Contra, a favor, ou...
Ruthie Blum/ The Jerusalem Post
A julgar por suas posições polêmicas, em geral, e as explicadas em seu mais recente livro, em particular, Avraham (Avrum) Burg, ex-ativista do Paz Agora, ex-deputado, ex-presidente da Agência Judaica e ex-presidente da Knesset, não tem interesse em bajular seus adversários nem, ao que parece, seus aliados. “Adoro polêmica e debate.” Residente na comunidade de Nataf, nos arredores de Jerusalém, Burg passou a melhor parte da vida combatendo a realidade tanto quando estava dentro do sistema quanto depois de renunciar à vida pública. Por causa de seu pedigree político como filho do renomado líder do Partido Nacional Religioso Iossef Burg − o homem que mais tempo permaneceu no ministério, na História do país −, Avrum sempre foi visto simultaneamente com espanto e com suspeita. A maior parte do público e a mídia se referem a ele, no melhor dos casos, como “pós-sionista”, e no pior, como “anti-sionista” (basta atribuir atentados suicidas à ocupação israelense).
Neste mês de novembro, será liberado The Holocaust Is Over; We Must Rise From Its Ashes [O Holocausto passou; devemos nos erguer de suas cinzas], a versão inglesa de seu livro de 2007.
Ao ler o seu livro, ocorreu-me uma aparente semelhança entre a sua visão de mundo e o Imagine de John Lennon. Não há algo de ingênuo em adotar uma posição universalista − em oposição a particularista − no tocante ao Estado de Israel?
Sim, em muitos aspectos sou utopista. Após tantos anos na política, a indústria do cinismo, onde tudo é prático, táhles, agora eu digo ‘Vamos com calma’. Há algo de mais profundo em ser um homem, há algo de mais profundo em ser um judeu, há algo de mais profundo em ser um israelense. Portanto, estou tentando reintroduzir uma espécie de utopia, de profecia. É esta, na realidade, a razão de ter me retirado da política, a despeito de estar em ascensão. Eu tinha a sensação de que Israel havia se tornado um reino muito eficiente sem profecia. Ser judeu sem profecia no coletivo judaico é errado. E profecia tem algo a ver com ingenuidade.
As enfermidades que o senhor descreve não seriam o resultado da pouca idade de Israel? E quem sabe a mentalidade do táhles seja uma questão mais de “estilo sabra” do que de conteúdo?
Israel é um fenômeno fantástico. Temos todas as doenças da velhice e todas as doenças da adolescência. Somos ao mesmo tempo jovens e velhos, e ainda não conseguimos fazer a melhor síntese. Quanto ao estilo, penso que é outra coisa. Os judeus sobreviveram através dos tempos porque nós simplesmente nos lixamos para o sistema. O sistema nunca confiou em nós e nós, em troca, nunca confiamos nele, nunca nos incorporamos totalmente. Sempre sobrevivemos contornando-o. Hoje, mesmo quando o sistema é nosso, ainda tentamos enganá-lo, ainda não internalizamos completamente que ele é nosso. Quando não é seu, tudo é aqui e agora; quando é seu, se você causa dano hoje, alguém − talvez você mesmo, talvez sua descendência − irá pagar por isso amanhã. A falta deste entendimento está na raiz da mentalidade do táhles, da sensação de que tudo é temporário, o que significa não perceber que é necessário lutar pela melhoria do sistema a fim de não sofrer conseqüências por sua deterioração. Então, quando as coisas não vão bem, muita gente diz “Vamos para outro lugar”. É por isso que estamos vendo cada vez menos gente lutando pelo Estado e pela sociedade, e mais e mais gente desertando.
O senhor diz que ainda não internalizamos que o Estado é nosso. Dado que o Estado tem só 60 anos e que não se passaram tantos anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, por que o senhor considera que é hora de deixar o Holocausto para trás? Por que o senhor se incomoda que pessoas vão embora do país? A julgar pelo que escreveu sobre sermos todos parte de uma raça humana, o que lhe importa se judeus vivem aqui ou em qualquer outro lugar do mundo?
