Beco da mãe - Boletim ASA nº 115, nov-dez/2008

O Nick Bar de Joe Kantor

Henrique Veltman / Especial para ASA

 

Acho que a maioria dos leitores, pelo menos os mais antigos, conhece bem estes versos, cantados por Dick Farney:


Foi neste bar pequenino
Onde encontrei meu amor
Noites e noites sozinho
vivo curtindo uma dor
Todas as juras sentidas
Que um coração já guardou
Hoje são coisas perdidas
Que o eco ouviu e calou
Você partiu e me deixou
Não sei viver sem teu olhar
O que sonhei só me lembrou
Nossos encontros no Nick Bar


A composição é de Garoto e José Vasconcelos. Na primeira gravação da música, Dick Farney é acompanhado ao piano por Radamés Gnattali, pelo violão e bandolim de Garoto, Pedro Vidal no contrabaixo e Trinca na bateria.
No início da década de 1950, a boemia paulistana  tinha seu ponto de encontro num bar localizado no Bixiga, no número 315 da Rua Major Diogo, ao lado do  Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC. Por isso mesmo, o bar era o refúgio informal de músicos, atores, escritores, artistas, socialites, jornalistas e boêmios.
E aí a gente chega ao Joe Kantor, que um dia batizou o local de Nick Bar. Era uma referência à montagem Nick Bar… álcool, brinquedos e ambições, título em português da peça  The Time of Your Life, do escritor e dramaturgo norte-americano William Saroyan, dirigida por Adolfo Celi, primeira encenação profissional do TBC.
O escritor Marcos Rey, num artigo intitulado “Bares da Saudade”, sintetiza a magia e o glamour que envolvia e atraía os freqüentadores do Nick Bar:

“(…) Era o reduto da sofisticada geração que se dizia existencialista, discutia Sartre e se recusava a apertar a mão dos adeptos da música caipira. Os artistas de sucesso e jovens intelectuais diziam presente todas as noites. Os cronistas sociais passavam por lá. Estar no Nick podia ser notícia. Com um pouco de sorte sentava-se na mesa ao lado de Tônia Carrero, Maria Della Costa e Cacilda Becker. Vizinhos da fama. O tom da geração, o estar na moda, ser up to date, era ali, no Nick, onde muita gente tomou uísque pela primeira vez, curtiu a dor-de-cotovelo inaugural e aprendeu que era feio dormir cedo. Devia ser tombado e seus fregueses transformados em figuras de um alegre museu de cera. (…)”
O bar de Joe Kantor se tornou lenda, ficou na memória dos que viveram aqueles tempos.
           

Joe, aliás Joseph Kantor, nasceu em dezembro de 1912, em Romankoutze, Ucrânia. Veio para o Brasil com dois anos de idade. Adulto, ele teve a curiosidade de procurar nas enciclopédias alguma informação maior sobre o seu shtetl. Inútil, não encontrou nada. Mas hoje a gente sabe, a cidade natal de Joe fica na Romênia, Romancutze,  ao lado da República da Moldávia.
Joe veio para o Brasil em 1914. Num depoimento à História Oral do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro ele conta: “O que mais me impressiona até hoje é que esse pessoal saía da Rússia, da Polônia, não falava uma palavra de outra língua, não tinha dinheiro, e ia para um outro país do outro lado do mundo! Eles não sabiam se tinha alguém pra recebê-los, se eles iam ser mortos, o que ia acontecer! Não sabiam se um selvagem ia comê-los ou qualquer coisa. E não é só o judeu! É o árabe, o italiano, que saiu do país de origem sem um tostão, sem conhecer a língua. Mas qualquer coisa era melhor do que de onde ele vinha.  Que a vida dele era tão ruim lá na Europa que qualquer mudança era um melhoramento de vida.”
Em 1923, os Kantor emigraram novamente, desta feita para os Estados Unidos.  No Bronx, ele estudou, fez o seu bar mitsvá. Em 1935, a família retornou ao Brasil, indo viver em Taubaté.
Mas o irrequieto Joe regressou aos Estados Unidos, alistou-se na Marinha norte-americana na Segunda Guerra Mundial e lutou no Atlântico Norte e no Pacífico. Voltou definitivamente ao Brasil em 1946. Entre outras atividades, foi produtor teatral e ator de cinema e teatro, e fundou o memorável Nick Bar.
Com Vicente Leporace,  Joe Kantor atuou num filme de Mazzaropi (que era de Taubaté) e interpretou o juiz no filme de Babenco O beijo da mulher aranha.

 

Henrique Veltman, carioca, 72 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador do Boletim ASA.

 

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