Brasil - Boletim ASA nº 116, jan-fev/2009


O país dos emigrantes

Renato Mayer/ Especial para ASA

                   

“E verás que um filho teu não foge à luta...” ( Hino Nacional Brasileiro)

A narrativa judaica que se construiu sobre o Brasil é a de um imaginário de uma terra de acolhida, um país que, mesmo sob governos autoritários – da República Velha ao Estado Novo –,  desconhecia o anti-semitismo e as perseguições étnicas e favorecia o progresso pessoal em meio a uma atmosfera de paz e de oportunidades.  Por três gerações ouvimos falar que “aqui não tem pogrom”, dos shifbrider, de fazer a América, de cartas de chamada,  ou que “em quinze dias tivemos que deixar tudo para trás”,  frases e expressões, entre muitas, que ficaram emolduradas na memória de cada lar judaico aqui instalado ao longo do que foi o terrível século 20.  Pois esta terra generosa,  o país do futuro, nas palavras do escritor austríaco judeu Stefan Zweig, mudou.
           

Faz algumas semanas que assisti a uma exposição do senhor Carlos Lozano, dirigente do Partido Comunista Colombiano, que falava de como a oligarquia de seu país se opusera ferozmente, ao longo dos últimos 60 anos, a qualquer reforma agrária e distribuição de terras.  E de como isso se refletia na luta política e militar que lá não cessa, agravada pela aniquilação sistemática da oposição, reunida na chamada União Patriótica, um partido de esquerda que perdeu 5 mil de suas lideranças assassinadas desde 1985, inclusive no atual governo.  Vista sob essa perspectiva, a autodefesa do povo adquiriu inevitável caráter armado, sem que esteja à vista solução próxima para o conflito.

A Colômbia, por tais motivos,  passou, como o Equador, o Peru e o Uruguai, a exportar sua gente, para a Espanha, Estados Unidos e outros tantos países.  Essa é uma história sabida.  O que surpreende é que o Brasil, desde os anos 1980, o tempo da “década perdida”, tenha-se também alinhado a eles como terra de emigrantes.
           

Não é nada que se compare à aliá dos 10 mil  brasileiros que, por razões religiosas e ideológicas, optaram por viver em Israel desde a Independência, em 1948.  É um fluxo acumulado muitíssimo maior que, por fantásticas discrepâncias estatísticas, uma vez que talvez a metade delas esteja em situação irregular, ficou estimado, em 2007, entre 2 milhões e 3 milhões e 135 mil pessoas.  Calcula-se que, na década de 1980, o saldo migratório líquido do Brasil foi negativo, de 1 milhão e 800 mil pessoas.  Na seguinte, teria caído para 550 mil, um número ainda muito expressivo.  Sua importância se traduz financeiramente nas remessas de recursos para casa, as quais teriam chegado, no ano retrasado, a  7 bilhões e 100 milhões de dólares.  Até em cidades de porte grande como Governador Valadares (MG) e Criciúma (SC), beneficiárias de remessas dos Estados Unidos, e Maringá (PR), de divisas vindas do Japão, é relevante o seu impacto na economia local.
           

O que teria levado tantos filhos a deixar “a mãe gentil” de  presumível generosidade e potencial prosperidade para todos?  Trabalho e emprego, salários, oportunidades de melhora e até fuga da instabilidade.  Terra também.  Também?  Sim,  Paraguai e Bolívia atraíram nos últimos 30 anos milhares de agricultores do sul do nosso país para seus departamentos ao longo da fronteira, numa verdadeira expansão da fronteira agrícola brasileira.  Em particular, no Paraguai, que se constitui no segundo ou terceiro país (novamente, são falhas as estatísticas) que mais abriga a diáspora brasileira, reproduz-se o perfil da estrutura agrária do Brasil (Vale lembrar que o Movimento dos Trabalhadores sem Terra foi criado precisamente na cidade de Cascavel, no Estado do Paraná, relativamente próxima à fronteira paraguaia, em 1984.)  São mais de 300 mil “brasiguaios”, como são conhecidos, mas estima-se que os grandes lotes de terras estejam nas mãos de menos de 500. 
           

A crise econômica e social marcou profundamente corações e mentes dos brasileiros.  As possibilidades de melhora de vida, reais ou imaginárias, e o apoio financeiro a familiares são o que move as nossas migrações.  O retorno pode ser temporário ou sempre adiado.  Os Estados Unidos, com  o seu mito de grandes oportunidades,  sustentado pelo crescimento econômico dos anos 1990, tornaram-se, por isso,  o maior pólo de atração dos emigrantes do Brasil. Cerca de 1 milhão e 250 mil  brasileiros migraram para lá  (com destaque para o estado de Massachusetts), sendo responsáveis por 75% do total de remessas unilaterais anuais para o nosso país.  As comunidades de brasileiros  ali estão cada vez mais organizadas e criaram redes sociais de apoio, muito baseadas em relações de conterrâneos, que provêem trabalho, alojamento, assistência e adaptação. Nos Estados Unidos (como também na Europa) é extensa a lista de ocupações buscadas pelos brasileiros, situando-se a maioria delas, porém, em atividades de menor qualificação. Assim, é a existência daquelas redes que tem assegurado a permanência e o destino do contingente migratório, até em condições de ilegalidade – ou de indocumentação, para usar o jargão técnico –, mesmo quando a economia americana já não vai tão bem. 
           

