Uma história como as outras?
Renato Mayer / Especial para ASA
Foi preciso chegar a uma fase mais avançada da vida para que viesse a mexer em algumas velhas feridas e valorizar a memória antes que esta se perdesse. Nisso contei com a ajuda do ITS - International Tracing Service, de Bad Arolsen, na Alemanha, que recém abriu ao público o mais completo serviço de busca e rastreamento do destino de prisioneiros do Terceiro Reich.
Final da década de 1930. Meu avô paterno, Georg August Mayer, era um homem muito apegado à sua cidade natal, Mainz, na Renânia. Havia mais de 250 anos que a família estava radicada ali. Mesmo diante da evidência do terror que se avolumava, ele se agarrava à hipótese, para tantos fatal, de que tudo passaria. “Podem dizer que não sou alemão, podem dizer que não sou ariano, mas não podem dizer que não sou um cidadão de Mainz”, eram suas palavras.
Seus três filhos, porém, enxergaram o que se aproximava. Meu pai aportou no Rio em janeiro de 1937; Rudi, o irmão do meio, emigrou para a Palestina e a irmã caçula, Ruth, conseguiu refugiar-se na Inglaterra, onde trabalhou como doméstica. Com uma carta de chamada de meu pai, veio para o Brasil em 1940, atravessando o Atlântico em plena guerra, em uma viagem de 21 dias em um navio britânico. Para o velho Georg, porém, a carta de chamada chegou tarde demais.
E, no entanto, os sinais tinham sido mais do que visíveis. Três dias após a Noite dos Cristais, de 9 para 10 de novembro de 1938, quando a Sinagoga Central de Mainz − para cuja construção a família Mayer havia contribuído − foi incendiada e lojas e imóveis de judeus foram atacados pela turba nazista em várias cidades da Alemanha e da Áustria, ele fez parte do comboio de perto de 30 mil judeus presos e enviados ao campo de concentração de Buchenwald, de onde, abatido e fisicamente enfraquecido, só foi solto em 10 de dezembro daquele ano.
Impossibilitado de deixar a Alemanha, foi também obrigado a vender a gráfica que imprimia rótulos para garrafas de vinho, o seu sustento e o da família, e seria detido, encarcerado e solto por mais duas vezes, em junho e julho de 1939 e, “preventivamente”, por três meses, em fevereiro de 1941. A acusação: crime de transgressão racial.
Aqui, a história é apenas deduzida pela documentação enviada pelo ITS e é possível que tenha passado desconhecida até dos filhos. Viúvo desde 1924, consta em parte da informação oficial que teria uma esposa legal, a senhora Maria Magdalena Juliana Ott, costureira de profissão. Consta também que era católico, embora todos em Mainz conhecessem a família como sendo judia. Arranjos para atenuar possíveis acusações ou a razão mesma para sua prisão?
Nada disso o livrou de, mais uma vez, ser preso pela Gestapo sediada em Darmstadt. Em 20 de março de 1942, junto com mil outros judeus, dos quais 468 de Mainz, foi enviado para a Polônia (possivelmente Piaski, onde os nazistas haviam montado um gueto, extinto em setembro de 1942), e de lá deportado por trem (Transporte XVII/1) para o campo de Theresienstadt, hoje Terezin, na República Tcheca, na noite de 27 para 28 de setembro daquele ano. Nesse local não agüentou muito: debilitado e com pneumonia, Georg August Mayer morreu em 12 de outubro de 1942. Tinha então 64 anos. Dos 453 judeus de Mainz, em sua maioria idosos, que fizeram parte desse segundo comboio, somente 24 retornaram à cidade, quando o campo foi, enfim, libertado pelo Exército Vermelho.
Após a guerra, meu pai localizou a senhora Ott e lhe escreveu, pedindo que devolvesse alguns bens, especialmente os quadros da coleção de Georg. Recebeu resposta: “Não posso, eles servirão para custear o meu enterro.” A miséria humana, física e social, é uma história típica dos anos de guerra e dos que os sucederam imediatamente.
Renato Mayer, economista, é colaborador deste Boletim. |