| Pio XII- Boletim ASA nº 116, jan-fev/2009 |
O eco dos comentários Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros / Especial para ASA
Não sabia da notícia de que o papa Bento XVI havia manifestado a intenção de transportar o homem Eugenio Pacelli para o território ocupado pelos santos, e uns colegas já me pediam comentário sobre o desejo papal de alçar um seu antecessor à corte celestial dos preferidos de Deus. Minha primeira observação é sobre a inquestionável competência, única reconhecida pela teologia, monopolisticamente atribuída ao Sumo Pontífice da Igreja Católica, de reconhecer e declarar a sobrenaturalidade de fenômenos e, conseqüentemente, a santidade dos humanos portadores, objetos ou sujeitos de tais manifestações. Vozes se levantam lembrando as recorrentes denúncias-queixas sobre a alegada indiferença daquele Santo Padre diante do extermínio de judeus na Europa nazi-fascista na Segunda Guerra Mundial, sob seu pontificado. Neste coro só faltam vozes de sérvios, novamente dizimados, com a participação da ONU no esfacelamento da Iugoslávia, de ciganos, russos, poloneses, tchecos, eslovacos e húngaros, etnias e povos também massacrados pela irracionalidade da lógica belicista, que privilegiou e privilegia os investimentos em tecnologias da morte. Não só Pio XII assistiu “impávido colosso” ao início da marcha nazista do mal sobre a humanidade. Em nome da pax entre as nações e dos interesses econômicos de empresários, grandes comerciantes e banqueiros, os governantes do mundo, em algum momento pactuaram, como hoje, com o extermínio lucrativo de povos. Afinal, foi no estabelecimento da modernidade, no nascedouro das idéias que consubstanciaram o iluminismo e a civilização ocidental, que se praticou, durante quatro séculos, o maior genocídio da história, o tráfico negreiro, de cujos lucros viveram muitos luminares do racionalismo e da civilização humanista judaico-cristã. Nas inquisições calvinistas e católicas, nas revoluções camponesas esmagadas pelos luteranos, nas guerras religiosas da Europa, nos pogroms e nas estratégias de “guerra preventiva para a eliminação do terror”, os germens do mal − expressão utilizada por George Steiner − contidos na cultura ocidental se saciaram e saciam bestialmente no sangue dos filhos de Deus. Afinal, como indaga o catolicismo popular: “Ele não fez a nós todos?” Como discutir a elaboração dos critérios e a delegação, a quem os elabora, de escolha dos filhos preferidos ou renegados por Deus? As questões teológicas e éticas de frei Bartolomé de Las Casas sobre o extermínio das populações indígenas das Américas em nome da catequese ecoam sem resposta pelos séculos, reverberando a eternidade do ovo da serpente, de onde os germens do mal brotam recorrentemente, acalentados na chocadeira em que vivemos, matando milhões de seres humanos e as utopias, em nome de Deus. Os critérios de santificação da Igreja Católica não passam pelo escrutínio das baixas camadas de seus seguidores, pois resultam de mais de dois mil anos de sabedoria divina iluminando a alta hierarquia de teólogos e sacerdotes, completando-se o processo com o dogma da infalibilidade do papa em questões de religião, nas decisões sobre os caminhos da Igreja. A tristeza sentida na adolescência, ao ler que Pio XII autorizara apoteótica missa de réquiem pela mãe do sanguinário carrasco alemão Himmler, na Catedral de Colônia, só a perdi quando, já adulta, acompanhei o terror vivido pelo mundo no confronto entre o presidente dos Estados Unidos John Kennedy e Khruschev, presidente da Rússia, no cerco norte-americano e defesa russa de Cuba, com as ameaças de nova hecatombe, em nome do mundo livre e democrático. Naquele episódio, quando o anti-comunismo da Guerra Fria dependia da tomada de posição do papa responsabilizando o monstro comunista pela eclosão de uma nova guerra, o Santo Padre João XXIII, por inspiração divina, desnudou a farsa norte-americana da santidade da guerra anti-comunista, afirmando que amaldiçoaria com a responsabilização pelo eclodir da guerra aquele que disparasse o primeiro tiro .Então, para todos os povos de Deus, ele foi santo! O cearense monsenhor Azarias Sobreira, relatando as dores espirituais de sua vida de sacerdote católico, falava de sua grande felicidade de viver o pontificado de João XXIII, para ele o único grande reformador da Igreja escolhido por Deus na Hierarquia sacerdotal. Quem explicaria a escolha de Deus, transmitida por inspiração ao papa Bento XVI, entre aquele que evitou uma guerra, talvez atômica, e seu outro pastor que, sem condenar o lobo devorador de tantas de suas ovelhas, permitiu que se realizasse pomposamente o santo sacrifício da missa numa celebração que, aos olhos dos que aguardavam o extermínio nos campos guardados pelas matilhas sanguinárias de Himmler, pareceria aprovação de seu holocausto ou indiferença pelo seu destino? Respondem os beatos: o homem é muito imperfeito para entender os desígnios de Deus!
Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros é antropóloga e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ |
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