ICUF - Boletim ASA nº 114, set-out/2008


Um aporte valioso

Isac Gliksberg/ Especial para ASA

                   

AEm setembro de 2007 completaram-se 70 anos da criação, em Paris, do ICUF – Ídisher Cultur Farband, a Federação de Cultura Judaica. Em que contexto político e social se realizou esse Congresso? Por que em Paris e não em outra cidade? Quem promoveu essa iniciativa cultural tão interessante e importante? Por que em 1937, nem antes nem depois?

Nos anos de 1936 e 1937, a denominada Declaração Balfour havia dividido os judeus em esquerda e direita. Não se deve esquecer que, enquanto os sionistas proclamavam a necessidade de um Estado judeu na Palestina, na União Soviética já se estava realizando a experiência do Birobidjan, primeira República Socialista Soviética Autônoma Judaica. Na Europa,  se assistia a um manifesto crescimento do nazismo e do fascismo, com a ascensão de Hitler na Alemanha e de Mussolini na Itália. Na URSS, que havia atraído a simpatia de trabalhadores e intelectuais de todo o mundo pela criação de uma nova sociedade, realizavam-se os lamentáveis Processos de Moscou. Na Espanha, começava o trágico, e injustificável, insurreição militar do general Franco contra o governo popular legitimamente eleito pelo povo espanhol, com uma guerra civil que foi preâmbulo e cenário de ensaios para a maior tragédia bélica do século 20, a Segunda Guerra Mundial. O levante de Franco deixou como saldo uma ditadura que durou meio século. Na Polônia, com a ditadura de Pilsudski, aumentam os ataques e discriminações contra os cidadãos poloneses de origem judaica, a maioria dos quais vive em condições econômicas e sociais difíceis.

No movimento comunista internacional tem início, naqueles anos, uma discussão que desembocará nas famosas teses de Giorgi Dimitrov sobre a criação das Frentes Populares. No continente americano, os Estados Unidos vinham, desde os anos 1920, impondo cotas ao ingresso de imigrantes europeus em seu território. A medida prejudicava as possibilidades dos judeus europeus que procuravam  terras onde pudessem ter melhores condições de vida, e dos quais a maioria tinha o ideal de chegar precisamente aos EUA.

No Brasil, o fracasso do levante da Aliança Libertadora Nacional, em 1935, fortaleceu os elementos autoritários entre militares e civis. Luiz Carlos Prestes, um dos líderes do levante, comandante da famosa Coluna que levou seu nome, nos anos 1920, e que aderiu ao marxismo, foi preso por dez anos em condições de isolamento total. Em 1937, denunciando uma suposta conspiração comunista, Getúlio Vargas inaugura o Estado Novo, de natureza fascista, que só acabaria ao final da Segunda Guerra Mundial.

Diante de todos estes − e outros − fatos, em julho de 1936, reúnem-se em Paris escritores democráticos e progressistas do mundo inteiro no Primeiro Congresso dos Escritores Anti-Fascistas, sob o lema “Em defesa da cultura”. Inicialmente, o Congresso deveria realizar-se na cidade de Madri, mas dada a guerra civil que se estava vivendo lá, resolveu-se realizá-lo na vizinha capital francesa. Entre os escritores presentes encontravam-se alguns judeus, inclusive o já internacionalmente reconhecido escritor soviético Ília Ehrenburg.

Ehrenburg e outros escritores judeus, antes de terminar o Congresso, resolvem reunir em futuro próximo um encontro similar, mas exclusivamente com escritores judeus de todo o mundo e em defesa da cultura judaica, particularmente da cultura em língua ídish. O ídish, idioma oficial da República do Birobidjan, vinha sendo desconsiderado em vastos círculos judaicos dos EUA, do Canadá e, particularmente, da Europa.

Finalizado o Congresso de Paris e tendo os participantes retornado a seus respectivos países, começou a se gestar, a nível europeu e americano, um movimento com vistas à realização de um Encontro Mundial de escritores judeus democratas e progressistas, para o qual foram criados, em cada país,  Comitês Preparatórios.

Em Paris, uma Frente Cultural Judaico-Francesa passa a centralizar as atividades em prol da realização do Congresso, tarefa que é depois transferida para o Comitê de Nova York. Comitês similares foram criados na URSS, Polônia, França, Romênia, Bélgica, Canadá, EUA, Brasil, Argentina, Uruguai e  outras cidades americanas e européias.

A menção dos nomes que o integravam já dá uma idéia do nível do Comitê dos EUA. Seu presidente era o doutor Chaim Zhitlovki e o secretário, o conhecido escritor e crítico literário Kalmen Marmor. Figuravam também Moishe Olguin, jornalista e fundador do diário progressista em ídish Di Fraihait (posteriormente Morguen Fraihait, que foi publicado durante mais de meio século), o escritor Iosef Opatoshu, B.Z.Goldberg (genro de Sholem Aleichem), o escritor e dramaturgo Peretz Hirszbein, o escritor e jornalista Moishe Katz, o escritor Hersz Leivik, o intelectual doutor Mukdoni, o historiador Simon Dubnov, o escritor Sholem Niger e os já então famosos atores do teatro e cinema ídish Morris Schwartz e Jacob Ben Ami.

