| Irã - Boletim ASA nº 113, jul-ago/2008 |
Enquanto cobria a visita de uma delegação alemã a Israel, na semana que antecedeu Purim, sentei-me ao lado de um jornalista europeu que teve recentemente a oportunidade de se encontrar com membros da comunidade judaica no Irã. Sob o compromisso de não ser identificado, resumiu a sua visão assim: “Eles estão bem. [...] Fiquei surpreso de constatar como os judeus em Teerã se expressavam livremente em minha presença. Assumem sem medo uma posição crítica em relação a Ahmadinejad e ao que ele diz contra os judeus.” Um dos líderes mencionou que a comunidade enviara uma carta oficial ao presidente, protestando por suas declarações sobre o Holocausto e o genocídio contra o povo judeu. Não tiveram uma resposta por escrito, mas um enviado presidencial lhes explicou que as afirmações de Ahmadinejad haviam sido mal entendidas: não visavam os judeus, apenas o Estado de Israel e os sionistas. Afirmou que o presidente prezava os judeus e iria procurar diretamente a comunidade para esclarecer sua posição. No dia das recentes eleições, uma urna colocada pelos iranianos no interior da sinagoga de Yousefabad, em Teerã, serviu não apenas aos judeus, mas a todos os moradores da vizinhança. O comitê eleitoral era de judeus com quipot. A grande maioria dos judeus religiosos foi deixando o país após a ascensão do regime fundamentalista, em 1979. Os que permaneceram se definem, em sua maioria, como tradicionalistas. Das três lojas kosher que alimentavam a comunidade de Teerã até alguns anos atrás, resta apenas uma. Os judeus do Irã, ainda que neguem qualquer conexão com o sionismo, Israel ou os israelenses, recusaram-se a fazer contato com a delegação dos Neturei Karta que foi prestigiar o presidente Ahmadinejad em sua conferência de negação do Holocausto. O regime iraniano, disse ele, está ciente de que a comunidade é orgulhosa dos seus 3 mil anos de tradição de cooperação com as autoridades locais. A viagem do jornalista ao Irã ocorreu poucos dias depois de uma operação israelense em Gaza na qual morreram mais de cem palestinos. Representantes da comunidade judaica protestaram na imprensa iraniana contra “o massacre pelos sionistas de cidadãos palestinos pacíficos e amantes da paz”. Morris (Moshe) Motamed, o deputado judeu no Parlamento, foi o primeiro a assinar a proclamação anti-Israel, seguido por uma lista de clérigos e outros representantes das minorias iranianas. “Não sei se esta é a sua verdadeira opinião ou se, simplesmente, eles se sentem forçados a publicar esse tipo de manifesto como parte do seu ‘reembolso’ às autoridades iranianas”, disse o jornalista. Há uma pessoa, Aharon Yishai, presidente da comunidade judaica iraniana, que, em entrevistas ocasionais à mídia, diz o que pensa, mesmo que contrarie o regime. Apesar da pressão a que estão expostos, os judeus de Teerã ainda gozam de um limitado grau de liberdade de expressão. Até o estabelecimento do Estado de Israel, mais de 100 mil judeus viviam no Irã. Para recuperar pelo menos parte dos bens deixados para trás, estaria havendo um movimento de retorno, sobretudo de gente de posses. Afirmou o jornalista que há de 20 mil a 25 mil judeus no Irã, embora lhe tenham dito que não passassem dos 16 mil. A maior parte vive em Teerã e mantém uma conexão débil com as instituições comunitárias. Algumas centenas comparecem a uma das três principais sinagogas de Teerã, sobretudo no Shabat e nas grandes festas. “Muitos expressaram sua preocupação com o número crescente de casamentos mistos e de jovens que se convertem ao Islã”, e culparam a pressão do governo sobre as poucas escolas judaicas remanescentes para que removam o conteúdo judaico do currículo, transformando-as, na prática, em escolas do Estado. Nem Torá nem qualquer estudo judaico é ensinado, e os diretores e professores são todos muçulmanos. Todo o corpo médico e os pacientes do hospital da comunidade judaica são muçulmanos. A comida não é kosher. Diversos médicos judeus bem conhecidos na capital têm suas razões para preferirem não trabalhar no hospital “judaico”. Segundo o jornalista, os poucos judeus que querem sair do Irã sabem que não vão encontrar grandes obstáculos, mas dificilmente serão capazes de liquidar os seus bens pelo valor real. Majoritariamente composta de profissionais liberais e homens de negócios, a comunidade − como todos que não são muçulmanos xiitas − enfrenta discriminação e dificuldades em arranjar empregos em postos oficiais. O jornalista constatou anti-semitismo generalizado entre os iranianos. Apegando-se à sua ideologia fundamentalista, Ahmadinejad ficaria feliz de ser lembrado pela posteridade por ter golpeado Israel. Seria equivocado, portanto, supor que o presidente esteja simplesmente blefando. O jornalista afirmou ter ouvido no Irã sobre um plano de uso de minorias, especificamente dos judeus, dentro das instalações nucleares, como escudos humanos contra um possível ataque, seja dos Estados Unidos, seja de Israel.
Publicado em 26.3.2008, na edição americana do semanário ultraortodoxo Hamodia. Tradução de Renato Mayer.
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