Daqui a 200 anos, quando o trauma estiver longe e não houver testemunhas vivas, imagine uma geração judia sem sentimentos de culpa. Imagine que teremos paz no Oriente Médio. E não estou sendo utopista. Acredito que a paz, em termos práticos, está mais perto do que se pensa. Não me diga que é impossível, porque se eu tivesse dito há 200 anos que hoje o povo judeu teria um Estado soberano, a Diáspora mais poderosa nos Estados Unidos, e a enorme maioria dos judeus vivendo no mundo democrático, você diria que era impossível. A preocupação dessa futura geração não serão pogroms e anti-semitismo, será se o povo judeu consegue sobreviver sem um inimigo externo. Dêem-nos guerra, pogroms, desastre, saberemos o que fazer. Dêem-nos paz, tranqüilidade, prosperidade, igualdade, emancipação e estaremos perdidos. O meu argumento, portanto, é o de que todos os velhos paradigmas de aliá − a palavra para ascensão − e ieridá − a palavra para descida − estão errados. Para mim, Jerusalém e Babilônia deixaram de ser lugares geográficos. Eles são estados de espírito. O povo judeu tem tido, e deve ter, dois hemisférios. Um é muito singular, privado, íntimo, particularista; o outro é universalista, aberto para as demais culturas e civilizações. Necessitamos de ambos. Para mim, Jerusalém é a expressão simbólica do judeu isolacionista, enquanto Babilônia é a do judeu universalista. Em outras palavras, pode-se ser um jerosolimita em Monsey, pode-se ser um babilônio em Tel Aviv. É uma questão de atitude. A pergunta é: você está se guetoizando, mesmo que não tenha um inimigo que o obrigue a isso, ou está se abrindo às experiências de outras culturas, enriquecendo-as e sendo por elas enriquecido? Assim, quando você pergunta por que importa se alguém abandona Israel, respondo que não se trata de “descender”. É um programa de intercâmbio. Alguns vão, alguns vêm, alguns ficam aqui, alguns ficam lá. Trata-se de melhoramento; por mim, tudo bem.
Quanto ao Holocausto ser ainda recente demais para que nós o superemos: admito que este livro está à frente de seu tempo, especialmente numa sociedade que transformou o Holocausto numa religião ou rito nacional. Este, na realidade, é um livro para os meus filhos e os meus netos. Nestes dias está sendo talhado o comportamento da nação. Eu me oponho é aos esforços nacionais para reproduzir o trauma − levar para os campos na Polônia crianças de 16, 17 anos, antes de começarem o serviço militar, uma idade em que o sangue está fervendo. Isto não é apenas uma manipulação barata, é uma forma errada de moldar a experiência da próxima geração. Levem-me aos 25 ou aos 30. Dêem-me um voucher para uma viagem quando eu for uma pessoa mais madura. Não me empurrem para os quartéis diretamente das ruas que cercam Auschwitz.
O senhor parece falar do Holocausto e seus resultados da mesma maneira que muitos da esquerda falam sobre a Guerra dos Seis Dias e suas conseqüências, como se não houvesse uma História judaica precedendo o evento. Como um judeu ortodoxo versado na Bíblia, o senhor não vê semelhanças entre a História dos Cinco Livros de Moisés e os jornais da atualidade?
Eu não sou um judeu ortodoxo; não acredito em ortodoxia de espécie alguma. Quando me perguntam se sou ortodoxo ou conservador, respondo “Isto não é da sua conta”, brincando, naturalmente. E acrescento: “Este é um assunto privado. Quem é você para invadir a minha intimidade com o transcendental?” E quando estou de bom humor, eu me descrevo como um judeu protestante [ele ri], isto é, tenho um conjunto de relações entre eu e meu criador e 100% de responsabilidade por minha interpretação e atuação. A ortodoxia se opõe ao pluralismo, que é muito mais complicado. Pluralismo significa que, no momento, a minha identidade respeita muitos passados diferentes. Há um passado messiânico e um passado profético e um passado filosófico e um passado nacional e reino e exílio − pode-se enfatizar qualquer um deles. O problema está na psicologia do trauma. Não se trata do Holocausto em si ou de 1967. Trata-se do período entre 1945 e 1948, entre o fim de Auschwitz e o começo da Guerra de Independência de Israel. O que fizemos foi retirar esses três anos do nosso passado, de modo que toda vez que palestinos matam alguém, a vítima não é só uma. É uma vítima mais 6 milhões mais dois mil anos.
