| Dona Bertha - Boletim ASA nº 114, set-out/2008 |
Bertha Vitis Feferman / Especial para ASA
As recordações se acotovelam na mente, provocando idas e vindas dos assuntos. Volto ao princípio, com um episódio marcante para mim. Fui uma criança saudável, mamando até os 3 anos de idade com o complemento da ajuda de amas de leite (como era o hábito). Uma destas, contratada num sítio onde passava umas temporadas, era uma camponesa sadia e forte, muito dada a aventuras de amores. Num dia em que ela provocava um camponês que acabara de colher o leite numa grosseira vasilha, ele, furioso, mandou-lhe esse vasilhame. No colo da mulher, eu também recebi o impacto, na cabeça... Foi brutal! Tive de ser levada a um hospital de cidade próxima. A minha recuperação foi boa, o prognóstico, nem tanto: eu poderia ficar surda ou estrábica!!! Venceu esta última hipótese anos mais tarde. Além de me tornar alvo de chacotas das crianças com quem brincávamos, produziu grande desgosto na família e, em mim, grande complexo de inferioridade que se prolongou até a maior parte de minha mocidade(eu, que já me achava muito feia junto às irmãs). Felizmente, tive a assistência dos melhores oftalmologistas da época no Rio e na Argentina, e o problema foi resolvido mesmo sem operação especial, apenas com o acompanhamento dos graus de visão, permitindo-me trabalhar e estudar sem dificuldades! E o melhor: até consegui ser amada e casar com aquele que foi meu único marido, o saudoso Nathan! No Rio, papai havia alugado uma boa casa, na Rua Benedito Hipólito, Praça Onze, que se tornara um reduto de judeus, especialmente imigrantes recentes. Na Praça Onze, fomos matriculadas pela primeira vez numa escola primária (a Benjamin Constant), o que triplicou o trabalho de mamãe, que caprichava, lavando e engomando, para tornar impecáveis os uniformes de suas meninas! Em casa, tinha o trabalho redobrado, pois fornecia almoço (pago) aos quatro hóspedes, “inquilinos” dos quatro cantos do grande salão. Lá, funcionavam sob os nomes de Casa Progresso, Casa Rumania, Casa Odessa etc., impressos nos cartões de débito dos fregueses. Assim, iam juntando recursos para trazer suas famílias dos países de origem. O trabalho de papai segue progressivo, ajudado por um amigo de Beltz, o senhor Alberto Ribinik, que já estava bem estabelecido. Mas um revés acabou com a “alegria”... Papai foi então chamado para Vitória, capital do pequeno Estado do Espírito Santo, pelo primo dele, o Soel, cujos negócios com borracha no Amazonas haviam fracassado, fazendo-o ir para Vitória. Lá, estava sendo bem sucedido como “ambulante”. Este é o capítulo da nossa maior estabilidade na América do Sul: oito anos seguidos. No Rio, antes de viajarmos para Vitória, tinha nascido na Maternidade das Laranjeiras a menina Cecília, registrada Zília. Mamãe, muito cansada, precisou de cuidados especiais; eu fiquei em casa para ajudar e só depois dos 10 anos de idade pude voltar à escola primária, ficando apta a continuar o secundário no ginásio do Espírito Santo. Em Vitória tivemos todas as experiências que afetam a vida humana. Nasceu Luisinha, nossa caçula (quando eu já tinha 14 anos − uma mocinha −, e ficava meio constrangida perante as amigas, ao verem mamãe de barriga), que nos deu grandes alegrias. De outro lado, perdemos Terezinha, de forma prematura e trágica! Morávamos no centro da cidade, mas nas férias viajávamos, de bonde, para os banhos de mar na Praia Comprida: era o final da linha e, quando chegamos e nos preparávamos para atravessar para o lado oposto, onde existiam as barracas para mudança de roupa, o veículo, em manobras de retorno, colheu em cheio a menina! Foi um grande abalo na cidade e a compreensível desgraça para nós, da família: só o tempo resolveria a mágoa! 