Em conjunto, Estados Unidos, Paraguai e Japão abrigam dois terços dos emigrantes brasileiros.  Os brasileiros neste último país, os dekasseguis (literalmente, os que trabalham fora de casa) − trabalhadores brasileiros e seus dependentes no Japão são 329 mil, logo abaixo dos que vêm das duas Coréias e da China −, possuem, no entanto, a singularidade de se beneficiarem da Lei de Controle da Imigração, aprovada em 1990, que permite a entrada e múltiplos retornos dos descendentes de japoneses até a quarta geração, assegurando-lhes visto de permanência ou de prazo longo.  Dessa maneira, cerca de 83% dos brasileiros usufruem a ascendência étnica nipônica, com o restante se constituindo, em boa parte, de cônjuges.  Outro aspecto que os distingue dos demais emigrantes é que sua chegada ao país é muito controlada e já vem negociada a partir do Brasil por meio de agências de recrutamento, responsáveis pela grande maioria dos primeiros empregos e locais de hospedagem.
             

Os dekasseguis, ao contrário de seus antepassados, originalmente agricultores, provêm da classe média urbana e contam com boa escolaridade.  Ainda assim, seu destino mais comum é para fábricas, para trabalhos menos qualificados, sob o signo dos 5 Ks, que correspondem, em japonês, às iniciais de penoso, perigoso, sujo, sacrificado e desagradável.  Com o crescimento da comunidade de brasileiros, o setor de serviços (escolas, comércio, locadoras de filmes, imprensa, etc.) expandiu-se consideravelmente e
já emprega muitos de nossos emigrantes.  Oizumi, na província de Gunma, e Hamamatsu, em Shizuoka, são até conhecidas hoje como “Brazilian towns”, tantas são as conexões e propriedades de brasileiros.
           

A ordem mundial, conforme ficou patente no recente fracasso da Rodada de Doha da Organização Mundial do Comércio em mudar políticas que pudessem eventualmente favorecer os países em desenvolvimento, trabalha para que outras tantas mães-pátria da periferia se mostrem amargas, ao invés de gentis, e expulsem seus filhos.  Na fase histórica de reconstrução de suas economias, antigas potências coloniais européias recebiam de bom grado estes migrantes, a mão-de-obra que vinha complementar suas necessidades na construção civil, nos serviços pesados, nos trabalhos domésticos, nas atividades de entretenimento.  Essa fase passou e a Europa, alarmada com a multiplicação deles e com sua incapacidade de prover empregos para todos, acentuada ainda mais  pela atual crise econômico-financeira, apela para legislações crescentemente restritivas da imigração e dos direitos desses migrantes.  Aumenta o número de ilegais.  Não é à toa que  para os brasileiros naquele continente – mais de 900 mil, a começar por Portugal, Reino Unido, Espanha  e Itália –, os números são apenas estimados por alto, já que grande parte dos nossos conterrâneos transita pelas chamadas franjas do sistema.  A expectativa é de que, dado o baixíssimo crescimento demográfico e a redução da população  em idade ativa  (fenômeno já constatado na Alemanha, Hungria e Itália), a crescente demanda por trabalhadores ofereça  renovadas perspectivas aos migrantes.  Mas este é um dado para o futuro.
           

Impressiona a dimensão da diáspora brasileira: os registros dão conta de que se estende por 97 países.  A diáspora evoca tristeza e saudade, nostalgia de uma bonança que não se cumpriu no local de origem.  Nós o sabemos bem.  “Temos nós, no Oriente ou no Ocidente, um sítio para descansar nossas esperanças?”, recordava dramaticamente no século 12, aos judeus do galut, o poeta Judá Halevi, na Espanha da Idade de Ouro.
           

A questão já preocupa o Ministério das Relações Exteriores,  o qual trabalha para ampliar a proteção jurídica aos migrantes, emprestar-lhes algum nível de legalidade e até cadastrá-los para assegurar sua participação eleitoral no país de origem.  Outras preocupações se referem à evasão de cérebros, ou seja, de trabalhadores mais qualificados, embora a crise brasileira seja também uma crise de educação.  O Ministério apóia  iniciativas que se contraponham à perda da identidade cultural dos migrantes, fortalecendo os laços mais amplos que os prendem ao Brasil.  São passos lentos, pois como disseram dois estudiosos mineiros do problema, em seminário realizado no Rio, “admitir a importância da emigração no país seria o mesmo que reconhecer uma espécie de fracasso das autoridades no desenho de sua política de desenvolvimento” (Eduardo L.G.Rios Neto e Ernesto F.Amaral, “A gestão migratória e o paradoxo da grandeza”, 2008).  É pedir muito de uma mãe.

 

 

REnato Mayer , economista, é colaborador do Boletim ASA .

 

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