| Entrevista - Boletim ASA nº 115, nov-dez/2008 |
Um olhar para o carente Lea Pustilnic Losinsky / Especial para ASA
Ela transpira preocupação com o social. Os olhos ficam marejados ao falar do recente caso da família judia retirada, com ajuda institucional, de um dos morros da cidade. Lea Lozinsky, a nova presidente da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro - FIERJ, candidata única às eleições de agosto último, assume o cargo no próximo dia 12 de novembro, em cerimônia no Templo Sidon. Quarenta anos na Wizo e oito na presidência da Sociedade das Damas Israelitas - Froien Farain reforçaram em Lea o valor da solidariedade com o necessitado, aprendido na infância quando acompanhava a mãe, já então ativista do Froien Farain. Aluna do Hebreu Brasileiro, transferiu-se para o Andrews quando a família se mudou para a zona sul. Depois de algum tempo no Hashomer, integrou-se a um grupo formado pelo doutor Henrique Lemle, apesar de não freqüentar a sinagoga da ARI porque seus pais eram ortodoxos. Dois filhos, quatro netos, viúva há sete anos, ela conta que se formou em Arquitetura, mas seis meses depois largava a prancheta. “Gosto mesmo é de dar aula”, diz a ex-professora de matemática do Liessin, Sion, São Vicente e outros colégios conceituados da cidade. “O Sion foi uma escola de vida para mim.” O boletim ASA entrevistou a nova presidente na sede da FIERJ, entre Rosh Hashaná e Iom Kipur, poucos dias depois de seu retorno de Israel, onde participou de um seminário sobre liderança promovido pela Federação Israelita de São Paulo. ASA - Das quatro últimas eleições, três tiveram chapa única para o Executivo. Nesta em que a senhora foi eleita, o número de eleitores caiu cerca de 40% em relação à de 2004, quando também houve chapa única. A que atribui a dificuldade de mobilizar a comunidade para participar dos processos eleitorais? Lea Lozinsky – Eu até achei que foi muito. As pessoas diziam que não precisavam votar porque era chapa única, mas eu respondia que, se não votassem, eu não me sentiria eleita. Nesse dia estavam ocorrendo três ou quatro eventos grandes, entre eles dois casamentos. Por isso, do Lubavitch, que vota na gente, em vez dos mil votos esperados, só tivemos duzentos e poucos. ASA – Com a experiência acumulada nas quatro gestões anteriores − duas vezes como vice-presidente, uma como presidente do Conselho de Ação Social e uma como vice-presidente institucional representando o Froien Farain −, o que pretende continuar e/ou modificar nesta nova gestão? L.L. – Alguns projetos da última gestão estão em andamento porque dois anos é muito pouco. Mas o do seguro saúde está quase pronto, só não posso ainda revelar detalhes. ASA – Quais são os pontos fortes da comunidade? E os pontos fracos? L.L. - Pouca gente sabe, mas o Hospital Israelita nos ajuda muito, é um grande parceiro. O ponto fraco e que nos assusta muito é a pobreza. Quem fica pobre deixa de ir à sinagoga e ao clube, não se sente bem de encontrar as outras pessoas. ASA – Em matéria para este Boletim [“Os casos que ninguém vê”, ASA 76, maio-junho de 2002], a senhora, então presidente do Froien Farain, escreveu: “A comunidade judaica do Rio, pouco presente, sem conhecimento das proporções reais do nosso quadro de pobreza nem das organizações que efetivamente contribuem para torná-lo menos agudo, mostra que temos um longo caminho a percorrer.” Tem informações atualizadas sobre o quadro de pobreza entre os judeus? Aumentou na comunidade o conhecimento sobre esse quadro? L.L. – Uma vez, tive uma reunião no Palácio Guanabara com a Benedita da Silva a respeito de programas sociais, e uma de suas assessoras se admirou: “Mas tem judeu pobre?!” Eu disse: “Vocês não chegam a saber porque a comunidade tira este ônus dos ombros do governo. Mas existe pobreza, e muita.” Recentemente, tiramos de morros três famílias, demos para as crianças bolsas em escolas judaicas, arrumamos casa, móveis, cesta básica. Uma das mães se inscreveu no Maot Chitim e eu perguntei: “ Mas você sabe fazer o Pessach?” Ela respondeu: “Eu sei, eu vi na casa da minha mãe.” ASA – Como chegaram a estas famílias? L.L. – Por meio de uma pessoa que quer se manter anônima. Quando os casos chegam até nós, podemos fazer alguma coisa. O problema é que a maioria tem vergonha ou medo de aparecer. Pretendo trazer toda a comunidade para participar seja com trabalho, seja com dinheiro. A minha mãe tinha a caixinha da tsedacá. Quando ela fazia compras, uma moeda que sobrasse ia para a caixinha. ASA - Temos cobrado de todos os presidentes da FIERJ a realização do censo comunitário, sem o qual o planejamento das entidades fica prejudicado. Pretende colocá-lo em seu plano de gestão? L.L. – O problema é dinheiro. ASA – Nos últimos anos, muito se falou numa reengenharia institucional, que resultaria na fusão de entidades. Em que pé está a situação? L.L. - Está difícil, mas continuamos tentando. Nas escolas já se fez, quase obrigado. Mas nós não gostaríamos que fosse assim, gostaríamos de fazer pensadamente. As coisas caminham muito devagar, acho que por causa da vaidade − “Por que é o meu que vai acabar, e não o seu?”. As entidades precisam ter dinheiro para pagar a conta de luz não no fim do mês, mas sempre. ASA - Qual é a sua expectativa em relação ao novo Conselho Deliberativo? L.L. - Eu vou precisar muito do Conselho ao meu lado para realizar os projetos, porque o Executivo não pode fazer tudo sozinho. ASA – Qual será o seu primeiro ato como nova presidente da FIERJ? L.L. – O nosso grande sonho − estamos trabalhando para isso − é ter um fundo mútuo para socorrer as instituições, sobretudo as beneficentes. Trouxeram recentemente para o Froien Farain um caso caro, que requer muito dinheiro para o resto da vida das pessoas envolvidas, e a instituição não tem uma retaguarda. Hoje, nós dependemos muito de particulares. Além de terminar o projeto, teremos de escolher para gerir o fundo mútuo três pessoas independentes, desvinculadas de qualquer instituição e da FIERJ e nas quais a comunidade confie. ASA – Qual seria a origem do dinheiro? L.L. – Não sabemos ainda, porque até em relação a isto há discordância. ASA – Que mensagem a senhora envia aos sócios da ASA e aos leitores deste Boletim? L.L. - Eu quero pedir que as pessoas não prestigiem só as programações das suas entidades. Nós fizemos um Iom Haatsmaút no Grande Templo em que, pela primeira vez, sentaram juntos os hazanim e os rabinos de todas as linhas. Veja agora: é preciso ter quatro chás de Sucot no mesmo dia e hora? Não bastaria ter um ou dois? Eu não posso me dividir, e como eu, várias pessoas. O que eu peço é união. A comunidade junta é uma força.
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