| Comunidades - Boletim ASA nº 114, set-out/2008 |
Andrea Telo da Corte/ Especial para ASA
A coletividade judaica de Niterói se estruturou nas primeiras décadas do século 20. Embora tenha sido possível mapear 296 indivíduos vinculados às atividades comerciais, apenas 7,7% desse total eram mulheres. Portanto, a primeira geração de imigrantes judias em Niterói esteve quase sempre do lado de dentro de suas casas. Os esforços em benefício das vítimas da guerra, a partir de 1945, alteraram esse quadro, e entre 1945 e 1980 diversas organizações dirigidas por mulheres se desenvolveram na cidade. A história da Associação Feminina Israelita Brasileira - AFIB, seção Niterói, confunde-se com a atuação das senhoras ligadas à Biblioteca David Frischman. A Biblioteca, conforme relato de Sara Rabinovici, uma das remanescentes da AFIB-Niterói, era um reduto predominantemente masculino. Aos poucos, as mulheres perceberam a necessidade de criar um espaço próprio para ler e discutir os temas da cultura ídish. Coube a Zilda Graber a iniciativa de formar um grupo, que teve em sua casa, no centro de Niterói, o porto seguro. Entre 1945 e 1947, semanalmente, participaram dos comitês para auxílio às vítimas da guerra e das atividades sociais da Biblioteca. Em 1947, antenadas com o que estava ocorrendo do outro lado da Baía de Guanabara, dona Zilda entrou em contato com o comitê central do Rio de Janeiro, já liderado por Ienta Lerner. Inaugurada em 19 de novembro de 1947, a Associação de Senhoras Israelitas Vita-Kempner tinha o objetivo de auxiliar os órfãos judeus vítimas da guerra. Zilda Graber integrou a primeira diretoria, na qualidade de fiscal. Em 3 de janeiro de 1948, foi organizada uma seção em Niterói. Do grupo liderado por Zilda Graber tomaram parte: Rosinha Teteibaum, Regina Landman, Ana Schwartzman, Sara Rabinovici, Zilda Micmacher, Sofia Rubens, Ruske kawa, Dina Mocny, Aída Wrobel, Judith Zoninsein, Fany Wrobel, Luba Lan, Paulina Wrobel, Miriam Waksman, Tzipa Vaisburd, Rebeca Gueller, Leia Katz, Cecília Chachamovitz, Rosinha Nalberger e Paulina Malbergier, quase todas imigrantes. Os relatórios anuais de que dispomos graças ao Arquivo Luiz Goldberg demonstram que, no mesmo ano de fundação, a seção Niterói realizou diversas campanhas, como a da Haganá e a do Comitê de Emergência para Israel, cooperou com instituições locais e auxiliou nos trabalhos cotidianos da Biblioteca. Em 1950, representada por Zilda Graber e Aída Wrobel, associou-se ao ICUF e participou do congresso nacional da Vita Kempner, onde apresentou proposta para fundação de clubes infantis. Em 1949 e 1950, as progressistas de Niterói angariaram recursos para a realização das primeiras colônias de férias, em Águas de Lindóia e Guararema. Paralelo às atividades da AFIB-Niterói, desenvolveu-se em 1948 o Lein Kraiz M. M. Sforim, círculo de leitura feminino destinado a promover a literatura ídish, bem como a informar e atualizar as mulheres em debates sobre política e identidade judaica. Em 1953, Judith Zoninsein introduziu no círculo a literatura brasileira, atraindo as jovens senhoras nascidas no Brasil que desconheciam o ídish. Em conjunto com a AFIB, o Lein Kraiz realizou inúmeros eventos, como as comemorações do livro judaico, debates políticos e conferências, sempre, “regados” a teatro ídish. Na década de 1960, a segunda geração ascendeu à direção da Biblioteca David Frischman, cuja sede foi transferida da região central para o bairro de Icaraí. Restam pouquíssimas informações da atuação dessas mulheres. Uma das fontes para análise são as atas da Biblioteca David Frischman / Associação David Frischman. De 5/12/1960 a 3/5/1995, as diretorias da BDF/ADAF foram ocupadas por homens. As atas desse período registram apenas 21 referências “substantivas” à participação das mulheres, sem qualquer destaque para suas opiniões ou para seu trabalho social. As menções se resumem a parabenizar o setor feminino pela forma como preparou os “comes e bebes”. Em 22 de outubro de 1966, data em que a Associação David Frischman de Cultura e Recreação foi fundada em substituição à Biblioteca, e foram votados os novos estatutos da associação, nenhuma mulher assinou a ata. Os quarenta signatários eram homens! E apenas estes eram considerados sócios. Às mulheres dos associados eram garantidas, no máximo, a isenção da contribuição mensal no período de um ano após o falecimento do marido e a participação nos órgãos sociais! Excluídas do exercício do poder, estavam reduzidas ao papel de cozinheiras! Em suma, as progressistas de Niterói, em que pesem a desigualdade de poder e a alternância das idéias de complementaridade e subordinação, demarcaram um espaço próprio, indelével, legando às suas filhas novas possibilidades de atuação, e fundamentalmente, condições de questionar as desigualdades de direitos que não conseguiram discutir. Sobretudo, saíram de casa e fizeram ecoar suas vozes!
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