É assim que justificamos os nossos sentimentos em relação aos palestinos?
Não estou defendendo ninguém. Todos os sentimentos se justificam se você os sente. Mas serão os sentimentos necessariamente verdade? São realmente dois mil anos de traumas? Quando se estuda o Holocausto, só o que há são os seis milhões de vítimas judias. Não haverá também os Justos entre as Nações?
Mas nós honramos os Justos entre as Nações, não? No Yad Vashem com certeza.
Nós confiamos realmente no mundo? Eu confio. É tão difícil para o israelense aceitar isto. Passemos devagar, porém com segurança − não da noite para o dia −, do trauma para a confiança.
Dê um exemplo na História judaica em que a confiança levou a algo positivo. A experiência não conta?
Suponhamos que a falta de confiança se baseia na experiência, e vejamos mil anos de banho de sangue na História da Europa. Todo mundo matava todo mundo. É, portanto, muito tendencioso dizer que todos eles eram contra nós. Especialmente porque, durante a maior parte destes mil anos, a conversa entre os judeus e o mundo foi muito afirmativa e positiva. Será possível compreender a civilização ocidental sem perceber que Jesus nasceu judeu, foi crucificado como judeu e enterrado como judeu? Será possível compreender a abertura da Europa na Idade Média sem reconhecer o que Maimônides absorveu do mundo muçulmano, filosofias platônicas e aristotélicas que estavam totalmente esquecidas na Europa cristã? Será possível compreender o avanço da Europa para a modernidade sem Spinoza em Amsterdam? Será possível compreender o século 20 sem Zamenhof, Freud e Marx? Ao mesmo tempo, será possível compreender o judaísmo assim como o conhecemos − ou, desafortunadamente, como não o conhecemos − sem o Iluminismo? Sem filosofia? Sem comércio? Sem sistema bancário? Sem democracia? Em outras palavras, é um programa de intercâmbio inacreditável! É verdade que tivemos traumas. Mas outros também os tiveram. Portanto, árabes nos matam, e nós a eles. E nós os odiamos. E quando alguém argumenta que isto não é islã, que existiu uma idade de ouro na Espanha, a resposta é “Ah, bobagem!”
Por que o senhor diz que odiamos os árabes? A maioria das pessoas hoje defende a posição de que o islã foi seqüestrado por extremistas e que os muçulmanos moderados em todo o mundo são vítimas desses extremistas.
Também eu me sinto raptado por extremistas religiosos. E as pesquisas de opinião mostram um assustador grau de xenofobia entre os israelenses, e não apenas a nossa boa vontade para redimir os árabes de seus próprios seqüestradores.
Se desenvolver confiança e repelir xenofobia são condições para atingir a sua utopia, não seria a conclusão lógica debandar o Exército, que é, por sua própria natureza, o símbolo da falta de confiança nos inimigos?
Para nós, israelenses, tudo é preto ou branco, sem meio-termo. Ou se é pacifista ou se é fascista. Infelizmente, a vida é um pouco mais complexa. Acredito que muitas nações precisam de força para defender seus fundamentos. O grau de força depende de quais são esses fundamentos. Hoje, a Europa está desmontando os exércitos particulares e fazendo uma espécie de esforço coletivo num interessante processo de construção dos Estados Unidos da Europa. Temos de esperar para ver no que vai dar, mas a questão é que, mesmo direcionada para a paz, a Europa tem um Exército − efetivo, não efetivo, com os americanos, sem os americanos, mas ainda assim um Exército. Israel também tem fundamentos. Tem também temores legítimos, nem todos são fruto da nossa imaginação. O que me perturba é a centralidade do Exército em nossas vidas. Apavora-me a facilidade com que o pessoal circula do Exército para o governo. É tudo parte do mesmo sistema. O Exército é um instrumento do povo. Mas, quando generais se tornam automaticamente líderes do Estado, não dá para evitar a sensação de que é um Exército que tem um governo, em vez do contrário. Eu amo e admiro as Forças de Defesa de Israel (FDI) − tenho seis filhos que servem ou serviram nas melhores e mais temíveis unidades − na mesma medida em que não as quero na política.
