Beco da mãe -Boletim ASA nº 116, jan-fev/2009

Coalhada, smetane, ricota

Henrique Veltman / Especial para ASA

                
Na Rua Sotero dos Reis, bem ao lado da Estação Francisco Sá da Estrada de ferro  Rio d’Ouro, ficavam as instalações da CCPL, a cooperativa dos produtores de leite. E ali, especialmente nos finais de semana, eram colocados na calçada os latões de leite talhado. O povo da região podia servir-se à vontade desse leite, e era o que nós fazíamos, meu pai e eu, sempre aos domingos. A gente ia até lá de manhãzinha e enchia várias panelões com o leite talhado.
Depois, no quintal de nossa casa, seu Chico colocava o leite numa barrica de madeira e eu, todo pimpão, tratava de rodar a manivela com vigor e paciência, batendo sem parar. Ali, o milagre da transformação: o leite talhado virava ricota, coalhada e, também, smetane, o creme azedo que, mais tarde, iria marinar arenques, sardinhas e outros pescados e pecados.
Nesses milagrosos domingos, minha mãe já tinha preparado a sua massa caseira. E era essa massa, mais a ricota e uns cheiros verdes, que se traduziam num prato inesquecível, montado com amor e carinho por nossos pais.
Ao longo da vida já comi muito macarrão e me tornei súdito fiel da smetane. Mas nada comparável aos locshn de minha mãe e à ricota de meu pai.

Sotero dos Reis

É impressionante como certas ruas acabam marcando nossa memória. A Sotero dos Reis, ali em São Cristovão, é hoje cenário do que sobrou da zona de meretrício do Mangue, Vila Mimosa.
Na minha infância no Beco da Mãe, a rua era a generosa oferta de leite talhado que, milagrosamente, a gente transformava em coalhadas, ricotas, smetanes.
Adulto e recém-casado, a rua era onde se erguia a sede do jornal Última Hora, onde vivi alguns dos melhores momentos de minha carreira de jornalista, viajando todos os dias de Copacabana a São Cristovão, a bordo dos velozes e perigosos lotações da linha Francisco Sá-Leblon.
Meu pai também freqüentava a Sotero dos Reis para cumprir sua mitsvá: a ida, de trem, ao cemitério de Vila Rosali.
Essa Estrada de Ferro Rio D'Ouro, a chamada Linha Auxiliar, eu soube depois,  começou a ser construída em 1876, para o transporte dos tubos de ferro e demais materiais que completaram as obras de construção das redes de abastecimento d'água. O contrato, assinado e dirigido pelo Paulo de Frontin, obrigava ao fornecimento do líquido no prazo de seis dias à cidade do Rio de Janeiro.
Em 1883, em caráter provisório, começaram a circular os primeiros trens de passageiros que partiam em direção à represa Rio D'Ouro, da estação de Francisco Sá. A Baixada Fluminense seria mais tarde dividida em três sub-ramais: Ramal de São Pedro, hoje Jaceruba; ramal de Tinguá, que se iniciava em Cava (Estação José Bulhões); e o ramal de Xerém, partindo do Brejo, hoje Belford Roxo.
Os trens, de bitola estreita, atravessavam a cancela da rua Francisco Eugênio (será que era esse o nome, onde ficava também a sinistra sede do SAM, Serviço de Assistência ao Menor ?), passavam as ruas Bela e Benfica e seguiam, finalmente, em direção à Pavuna.
Várias vezes acompanhei meu pai em suas incursões pela Baixada fluminense, afinal de contas ele era clientéltchic e a gente ia cobrar os fregueses, geralmente em Duque de Caxias e Belford Roxo.
Eu  lembro que próximo a um trapiche do Comendador Tavares Guerra, uma estátua em ferro de mulher oferecia água aos passantes por uma cornucópia, a chamada Bica da Mulata. Na verdade, era uma estátua de mulher branca que, enferrujada, virou mulata. Depois do Rio Preto, a próxima estação era Vila Rosaly, nas terras então conhecidas pelo povão como Morro da Botica ou dos Barbados, uma clara referência aos nossos patrícios, especialmente os mais religiosos que,  claro,  usavam longas barbas.

A receita

Como lembrança daqueles tempos, vale uma receita do smetane. De vez em quando a gente encontra um similar do produto, especialmente em restaurantes de cozinha centro-européia. Não é a mesma coisa dos tempos da Sotero dos Reis. Mas vale como pró memória gustativa.
Misture 200ml de creme de leite fresco com o suco de meio limão. Deixe descansar fora da geladeira por uma hora e depois coloque para gelar. Na hora de servir, bata até que tome consistência de chantili.

Prost! Lechaim! Slįinte! Salute! Vashe zdorovie! Salud ! Gesondheid! Santé!

 

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.

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