nada disso. Fomos tratados com cortesia e educação. O que não sabia era como os motoristas israelenses são nervosos. Parece piada um carioca falar de incivilidade no trânsito. Ocorre que em Tel Aviv buzina é um acessório tão indispensável quanto direção ou freio. Atreva-se alguém a titubear no trânsito e ouvirá uma sinfonia em tom irritante maior. De brinde, algumas palavras e gestos pouco amistosos. Um dia, vimos uma mulher tentando manobrar para sair de um estacionamento. Nisso, bloqueou por um tempinho o fluxo de veículos. O primeiro motorista da fila mandou ver: colou a mão na buzina e gritou (ouvimos a tradução): “Será que a tua mãe comprou este pedaço da rua só para você?” O taxista que me levou até Kfar Saba, celular em punho, correu tanto que não faria feio em Interlagos. Detalhe importante: dirigia sem cinto de segurança. Ao passar por uma barreira policial, simulou colocá-lo. Onde será mesmo que já vi isso?
Voltando à Universidade de Tel Aviv. Dentro do campus, belíssimo, funcional e muito bem cuidado (que inveja quando lembro que estudei no Fundão, um pântano abandonado pelo poder público), funciona o Museu da Diáspora. A seção de maquetes das sinagogas é impressionante. Como foi que se conseguiram as plantas de templos antiquíssimos, de lugares tão improváveis como Índia e China? Sei lá. As sinagogas europeias destruídas pelos nazistas nos lembram do que é capaz a estupidez humana. Mesmo para um judeu não-religioso como eu, é terrível pensar no destino daquelas obras de arte arquitetônicas, comparáveis às telas dos grandes mestres.
Ainda do campus, trago a lembrança do verde. Num país onde chove pouco, há em quase todo canto um cuidado grande com a natureza. Claro que existem regiões degradadas (como a decadente Rua Allenby), mas é comum esbarrar em jardins e gramados bem tratados, humanizando os espaços de convivência.
Dos bairros, o que mais gostei foi Neve Tsédek. Dos mais antigos de Tel Aviv, passa por reformas parecidas com as de Jafa. Ali também já bateu o olho gordo dos especuladores, e os imóveis estão com os preços nas nuvens. No meio do bairro, está sendo construído um espigão, de estilo totalmente diferente das casas e prédios baixinhos da vizinhança (olha eu me sentindo em casa novamente...). É o pogréssio chegando, mas ainda dá para curtir o clima de início do século passado que exala das ruas estreitas de lá.
Deu para perceber alguns problemas. Imigrantes da antiga União Soviética (os “russos”) – chegaram um milhão deles desde a década de 1980 − têm claras dificuldades de integração. No recém-inaugurado Museu do Palmach (força armada que foi uma das origens do Exército israelense), um deles, jovenzinho e com ar entediado, fazia uma segurança bem frouxa. Trabalho de baixa qualificação. Vi lojas em que tudo era anunciado apenas em russo. Canais de televisão a cabo onde se fala em russo, sem legendas em hebraico. Sinais de um fosso cuja dimensão ainda não se delimitou. A mão-de-obra palestina vem sendo substituída por asiáticos e africanos, muitos deles em situação ilegal (o governo dá um jeitinho de fechar os olhos; em casa mais uma vez...). Vivem em condições precárias, e tive a impressão de que são apenas tolerados. Há um choque cultural e racial que pode desaguar... não sei onde. Como qualquer turista, evitamos lugares que nos disseram ser perigosos. Vários interlocutores informaram que a região da antiga estação rodoviária, por exemplo, é barra-pesada. A pobreza – cerca de 1 milhão e 600 mil israelenses vivem abaixo da linha da pobreza, quase metade deles crianças –, na impressão daqueles interlocutores, alimenta uma crescente sensação de insegurança.
Nas proximidades dos grandes hotéis da orla, de cadeias multinacionais, descobrimos um pedaço do shtetl ancestral. Ao lado de uma pracinha mambembe, começa o Shuk Hacarmel, a feira do Carmel. De repente, se sai daqueles paredões de concreto e aparece uma feira-livre que tem de tudo. Adoradores de tomates, como eu, ficam hipnotizados. Ainda nos galhos, aos baldes (literalmente), é possível descobrir variedades que não se veem no Brasil varonil. Mais espantoso: produção local, num país carente de terras agricultáveis. Pode? Alguns passos adiante, uma quantidade inacreditável de temperos, cheiros sedutores. E os “russos”. Ah, os “russos”... Não, eles não estão à venda. Habitam barraquinhas de enlatados, importados especialmente dos países da ex-URSS, açougues e peixarias suspeitos (o cheiro, ali, não tinha nada de convidativo). Mesmo com meu hebraico pra lá de precário, os gritos dos feirantes soaram familiares. “Na minha mão é mais barato”, “pode chegar, freguês”. Será que lá também “moça bonita não paga, mas também não leva”? No meio do caminho, ruelas antigas, originalmente habitadas por judeus iemenitas. Uma balbúrdia que adoro. Guidon, o supervisor do restaurante do nosso hotel, ele também um “russo”, extremamente simpático, disse que, mesmo sem precisar, sempre dá um pulo na feira. Não foi difícil entender por quê.
Por fim, habitantes onipresentes na cidade. Gatos e corvos estão por todos os lados. Os gatos parecem ter o status das vacas na Índia. Intocáveis. Por quê? De onde vieram tantos corvos? Vou tentar descobrir, quem sabe, numa outra visita.
Jacques Gruman é diretor de Divulgação e Comunicação da ASA e colaborador deste Boletim.
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