| Beco da mãe -Boletim ASA nº 117, mar-abr/2009 |
Lembranças de Tel Aviv Henrique Veltman / Especial para ASA A editora pede, eu cumpro. Tel Aviv comemora seu primeiro centenário e eu mexo no meu baú de lembranças. Conhecida como a Cidade Branca, Tel Aviv é um rico exemplar de arquitetura moderna. Tem a maior concentração do mundo de prédios no estilo moderno internacional, mais conhecido como Bauhus. A famosa faculdade alemã, que praticava a racionalidade e o funcionalismo na arquitetura, encontrou em Tel Aviv seu berço esplêndido.
A mãezona de Tel Aviv Batya e Eliahu: parentes de minha primeira mulher, gente adorável, de antiga e honesta militância sionista. Ele chegou a ser shelíah de aliá no Brasil. Ela, desde adolescente haverá de um kibutz, jamais se adaptou à vida na cidade e aos costumes pequeno-burgueses. Batya saudosa, até, da carestia, do racionamento, dos tempos em que só tinha direito a dois ovos por semana. Moravam do lado do riacho Yarkon, num daqueles clássicos apartamentos de Tel Aviv, modestos, mas acolhedores. Ela, de clara formação marxista, ainda assim adorava o Shabat. De luzes apagadas, no pequeno terracinho, olhava para Tel Aviv e cismava, onde foi que se perdeu o sonho sionista revolucionário?
Não gostava de Jerusalém, religião era um sufoco. Mas ela era uma mãezona, a mãezona de Tel Aviv.
Dubons Encomenda dos amigos do Brasil era sempre a mesma: dubons, aqueles blusões militares, geralmente verdes (do Exército) ou azuis (da Força Aérea). Chana, a romena, mulher do Emanoel, conhecia todos os fabricantes e distribuidores de tudo, em Israel. Assim, era com ela, uma cabeleireira travestida de sacoleira, que a gente ia a uns lugares estranhos, do lado de Iafo, para comprar os casacos. Mas isso tinha um preço: jantar e pernoitar na casa deles. Um preço justo e agradável, o apê era confortável e a comida, maravilhosa. Sem contar com o passeio pelas ruas e alamedas de Bat Iam. Oportunidade, aliás, em que ela nos crivava de perguntas a respeito dos conhecidos no Brasil. Era uma fofoqueira de marca maior!
Boca livre Grandes reuniões com dirigentes e funcionários da Sochnut, em seu birô de Tel Aviv. Decisões drásticas, destinadas a revolucionar o movimento de aliá do Brasil. Depois, hora do almoço. Os haverim israelenses escolhiam, sempre, o que de melhor Tel Aviv oferecia em termos de restaurantes. No início, a gente estranhava e temia − a conta devia ser alta, até vinho essa gente tomava. Depois, a revelação do companheiro Abraham, “é a nossa chance, a Sochnut paga a despesa”. A famosa boca livre.
Segurança Fomos jantar na sexta-feira à noite em Iafo, num ótimo restaurante árabe. Aí pelas 11 da noite, hora de regressar ao hotel. Fomos caminhando pela praia. Noite bonita e, na areia, grupos e mais grupos de famílias inteiras, comendo, bebendo, ouvindo ou fazendo música, até curtindo um churrasquinho. Árabes, judeus, negros, brancos, amarelos. Uma longa caminhada pela noite de Iafo-Tel Aviv, até chegar ao hotel. Tudo na maior segurança possível, um passeio impossível de ser feito, daquele jeito, em Copacabana ou nas Pitangueiras.
Flanando pela Dizengoff É claro que vocês conhecem a Rehóv Dizengoff, em Tel Aviv. Lehizdanguef é flanar pelos três quilômetros dessa rua comercial, com lojas de todos os tipos para todos os gostos e bolsos. Há restaurantes, bares e até alguma coisa parecida com os nossos botecos. Mas, nas noites de sexta-feira, iniciado o Shabat, a Dizengoff adquire um cenário mágico. Foi num Shabat desses, há mais de 30 anos, que se deu o causo seguinte: quase todos os correspondentes da imprensa brasileira em Israel estavam presentes, num bar interessante daquela rua: Moisés Rabinovici, hoje editor do Diário do Comércio, provavelmente o melhor jornal de São Paulo − sugiro aos cariocas entrar no site e comprovar −, Mario Chimanovitch, Alessandro Porro, Eliezer Strauch, Isaac Akcelrud. Ficou faltando nessa mesa histórica o decano Nahum Sirotsky. Eu estava lá na qualidade de intruso. Em dado instante, começou uma acirrada discussão sobre Kafka e sua condição judaica. Eu diria até que houve ameaças de mútua agressão entre os jornalistas... Lá pelas tantas, o dono (ou gerente) do bar se aproximou de nossa mesa: “Gente, para esta discussão, o lugar certo é aquele bar, do outro lado da rua. O garçom ruivo é a nossa maior autoridade em Kafka.” No tal bar, encontramos uma mesa redonda ótima. O garçom ruivo anotou os pedidos e, inquirido pelo Isaac, pediu licença, tirou o avental, sentou à nossa mesa e, realmente, o cara sabia tudo sobre Franz Kafka. Foi uma senhora aula, num Shabat mágico, na mística Dizengoff. Ah, e não pagamos a conta. Coisas de Tel Aviv. Saudades.
Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.
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