Dona Bertha - Boletim ASA nº 115, nov-dez/2008


Lembrando Nathan (parte 4)

Bertha Vitis Feferman / Especial para ASA

 

Desencadearam-se forte reação e perseguições a entidades e pessoas consideradas suspeitas.  Por ser originário da Rússia e simpatizante da causa, meu cunhado Beni e Eva  emigraram para a Argentina, onde ele veio a  falecer. No Brasil ocorreram movimentos políticos e a conhecida revolução de 27 de novembro de 1935, ano que marcou também a data do meu casamento com  Nathan Feferman, dia 16 de maio, tendo como padrinhos o senhor Luiz e esposa.

Em 1936 falecia meu pai, de insidiosa doença. Em junho de 1938 nasceu meu filho único, o Milton.
Nathan Feferman chegou ao Brasil em 1920 com seu pai, Mendel, suas duas irmãs, Fani e Firmina, e uma tia. Emigrado da Ucrânia, trouxe comprovante de ter feito lá metade do estudo médio, completado aqui, no Pedro II. Em seguida, entrou para a Faculdade de Engenharia do Largo do São Francisco, no Rio. Formou-se aluno distinto e, na prática, foi muito eficiente, grande técnico e trabalhador  incansável. Sócio da  Construtora Pires e Santos S.A., na qual se iniciara, Nathan deu grande desenvolvimento às atividades da firma. Simpático e com senso de humor, era, na vida pessoal, bastante requisitado pelas famílias com filhas casadoiras, apesar de não ser muito sociável (não era grande dançarino). Freqüentava os eventos da BIBSA e aconteceu-lhe de se apaixonar por Alguém contra a vontade dos pais.

Faleceu em janeiro de 1984, após algum tempo de diabetes herdado, cujas conseqüências sofreu sem deixar de trabalhar (ia até de chinelo),  fiscalizando obras, etc.
Nathan me revelou certa vez “por que eu me viciei em cachimbo: no estudo, como  devia usar as mãos  na prancheta,  eu colocava o cachimbo num canto da boca e ficava com as mãos livres para o trabalho”, o que lhe custou  uma séria operação nos lábios e piora  no estado geral. Mesmo assim, tivemos ótimas férias: Cambuquira e Caxambu (antes de sua doença) e também uma viagem à Europa e Israel. Minha vida com o Nathan foi muito boa, rica, com  o maior conforto  possível, com compreensão, profunda amizade e carinho, mesmo sem grande paixão.
 Nathan queria rever o túmulo da mãe, falecida  quando ele ainda era criança. Fizemos uma excursão de dois meses que nos proporcionou um  roteiro inesquecível: Praga, Moscou (onde assistimos às celebrações do 1º de maio em dia de sol, lindo apesar do frio, em pleno verão), Leningrado  (a antiga São Petersburgo,  cidade de artes e História), Kiev (parecida com o Rio, nos seus dias lindos de calor). Não chegamos a visitar o desejado cemitério porque a pequena cidade era servida por  avião apenas uma vez por semana, o que nos faria perder a conexão com o grupo do qual fazíamos parte. Depois de irmos a Viena em visita à sobrinha pianista, Carminha,  seguimos para Roma  e fizemos conexão aérea para Israel, onde já residia Firmina (Frume), a irmã mais nova de Nathan, com  marido, um filho e uma filha. Conhecemos a Pátria dos sonhos de nossos avós, de cuja vida pouco sabíamos.
A volta nos obrigaria a ir para a Itália, de onde a excursão nos levaria a Paris  e Suíça. A  França, porém, estava com seus aeroportos fechados em conseqüência da revolução estudantil chefiada por Cohn Bendit. Não pudemos conhecer Paris!
Da Itália tivemos que voltar em navio, uma nova sensação, que terminou com a entrada na linda Baía de Guanabara, debaixo dos elogios de grupos de turistas estrangeiros entusiasmados!
 

Nosso filho ficara no Rio, aos cuidados de minha irmã Cecília, depois de ter passado suas férias na Colônia Kinderland, como sempre. Era  1968, no Brasil o ano que não terminou, como ficou conhecido graças à obra do jornalista Zuenir Ventura.
Após o casamento, como eu trabalhasse fora, optamos por residir numa pensão de boa categoria dirigida pela francesa Madame Claire e pelo austríaco senhor Willy, situada na Rua Voluntários da Pátria, 24. Hoje este prédio ampliado e reformado pertence a um supermercado. Fomos morar depois na Rua São Clemente,  47, sobrado, prédio recém-construído pela firma Pires e Santos e que, depois, passou a ser o escritório central do Metrô do Rio. A seguir  viemos para nossa residência efetiva, onde me encontro  desde 1948.
Além do meu trabalho profissional na revista,  fui convidada para me associar a um grupo de mulheres que se constituíram em associação nacional, a AFIB - Associação Feminina Israelita Brasileira (antes Associação Azul e Branco). Terminara a Segunda Guerra Mundial com um trágico saldo de vítimas: 1/3 do povo judeu − entre os numerosos sobreviventes,  crianças em péssimas condições de saúde. Na França, foi fundada a Associação L’Union, que se propôs a um vasto trabalho de recuperação da saúde e sociabilidade dos órfãos, solicitando para isso a ajuda dos voluntários de todo o mundo; também o Brasil esteve associado a esse trabalho, com a remessa de dinheiro, mantimentos, roupas,  através da Cruz Vermelha Brasileira. Foi um trabalho grandioso em que estiveram muito empenhadas as mulheres da AFIB, destacando-se as ativistas Aída Camenetzki, Carlota, Doba, Fêigale, Mânia. Tarefa ingrata esta de citar tão poucas entre cerca de uma centena; receio cometer omissões imperdoáveis!!! A minha parte se resumiu aos pedidos por cartas e  agradecimentos.
Após algum tempo, L’Union começou a dispensar os auxílios do exterior: as vítimas juvenis, recuperadas em praias ou montanhas, já podiam, por seu  próprio esforço,  tratar dos meios de sua sobrevivência.

