Beco da mãe -Boletim ASA nº 114, set-our/2008

Flanando pela Dizengoff

Henrique Veltman / Especial para ASA

                
É claro que vocês conhecem a rehov Dizengoff, em Tel Aviv. Lehizdanguef é flanar pelos três quilômetros dessa rua, ouso dizer, mística. Claro, é uma rua comercial, há lojas de todos os tipos para todos os gostos e para todos os bolsos. Há restaurantes, bares e até alguma coisa parecida com os nossos botecos.

Mas, nas noites de sexta-feira, iniciado o shabat, a Dizengoff adquire um cenário mágico. Foi num shabat desses, há mais de trinta anos, que se deu o causo seguinte: quase todos os correspondentes da imprensa brasileira em Israel estavam presentes, num bar interessante daquela rua: Moisés Rabinovici, hoje editor do ótimo Diário do Comércio − sugiro aos cariocas entrar no site e comprovar, o DC é provavelmente o melhor jornal de São Paulo −, Mario Chimanovitch, Alessandro Porro, Eliezer Strauch, Isaac Akcelrud (ficou faltando nessa mesa histórica o decano Nahum Sirotsky).  Eu estava lá na qualidade de intruso. Em dado instante, começou uma acirrada discussão sobre Kafka e sua condição judaica. Eu diria até que houve ameaças de mútua agressão entre os jornalistas...

Lá pelas tantas, o dono (ou gerente) do bar se aproximou de nossa mesa e informou: “Gente, se vocês querem discutir a condição judaica de Kafka, o lugar certo é aquele bar ali, do outro lado da rua. O garçom de cabelos vermelhos é a nossa maior autoridade em Kafka.”

Poucas vezes na minha vida fui convidado a sair de um local público de forma tão convincente. Saímos todos, atravessamos a rua, entramos no tal bar e encontramos uma mesa redonda ótima. O garçom de cabelos ruivos veio nos atender, anotou os pedidos e, inquirido pelo Isaac sobre Kafka, pediu licença, tirou o avental, sentou à nossa mesa e, realmente, o cara sabia tudo sobre Franz Kafka. Foi uma senhora aula, num shabat mágico, na mística Dizengoff.

Ah, e não pagamos a conta.

 

Kibutz antroposófico

É o seguinte: em 1987 inaugurou-se no Museu da Diáspora da Universidade de Tel Aviv a exposição sobre os hebraicos da Amazônia. Sergio Zalis e eu lá estávamos, ele incomodado com paletó e gravata, eu muito à vontade, de calça jeans & camiseta. Ouvimos entendiados o speech do Marcos Wasserman, que não sabia nada sobre a exposição, sobre os hebraicos e sobre nós. E disse um monte de bobagens para a boa platéia presente. Coisas de Israel.

Pra nós, a exposição foi um sucesso e uma emoção várias vezes renovada. Demos entrevistas à rádio e à TV, fomos reconhecidos nas ruas e nos locais públicos. Os jornais dedicaram bom espaço à exposição e ao tema. Foi muito bom.

Estávamos entre o Rosh Hashaná e o Iom Kipur. Eu encarei naqueles sagrados dias um santo banho de mar na praia de Tel Aviv e tive uma experiência incrível numa sinagoga de rito misto, isto é, um shil de búlgaros sefaradis, mizrahis e ashquenazis, tudo junto. O hazan era um sósia perfeito do meu querido e saudoso irmão Moysés, e eu fiquei o tempo todo do serviço olhando para o búlgaro. No fim, ele me procurou, conseguimos nos entender numa mistura de hebraico, francês e ladino, e por ele fui convidado a participar dos comes-e-bebes no salão da sinagoga. Foi ótimo.

Enquanto eu curtia Tel Aviv, o Sergio se mandou pra visitar amigos (e amigas) num kibutz antroposófico, no norte de Israel. Quando nos reencontramos, ele me contou das surpresas do kibutz. Da ausência de energia elétrica, do mobiliário de madeira (nada de plásticos!), da comida orgânica e pra lá de kasher, da beleza das crianças.

Resolvi conferir in loco. Na semana seguinte, sem lenço nem documento, sem convite e sem conhecer ninguém, me mandei pro kibutz Hassolelim e conferi a antroposofia israeli. Foi muito interessante. A antroposofia, pra quem não sabe, é uma ciência (?) espiritualista criada por Rudolf Steiner, no século passado, que se propõe a reunir os pensamentos científico, artístico e espiritual e, dessa forma, responder algumas das questões mais profundas do homem moderno sobre si mesmo e sobre suas relações com o Universo. A pedagogia criada por Steiner é também conhecida como pedagogia Waldorf.

O que vi e ouvi no kibutz foi que a antroposofia difere da teosofia em seu foco prático, sua ênfase está no desenvolvimento de impulsos artísticos, em ter como base teórica o esoterismo ocidental. A antroposofia tem uma visão positiva de Jesus, apesar de que é bastante diferente da visão cristã comum. Segundo os haverim do kibutz, perfeitamente aceitável para aquela comunidade judaica.

O objetivo do antropósofo é tornar-se “mais humano, ao aumentar sua consciência e deliberar sobre seus pensamentos e ações”. Pode-se atingir altos níveis de consciência pela meditação e observação dos fenômenos da natureza e do próprio processo cognitivo. Steiner descreveu e desenvolveu numerosos exercícios para a obtenção da capacidade de experienciar o mundo supra-sensível.

Vertentes práticas da antroposofia incluem: a arquitetura (Goetheanum), a agricultura biodinâmica, a educação infantil e juvenil (pedagogia Waldorf), a farmácia homeopática (Wala, Weleda, Sirimim), a filosofia (A “Filosofia da Liberdade”), a euritmia (“o movimento como verbo visível e som visível”), e os centros para ajuda de crianças especiais (Vilas Camphill).

A antroposofia  possui adversários. Os críticos a designaram como um culto, algo parecido com os movimentos da Nova Era. De toda forma, seria um culto que fortemente enfatiza a liberdade individual.

Steiner freqüentemente estimulou seus estudantes a testarem tudo o que ele dizia, e em muitas ocasiões, até mesmo implorou a eles que não tomassem nada do que dissesse com base na fé ou autoridade.

Detalhe: o kibutz antroposófico nasceu sob a protéctsia e inspiração do Abraham Burg, ex- presidente da Organização Sionista Mundial e da Agência Judaica,  ex-deputado na Knesset, e hoje  um dos maiores críticos do sionismo e do establishment israelense. Durma-se com um barulho destes.

 

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.

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