Mas no caso do primeiro-ministro Ehud Olmert e do ex-ministro da Defesa Amir Perets, que não entraram na política saídos do Exército, não teria isso causado prejuízos na Segunda Guerra do Líbano?
No momento em que a situação ficou crítica, o Exército assumiu o comando e os usou como marionetes. E parte da violência dentro da sociedade israelense − como abuso de mulheres e crianças − torna-se kosher como resultado da nossa incontrolada violência em tempo de guerra. Isto nos remete aos nossos fundamentos. Eu preciso de um Exército que me defenda de meus inimigos. Mas o Exército hoje é um instrumento nas mãos de um programa messiânico. Toda a Margem Ocidental é a expressão de uma agenda messiânica que as FDI estão aí para defender.
Mas não foram as FDI que levaram a cabo a retirada de Gaza e evacuaram judeus, muitos deles religiosos?
Sim, mas para 41 anos de um programa messiânico temos um evento de evacuação. Falta equilíbrio. Toda vez que política judaica se fundiu com filosofias messiânicas deu em catástrofe. É o que está acontecendo agora. Temos o Estado mais poderoso de todos os tempos. Temos o aparato militar mais poderoso. E temos a ajuda messiânica mais poderosa de sempre / nunca. É uma receita de desastre.
Será isso, então, “O fim do sionismo”, como sugere o título de um de seus artigos mais polêmicos [publicado no The Guardian, em outubro de 2003]? O Estado judaico sobreviverá?
O sionismo foi o andaime − para usar a metáfora de Ben Gurion a respeito das organizações sionistas − que se pretendia para permitir ao povo judeu reestruturar-se ao passar do exílio para a soberania. E funcionou não uma, mas duas vezes. Temos o poderoso e soberano Estado de Israel, de um lado, e a poderosa Diáspora ocidental, de outro. Uma vez tendo estas duas estruturas, não há mais necessidade de andaime. Pode-se removê-lo e apreciar a beleza da construção. Para alguns, o sionismo é um livro para se ler e reler; para mim, é um capítulo. Termina-se um, passa-se para o seguinte.
Não é problemático este ponto de vista partindo de um ex-presidente da Agência Judaica?
De fato, quando ocupei o cargo, publiquei um livreto intitulado Brit Am [Aliança Nacional], no qual estão plantadas as sementes desta idéia. Nele eu dizia que precisávamos nos preparar para a era pós-resgate. Na época, eu tinha 400 mil judeus oriundos da ex-União Soviética e dezenas de milhares da Etiópia − ainda era a inércia do velho paradigma. Mas acabou! E para onde está indo? Nós gostamos da definição de Israel como uma democracia judaica e a consideramos o melhor dos mundos. Gente, é uma ilusão. Graças a Deus temos os árabes como inimigos. Nós os vemos como o mal. Segundo Sartre, o anti-semitismo definia o judeu. Bem, os árabes definem quem é israelense. Portanto, digamos que um dia aconteça um desastre e haja paz [ele ri], e os árabes decidam adotar o caminho de Gandhi, da não-violência. Aí não teremos a desculpa de não podermos cuidar da nossa erosão interna por culpa da ameaça externa. Nesse momento se dará aqui o choque entre a democracia e a teocracia, como no cristianismo e no islã. E a definição de um Estado democrático judaico, que soa tão bem, criará um conflito tal que não tenho certeza de que seremos capazes de dominá-lo. O que significa ser o Estado de Israel um Estado judaico? Que independentemente do que você faça ou de quantos árabes vivam aqui ele é judeu por sua própria natureza? Pois para mim, quando se diz que o Estado é judeu e se libera o indivíduo de responsabilidade, essa é a receita para uma realidade imoral. Não quero que o Estado defina para mim a minha realidade espiritual. O Estado de Israel é uma democracia. É o Estado dos judeus. E os judeus decidem ficar aqui e se comportar como judeus. É a nossa responsabilidade, não uma imposição do Estado. Portanto, para mim, Israel é um Estado democrático do povo judeu que pertence igualmente a todos os seus cidadãos. Se não garantirmos a separação entre Knesset e beit haknesset [ Parlamento e sinagoga], entre rav e ribon [rabino e líder] e entre halahá [lei religiosa] e lei, estaremos fadados ao conflito e ao fracasso. Fazer esta separação é a única forma de garantir um futuro próspero.
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