Entre o Estado e a tradição
Renato Mayer / Especial para ASA
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a população judaica na Alemanha Ocidental girava em torno de 30 mil pessoas, metade natural do país e a outra, imigrada do Leste Europeu. Na Zona de Ocupação Soviética, transformada em 1949 na República Democrática Alemã (RDA), contavam-se como judeus um décimo desse total. Muitos haviam vindo dos exílios mais diversos, como o intelectual e amigo de Freud Arnold Zweig, de Israel; a novelista Anna Seghers, do México; os pais da escritora Barbara Honigmann, da Inglaterra; o brigadista internacional Norbert Kugler e o médico e também brigadista Bernhard Littwack, da França.
O que tinham em comum era a origem alemã e o sonho de reconstruir das cinzas um novo país, socialista e democrático. Sua militância política contava mais do que a identidade judaica e isso era boa água para o moinho do novo Estado. A linha política da RDA foi, desde o início, enfatizar que o nazismo perseguira todos os socialistas e comunistas, buscando sempre dessingularizar do Holocausto os judeus, de modo que estes não se destacassem enquanto vítimas e perpetuassem sua marginalização como grupo sem lugar na nova sociedade alemã. No país onde se concebeu o Holocausto, nunca houve qualquer discussão pública sobre o envolvimento do povo alemão no mesmo.
A atividade religiosa e o registro voluntário como membro da comunidade eram, portanto, desencorajados, na medida em que os adeptos poderiam fortalecer uma identidade particular, independentemente de crença ou não no sistema. A pressão para se abandonar o judaísmo foi reforçada nos anos 1950. O anti-semitismo não desapareceu, embora condenado na Constituição e, nos anos imediatamente anteriores à morte de Stalin, muitos judeus foram afastados de importantes cargos políticos e acadêmicos que ocupavam, além de obrigados a assinarem conhecidas denúncias públicas de equiparação do sionismo ao fascismo. Embora, em 1956, vários tivessem sido reincorporados a seus cargos e a pressão diminuído, manter vínculos regulares com as organizações judaicas continuava podendo parecer não estar completamente assimilado ao ideal comunista.
Em conseqüência, a comunidade judaica experimentou, ao longo dos anos, um Schrumpfung, termo então politicamente utilizado para significar encolhimento. Ao final da década de 1970, havia menos de 800 judeus registrados na Federação das Comunidades Judaicas (oito, ao todo), 90% idosos, a maioria com um passado de militância ou resistência reconhecida ao nazismo. Eram cerca de 600 quando caiu o Muro, em 1989.
Por essa época, as sinagogas em Berlim Oriental, Magdeburg e Leipzig haviam sido reconstruídas com ajuda do Estado, assim como novos locais de oração erigidos em Dresden e Erfurt. Somente a da capital, porém, mantinha serviços regulares nas sextas e sábados, sem rabino, O silêncio dos que preferiam integrar-se inteiramente como alemães e comunistas “de origem judaica” e a ausência de práticas ameaçava tanto a herança como a continuidade da religião, sustentada por um número muito pequeno de indivíduos, a despeito da existência formal das instituições. A escritora Barbara Honigmann, nascida e criada na Alemanha Oriental, testemunha que, logo após a guerra, seus pais registraram-se na Comunidade Judaica de Berlim, mas que a deixaram na década seguinte. O passado jamais foi assunto de discussão em casa.
O governo da RDA nunca se dispôs a indenizar e compensar as vítimas do nazismo, como passou, a partir de 1952, a fazer a Alemanha Federal. Alegava que, sendo um Estado antifascista, não tinha responsabilidade legal ou moral pelas políticas do regime nazista. Nos últimos anos de sua existência, no entanto, reviu essa postura, promovendo uma política de reconciliação com as comunidades judaicas, o que incluía disponibilidade de fundos para restauração de sinagogas e cemitérios, uma atitude mais benevolente em relação à música e à cultura judaicas e até mesmo a autorização para que um rabino americano viesse a prestar serviços em Berlim Oriental (o qual chegou em 1987, mas acabou desentendendo-se com a liderança comunitária). Uma vida judaica ativa e vigorosa provaria ao mundo que a RDA se tornara de fato a nova Alemanha antifascista; adicionalmente, acreditava-se que facilitaria a melhoria das relações diplomáticas e comerciais com os Estados Unidos.
Com a reunificação alemã, as comunidades de Berlim Ocidental e Oriental se fundiram a partir de 1˚ de janeiro de 1991, a de Schwerin, mínima, foi dissolvida, e se criou uma nova em Potsdam, permanecendo as seis restantes. Um novo horizonte, de expansão e liberdade, abriu-se, permitindo que uns 4 mil cidadãos do Leste de origem judaica não registrados nas antigas comunidades fizessem o seu “retorno”. A população judaica na Alemanha unificada saltou rapidamente para 200 mil pessoas, mas isso se deveu ao influxo de judeus imigrantes da União Soviética, sob uma quota que lhes garantia status especial de refugiados. Uma nova face se imprimia no judaísmo da Alemanha, um novo capítulo que ainda está por se concluir.
Renato Mayer, economista, é colaborador do Boletim ASA.
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