Na Polônia, o Comitê era integrado, entre outros, pelo escritor Zalmen Reizen, o jornalista e escritor Nachmen Maizl e o ator e diretor teatral Abraham Morevski.

Como nos demais países, também do Comitê de Buenos Aires fizeram parte reconhecidas figuras da cultura ídish da Argentina: o jornalista de programa radiofônico em ídish Sh. Glazerman, os jornalistas I. Botoshanski, L. Shitnicky e L. Groisman, o secretário geral da Casa de Cultura Mendele, de Buenos Aires, J. Goldszer, o redator do In Gang, doutor Sh. Drukarov, o poeta Shneier Waserman, o presidente do Tzwiszo (organização que reunia as escolas laicas universalistas), o doutor I. Kovenski, o professor de escolas judaicas ídish W.Kuper, o secretário da instituição teatral IFT, M. Lev, e Abraham Moskovicz.

O Comitê Preparatório de Paris começou a editar um boletim mensal que era distribuído em todos os países interessados, e na capital francesa foi feita a convocação para o Primeiro Congresso Mundial para a Defesa da Moderna Cultura Judaica Universalista. O Congresso se propunha, entre outras medidas, a “coordenar e estimular a atividade cultural judaica ameaçada pelos perigos da divisão nas diversas comunidades judaicas do mundo, analisar a situação e os objetivos da literatura em ídish, defender a cultura judaica em ídish ameaçada por inimigos internos e externos, além de abordar os principais problemas dos escritores em língua ídish sem editores para publicar suas criações literárias, discutir os problemas da escola e da educação judaica, da imprensa em língua ídish, do teatro em ídish e do teatro judaico em geral, da arte e da ciência judaica em geral”.

Durante o resto do ano de 1936 e a primeira metade de 1937, distribuíram-se em todo o mundo diversos materiais e anúncios para informar aos interessados os objetivos e detalhes do Encontro. Além do boletim mensal, publicavam-se permanentemente na imprensa judaica apelos e convocações de intelectuais em ídish de todos os cantos do planeta.

Em julho de 1936, o Uruguai havia escolhido para participar do Encontro Internacional o engenheiro Berl Halpern, mas, no mesmo ano, este ativista decidiu partir com sua família novamente para a Europa, a fim de se radicar em Birobidjan. Foi substituído por Moisés Niselkowski, mas, finalmente, por razões financeiras, quem representou o Uruguai e a Argentina − e creio que também o Brasil − foi o escritor residente na Argentina Pínie Katz, que contava com valiosos créditos culturais desde 1905.

Originalmente, o Brasil havia designado para participar como delegado o intelectual M. Kopelman. O autor deste artigo não conseguiu confirmar a participação de Kopelman.

Um programa experimental é enviado de Nova York para ser discutido a aprovado por todos os comitês espalhados pelo mundo. A sua redação final é a seguinte:

1˚) O idioma ídish desde a Conferência de Tchérnovitz; coordenação das diversas tentativas de unificar os termos da gramática ídish (3 conferências);
2˚) Situação e tendências do desenvolvimento da literatura em ídish (3 conferências);
3˚) A escola judaica em ídish, laica e universal em todo o mundo (3 conferências);
4˚) Os inimigos internos e externos da cultura judaica em língua ídish:

  1. perseguições,            b- desagregação,               c- assimilação (3 conferências)

Criam-se as seguintes comissões de trabalho, que deverão aprofundar o estudo de cada tema particular e emitir uma Declaração Final Universal, tendo como base pelo menos dez sub-temas, que, por razões de espaço, não detalharemos neste artigo:
- Comissão para estudar a situação atual e perspectivas da literatura e da imprensa judaica em ídish;
-Comissão para estudar a situação atual e perspectivas do teatro em ídish;
- Comissão para estudar o ensino, a educação e a escola judaica em ídish;
- Comissão para estudar a criação e o funcionamento de bibliotecas com livros e material em ídish;
- Comissão para o tema Ciência;
- Comissão para estudar a situação atual e perspectivas da pintura e demais artes visuais;
- Comissão para estudar a situação atual e perspectivas da música e dos movimentos corais em ídish;
- Comissão para os problemas de caráter organizacional

Ao se aproximar  a data do evento internacional, na primavera européia de 1937,  uma declaração de objetivos  ressalta que o evento deverá “preocupar-se em ampliar, aprofundar, enriquecer a cultura judaica e progressista, e estimular seu crescimento com justiça social e liberdade”.

Finalmente, o Primeiro Congresso Mundial para a Defesa da Moderna Cultura Judaica Universalista teve lugar em Paris, de 17 a 22 de setembro de 1937.

Nesse Congresso criou-se o Ídisher Cultur Farband-ICUF, a Federação de Cultura Judaica, e, a partir de então, somos todos, 70 anos depois, testemunhas de seu rico e valioso aporte para a cultura, a democracia e a liberdade do povo judeu na Diáspora e no Estado de Israel até os nossos dias.

 

Isac Gliksberg, engenheiro,é diretor de Imprensa e Difusão do Laboratório Tecnológico do Uruguai e escreve para diversas publicações.

 

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