Ficava assim ociosa uma legião de voluntárias e trabalhadoras sociais muito práticas. Seguindo várias sugestões e exemplos, decidiu-se fundar uma colônia de férias para crianças e adolescentes em todos os lugares do Brasil onde houvesse número regular de judeus. Esta atividade renovou a energia das nossas colaboradoras. Após duas experiências em hotéis, ficou patente a inadequação desse meio, o que levou à necessidade da aquisição de local próprio.
Com a adesão de grupos progressistas de São Paulo, Paraná e vários outros, foi possível, com muito trabalho, a compra de uma sede própria em Sacra Família do Tinguá (Estado do Rio). Destinado às férias de família de recursos, o imóvel necessitava  de reformas para a finalidade da AFIB. Puseram-se novamente em campo as nossas numerosas ativistas e conseguimos também o apoio de amigas profissionais para a realização das obras necessárias: dormitórios separados, cozinha adequada, salão de refeições, depois piscina, etc, possibilitando  um primeiro grupo de verão logo após a compra, em  1952.
Cabia-me o trabalho de divulgação, apresentações em reuniões de pais e outras tarefas em que se tornasse necessária a fluência do português para a boa comunicação.

Ao mesmo tempo da fundação da colônia sob o nome de Kinderland (País das Crianças), foi iniciado um trabalho de leituras, debates e esclarecimentos destinado à  conscientização das ativistas. As reuniões eram  semanais, nos bairros do Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades importantes. No Rio, reuniam-se também, mensalmente, representantes de cada grupo para ouvir palestras de  mulheres, principalmente as recém-imigradas,  com sua cultura européia,  e também de personalidades  convidadas, como a deputada Heloneida Studart, a professora Moema Toscano e a arqueóloga Fernanda Camargo, que voltara de Israel com  slides de importantes pesquisas  feitas ali. Também alguns amigos nos trouxeram importantes informações sobre acontecimentos de relevo, como, por exemplo, a ida do homem à lua.

Também os  colonistas da Kinderland recebiam  conhecimentos em debates e leituras sobre os acontecimentos mundiais, tornando assim as férias, além de recreativas, culturais. Com o passar do tempo, a Kinderland obteve o apoio de jovens profissionais e elementos culturais que se tornaram monitores dos colonistas, coordenadores, dirigentes. A Kinderland é pioneira nesse trabalho no Brasil, e entre seus colaboradores  podemos citar: Noemi e Carlos Acserald, Lea Sheiman, o casal Max Gruzman, Sarinha e  Henrique Morelembaum, que, além de notável maestro, é grande pedagogo. São também dignos de menção, entre vários outros, o casal Muni e Fany Sirota − que chegava a passar semanas na sede  para orientação  e fiscalização das obras −, Odilon Niskier e Nathan Feferman nos projetos arquitetônicos. A administração recebia a importante colaboração do doutor Luiz Goldberg e de sua esposa, Hilda. Por ser brasileira, Hilda facilitou a legalização da Associação. Ela foi   presidente da AFIB por uma temporada, seguida de Martha Kaplan, outra lutadora, e de seu filho Alexandre.

Ex-colonistas  fundaram os chamados “Clubinhos”, dirigidos como as colônias após as férias, com Jornal Mural e outras atividades. Graças à influencia do maestro Morelembaun, nasceram a Orquestra Pró-Música e  um Coral de ex-colonistas,  que fizeram exibições locais, além de intercâmbios com grupos idênticos de outras regiões do país. Com o talento da inesquecível Doba, ajudei em algumas traduções da imprensa mundial, mesmo do idish, que conheço pouco. Doba  explicava o sentido das leituras e depois dizia “Agora você bota no seu bom português” para as necessárias correções dos textos.

A unificação das diretorias da Associação Kinderland  e da  ASA  deu margem a grande desenvolvimento da AFIB e da Colônia, cujo vulto já fugia às possibilidades do grupo feminino. Dessa forma, a Kinderland funcionou  ininterruptamente  para as férias com a aceitação cada vez mais ampla  da comunidade. Ao completar 50 anos,  os jovens dirigentes publicaram interessante revista ilustrada. Também a Alerj – Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, por iniciativa do deputado Carlos Minc, que também foi criança-colonista, festejou o cinqüentenário  da Kinderland com sessão especial e entrega de placa  homenageando o grupo feminino na minha pessoa, a mais idosa das fundadoras vivas. Compareceram a essa cerimônia, além de membros da ASA e de representantes das diretorias, o ilustre presidente da FIERJ-Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, Osias Wurman, entre outras personalidades.  Usei da palavra, no ato, para esclarecer que a homenagem deveria se estender a todo o grupo de ativistas.

Bertha Vitis Feferman

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