| Pio XII- Boletim ASA nº 116, jan-fev/2009 |
O Vaticano que decida Anshel Pfeffer / Haaretz
Deveria o papa Pio XII ser santificado? A resposta simples é: isto não é da sua conta. Esclarecido isto, voltemos à controvérsia que parece ter surgido entre o povo judeu e a Santa Sé. Só que, de novo, tampouco ela é muito exata. Há várias discussões nessa esfera. Uma é entre historiadores, a respeito de fatos e suas interpretações. Não surpreende que haja judeus em ambos os lados. Outra se dá entre católicos, sobre questões de fé e política religiosa. Há também uma terceira, entre elementos do Vaticano e algumas organizações judaicas, porém é mais uma questão de estilo do que de conteúdo. Quanto ao debate histórico, há pouco que um amador possa acrescentar. Após ler dois livros, entrevistar alguns peritos e ler incontáveis jornais, não cheguei nem perto de uma conclusão sobre por que Pio XII manteve silêncio durante o Holocausto. Foi porque ele não se incomodava muito com o extermínio dos judeus e secretamente rezava pela vitória nazista? Ou esse silêncio era uma forma de encobrir os corajosos esforços de resgate feitos com o seu incentivo? Nenhum dos lados conseguiu produzir evidências suficientes para me convencer. E duvido que venham a conseguir, já que a única fonte importante de documentos que subsiste são os arquivos do Vaticano. E mesmo quando forem abertos, pode-se estar quase certo de que nada lá haverá que faça alguém mudar de opinião. Se existia um documento mostrando claramente o envolvimento de Pio XII em defesa dos judeus, o Vaticano o teria exibido amplamente. E se havia qualquer fumaça de que ele tivesse sido colaboracionista, sem dúvida já foi descartada há muito tempo. O debate católico interno é especialmente interessante, tanto porque contextualiza o tema Pio XII quanto porque reflete caprichosamente questões similares dentro do establishment religioso judaico. A atuação de Pio XII na Segunda Guerra Mundial não é a consideração principal quando o Vaticano trata da canonização. Aqueles que o reverenciam o fazem por sua imagem de principal católico conservador do século passado. A adoração a ele é um princípio central para os que crêem na versão mais extremada da infalibilidade do papa. Se Pio XII ainda não foi reconhecido como santo, para muitos católicos significa que permanece um ponto de interrogação quanto ao papel histórico desempenhado por Roma antes, durante e após a guerra. É uma controvérsia que dura séculos. A promulgação da infalibilidade do papa pelo Primeiro Concílio Vaticano, em 1870, levou o lorde Acton a escrever a sua famosa máxima: O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente; grandes homens são quase sempre maus. Desde então, os papas nunca recuaram do princípio da infalibilidade. Via de regra, utilizaram-no com prudência. A notável exceção ocorreu em 1950, quando Pio XII decidiu que a “assunção” de Maria é um artigo de fé da Igreja Católica. Como em Acton, a infalibilidade ainda causa desconforto em muitos católicos, e para os conservadores linha-dura a canonização de Pio 12 é imperiosa para confirmar a ascendência deles dentro da Igreja. O papa Bento XVI é visto muito justamente como conservador, mas é também um político hábil e procura caminhar cuidadosamente entre as facções. Ele enfureceu os linhas-duras por não levar adiante a beatificação de Pio XII, passo crucial para a canonização. O judaísmo como religião, de um modo geral, desenvolveu o sentido do dogma menos do que a Igreja Católica, mas muitos judeus simpatizarão com os católicos que lutam para preservar a sua fé na infalibilidade do papa. O Yad Vashem não deveria deixar-se intimidar e mudar aquilo que os seus especialistas acreditam ser os fatos históricos – e o futuro das relações Israel-Vaticano não pode ser refém disso. As ameaças feitas por líderes judeus sobre os danos que serão causados pela canonização são igualmente despropositadas. As questões diplomáticas e inter-religiosas entre Israel, organizações judaicas e o Vaticano, além do debate histórico acerca do que o papa fez durante o Holocausto, não deveriam ser vinculadas ao tema da santificação de Eugenio Pacelli. Este assunto faz parte do jogo de poder político do Vaticano, e os judeus realmente não têm nada que se envolver. |
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