1922, Centenário da Independência do Brasil! Grandes comemorações, principalmente no Rio de Janeiro! Eu gostaria de ter ido, não foi possível... O ginásio do Espírito Santo se destinava só a meninos. Papai, que não desistira do plano de me tornar médica, entrou em contato com o reitor do ginásio, o padre Elias Thomazi, e ele me aceitou entre os rapazes, “caso eu não objetasse”. Fiquei sendo, então, a única menina figurando no quadro da formatura entre os homens. Seguindo meu exemplo, nos anos posteriores, várias meninas entraram no ginásio, a começar pela minha irmã Célia. No centro do quadro vê-se o doutor Aristeu Aguiar, diretor do ginásio, homenageado, assim como os outros dois funcionários. Quando precisei procurar informações sobre a faculdade, por impossibilidade de mudança dos pais aceitamos, eu e Célia, a companhia de uma senhora amiga, dona Rosinha, que pretendia vir ao Rio de Janeiro abrir uma pensão. Ela era companheira de uma pessoa muito amiga, não judia, o senhor Pereira, competente guarda-livros, muito culto, bondoso e de confiança. Com o consentimento dos pais, viajamos ao Rio em novembro daquele ano, ficando na pensão com mesada modesta. Verifiquei que deveria esquecer o sonho da Medicina. Era demasiado dispendioso para as posses de nosso pai e eu não poderia, ao mesmo tempo, estudar e trabalhar. O trabalho feminino já estava sendo requisitado em datilografia, estenografia, balcão etc. Uma associação feminina se encarregava de conseguir os empregos. Célia e eu fomos logo contratadas. Célia, para datilografia num Departamento de Saúde Pública que estava fundando uma Escola de Enfermagem com a direção de escolas americanas (hoje Ana Néri); eu, também como datilógrafa e serviços especiais, nos escritórios da conhecida Mesbla (antes Mestre Beatgê ). Meu trabalho se destacou, pois eu fora muito boa aluna e com meu português correto tornara-me revisora na sala das datilógrafas, corrigindo muitos textos a serem copiados. Fiquei com salário mais elevado que as demais e o chefe da seção, senhor Sabá, apreciava-me muito. Entretanto, mandei buscar o resto da família e, para poder ajudá-la, aceitei oferta mais vantajosa. Era da conhecida Casa Hermany, da Rua Gonçalves Dias, onde permaneci 17 anos. Eu realizava os contatos com os profissionais eminentes do Brasil e, por correspondência, com vários da Argentina, Uruguai e Estados Unidos. Fui associada à Associação Brasileira de Imprensa e convidada para trabalhar nos Estados Unidos, mas permaneci na revista até sua extinção. Pouco tempo depois, a Casa Hermanny também encerrava suas atividades. Além disso, eu já estava também engajada em trabalho sócio-assistencial, após o término da Segunda Guerra, quando os nazi-fascistas geraram muita desgraça, especialmente ao povo judeu. Voltando no tempo, devo lembrar a chegada ao Brasil, em 1929, de minha irmã Eva e do seu marido, o simpático e culto Benjamin (Beni) Snaider, com quem se casara em Falesti (Rússia). Só depois do casamento Eva obteve permissão das tias para vir integrar-se à família. Morávamos na Tijuca (Rua Pinto de Figueiredo, junto à Praça Saenz Pena), num amplo segundo andar, onde Eva e Beni vieram viver conosco. Fluente em ídish, Beni obteve emprego na BIBSA (Biblioteca Israelita Scholem Aleichem), salário modesto, para ajudar a família. Após algum tempo freqüentando os eventos numerosos, conferências etc., Beni, que já era contabilista, conseguiu melhor emprego, numa firma inglesa de consultoria, a conhecida Delloite, Plender, Griffit and Co. Isso permitiu ao casal ir morar sozinho após melhoras no estado de saúde de Eva, que tinha dores de coluna em conseqüência de quedas sofridas na terra natal, a Bessarábia. Beni, além de outros predicados, era notável enxadrista, autor de problemas, e se correspondia com igualmente notáveis colegas na especialidade, de várias cidades e países. Na Europa, desenvolviam-se os movimentos socialistas, após o de 1917, na Rússia. No Brasil, houve movimentação político-social no Nordeste, que atingiu o Rio de Janeiro, com participação de elementos sociais e adesão de algumas entidades militares, o que não agradou às oposições. Bertha Vitis Feferman
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