Ídiche - Boletim ASA nº 117, mar-abr/2009

A Farguenign!    

Mirian Garfinkel / Especial para ASA

                           

Há inúmeras formas de se escrever sobre algo que nos dá prazer.
Há, porém, poucas expressões que podem resumi-las de forma tão precisa quanto a farguenign (um  prazer), que expressa tudo isto e mais alguma coisa, em ídiche!


Sim, nesse ídiche,  doce mame loshn ( língua mãe) que para o momento continua a ser uma língua de comunicação viva e afetiva entre um número  de pessoas tão aficcionadas que se poderia incluir o recém-nascido ao ouvir   de alguém  que o vê:  Oi (intraduzível), vi shein (que bonito)!
É fato que a língua ídish ocupa um  espaço, não só no que se refere à cultura judaica, mas também no que diz respeito a um período marcado indelevelmente na história do homem.
Há uma gama de fatores que nos remete  aos rumos desta língua trazida ao Brasil  em diferentes períodos por imigrantes cuja função maior era manter vivas vidas vividas, mesmo que,  com o passar dos anos,  a aculturação fosse um fato. Difícil mesmo era superar a vontade de perguntar, em ídiche, a confirmação do que foi conversado, nu, host du  farshtanen? (então, você entendeu?)
Sua existência e seu futuro estão nas respostas  sobre por quem ,  por que e para que  é utilizado,  surpreendendo, no entanto,  aqueles   que à  simples referência ao ídiche  ouvem  a seguinte exclamação: puxa, eu queria tanto aprender!
Mas o que faz com que o aparente desejo das pessoas fique paralisado na expressão ?
Fatores existem, inúmeros, assim como diferentes explicações.  Na perspectiva de uso, pela necessidade pragmática de comunicação, o ídiche, passou a ser  substituído pelo  português, sem que fosse esquecida a importância  do  falar,  entender e  escrever o ídiche, como compromisso de resgate de experiências de gerações: Me tor nisht farguessn  (não  podemos  esquecer)o que vem sendo feito,  mit  dem gantsn kúved (com todo respeito) pela ASA há quatro anos aproximadamente!


Passo a passo, analisemos a química desta iniciativa com um olhar  atento: a persistência da ASA  em procurar alguém para liderar o processo, para poder ser coerente com sua persona institucional; a abertura do espaço aos interessados, colocando à disposição uma infraestrutura de conforto para o desenvolvimento dos encontros e, o mais significativo, a formação do grupo, que vem crescendo através de reuniões-aulas em que a língua ídiche é tratada através de assuntos de interesse dos participantes,  incluindo uma visita à História Judaica nos textos originais de Shimon Dubnow. 
O que realmente a ASA vem propiciando é um espaço não só de estudo como de diálogo entre pessoas  comprometidas com o encontro semanal, desafiadas em resgatar  o estar em comunidade, que, segundo o filósofo Martin Buber, “permite ao indivíduo relacionar-se com o próximo em termos de  EU – TU, e não em termos de EU – ISTO”, como também oportunizar uma pertinência que transcende a obrigação, favorecendo  uma práxis  do  ídish por  todo aquele que gosta de estar junto, em afinidade, onde, ainda com Buber, “os membros formam um ‘nós’  e não, meramente, um  ‘a  gente’”.
O estudo da língua ídiche é um compromisso com a vida. O suspirante Oi!, precisa ser ressignificado por um alegre es iz a meháie (é uma delícia), e, retornando a nossas raízes com Hilel ao explicar o judaísmo quando questionado:  “ame seu vizinho como a si mesmo, o resto é comentário”; ...o que nem todos relembram é o complemento desta frase, “agora vá e estude”. Mudança não é um processo epidérmico. Mudança é atitude, fundamentada por  pesquisa e estudo...


Há uma riqueza de raízes  a alimentar, espiritual e intelectualmente, nas diferentes comunidades espalhadas pelo mundo. Entre essas raízes reconhece-se o ídish pela sua literatura, arte musical e cênica, pelo espaço que ocupa no mundo judaico e pelas possibilidades de resgate de seu texto  e  contexto .  Não há fórmulas mágicas. Há pertinência. São indispensáveis estudos  e  iniciativas pró-ativas, pensadas e promovidas por pessoas com  ófene kep (cabeças abertas)... 


Reconhecendo relações  que o sociólogo Zygmund Bauman  identifica como líquidas, “que se estabelecem com extraordinária fluidez, que se movem e escorrem sem muitos obstáculos, marcadas pela ausência de peso, em constante e frenético movimento”,  em que  Ter é mais do que Ser, a língua (qualquer que seja) também vai passar pelo crivo do seu valor social.
Assim sendo,  mesmo que as  condições de   produção e circulação do ídish fiquem restritas  aos que já o dominam, é imperativo estar alinhado, tal como a ASA já vem fazendo, com o que   David Crystal, especialista no idioma galês, recomenda:  “estimular um interesse maior por todas as línguas minoritárias, mesmo que não se encontrem ameaçadas em um sentido global”,  para que este patrimônio não escape entre os dedos e depois só nos reste comentar que “es  iz alts farfaln...(está tudo perdido...).

 

Mirian Garfinkel é professora universitária

 

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