| Polônia - Boletim ASA nº 114, set-out/2008 |
O Paradisus Judaeorum Heliete Vaitsman / Especial para ASA
A insistência com que a Polônia vem fazendo o “dever de memória” para reparar o trauma da aniquilação de sua população judaica durante a Segunda Guerra é cada vez mais notável. Embora os judeus ainda não acorram em massa ao país, onde o anti-semitismo transcendeu ideologias (tradicionalmente ligado à direita ultra-nacionalista, mas igualmente vigoroso sob o regime comunista), a cultura judaica floresce – ou refloresce, já que durante séculos a Polônia foi um centro irradiador de judaísmo. Sinagogas são restauradas, um festival de música e dança atrai milhares de pessoas a Cracóvia a cada verão, restaurantes “judeus” apresentam música klézmer, duas escolas judaicas estão funcionando. Os gestos simbólicos, que correspondem às mudanças de uma sociedade que precisa se integrar à economia européia e adotar representações típicas das democracias ocidentais, têm efeitos práticos. Há pouco ocorreu a primeira ordenação de rabinos desde a guerra, numa cerimônia presidida pelo rabino-chefe do país, o americano Michael Schudrich. Outro gesto de abertura foi o anúncio, pelo presidente polonês Lech Kaczynski, católico e ex-prefeito de Varsóvia, de que levará a cabo a construção do Museu Judaico da cidade. Kaczynski fez o anúncio em abril, durante a comemoração dos 65 anos do Levante do Gueto de Varsóvia, com a presença do israelense Shimon Peres, e coroando um discurso convencional em que defendeu a necessidade de eterna vigilância para evitar a repetição de tragédias genocidas. O Museu, cuja pedra fundamental já foi lançada, tem apoio de outros países e está planejado para se tornar um marco cultural e turístico, do mesmo porte, de acordo com seus organizadores, do Museu Judaico de Berlim e do Museu do Holocausto em Washington. Mas não terá o Holocausto como foco. Será educacional e multimídia: através de vídeos e instalações, o público verá um teto pintado de uma sinagoga de madeira do século 18 quase do seu tamanho original, “entrará” numa rua judaica da década de 1920 e “lerá” uma das centenas de periódicos em ídish publicados no país entre as duas guerras, época em que dezenas de grupos dos mais variados matizes ideológicos tiveram liberdade de se manifestar. O Museu “viajará” pela história do judaísmo na Polônia, iniciada com a chegada de um comerciante sefaradi no século 10, e terá uma seção chamada de Paradisus Judaeorum, em referência ao acolhimento que os judeus ali encontraram nos séculos 16 e 17, após a expulsão de outros países. Em discussões pela Internet, os poloneses lembram que tiveram um total de seis milhões de mortos na guerra, e nesse número se incluem os três milhões de judeus mortos em guetos e campos de concentração entre 1939 e 1945. Antes da guerra, porém, os judeus viveram séculos de paz no país. Quer em cidadezinhas exclusivamente suas, os shtetls, onde mantinham um estilo de vida próprio, praticamente sem interferência de fora, quer mesclados à população das cidades grandes, usufruíram uma grande autonomia em questões de sistema judiciário, negócios e prática religiosa. Eram 3 milhões e 500 mil antes de 1939 (a maior população judaica da Europa), hoje são cerca de dez mil auto-declarados entre 39 milhões de habitantes. Quantos mais há, não declarados? É impossível saber, conforme a maioria das fontes. Segundo Andrzej Zozula, presidente de uma instituição guarda-chuva, a União das Comunidades Judaicas de Varsóvia, com 500 associados, muitos judeus estão “redescobrindo” suas origens. Mas milhares de outros rejeitam qualquer menção ao tema. Ainda não é cômodo ser judeu na Polônia, tanto assim que milhares de pessoas que esconderam judeus durante a guerra continuam anônimas. Um padre citado num artigo do jornal Le Monde, Jakoub Jankele-Waksinel, contou à repórter ter sentido, ao descobrir que tinha ascendência judaica, como “se tivesse caído de avião sobre uma terra desconhecida”. Muita gente, porém, faz questão de remexer o passado. É o caso do católico Thomas Pietrasiewicz, 50 anos, que criou numa sala o pequeno Museu da Porta Bradska, em Lublin (o nome é uma referência ao arco medieval pelo qual se entrava no bairro judeu da cidade, com 43 mil habitantes antes da guerra). Pietrasiewicz tomou conhecimento do Holocausto na adolescência, quando uma professora de História relatou à sua turma ter testemunhado a execução de um grupo de judeus. O fato não constava dos livros escolares. Assim, anos depois nenhum colega se lembrava do relato que impactara Thomas; os pais dele diziam não recordar as multidões que haviam passado por sua porta, rumando para os campos de concentração de Sobibor, Belzec e Majdanek, nos arredores de Lublin. Como alguém apaga isso da memória? Como parte de uma população desaparece sem deixar rastros? Fazendo-se essas perguntas, ele decidiu resgatar a presença judaica de Lublin. Esse resgate, alega, recupera parte da cultura que também é polonesa.
Heliete Vaitsman, é jornalista e colaboradora do Boletim. |
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