| Polêmica - Mein Kampf - Boletim ASA nº 113, jul-ago/2008 |
Fanny Tabak/ Especial para ASA
Aproxima-se do fim a primeira década do século 21 e seria útil refletir sobre as expectativas geradas pela chegada de um novo milênio e a realidade vivida pelos povos no momento atual. Essa realidade revela que ainda hoje milhares de seres humanos são vítimas de guerras, de invasões estrangeiras, de opressão e intolerância. A esperança de ver chegarem a um fim pacífico conflitos que se estenderam por décadas não se confirmou . Ao contrário, o recurso à invasão e ocupação de territórios estrangeiros, por meio de instrumentos de destruição em massa, durante anos, o não reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação, a utilização de meios ilegítimos para justificar invasões e guerras e o descrédito a que têm sido submetidas as organizações internacionais criadas justamente para assegurar a Paz e o exercício da democracia não são mais do que alguns exemplos dos problemas que o mundo enfrenta neste milênio iniciado há tão pouco. Será que o mundo já esqueceu os horrores que marcaram o século 20, em tantos países, e que significaram a morte de milhões de seres humanos? Será que foram esquecidos o Holocausto – cuja existência alguns ainda insistem em negar − e os sucessivos genocídios , que muitas vezes permanecem ocultos e que se repetem ,diante da indiferença de governos que se consideram democráticos? Por tudo isso, é difícil dar apoio à idéia de que é preciso sonegar a informação, ou dificultar a circulação, de elementos capazes de esclarecer melhor as teorias e os conceitos e preconceitos que serviram de fundamento para as ações que resultaram naqueles horrores . Uma proposta foi feita pelo secretário geral do Conselho Central dos Judeus da Alemanha, Stephan Kramer, de suspender a proibição que impede que o livro de Adolph Hitler Mein Kampf seja publicado e se torne acessível ao público. A proibição está em vigor não apenas na Alemanha, mas também no Brasil. Essa proposta abrange a inclusão de um amplo prefácio explicativo do contexto no qual foram veiculadas as idéias que provocaram o horror nazista, o extermínio de milhões de seres humanos e a subjugação de territórios e povos . No momento histórico que vivemos hoje, em que uma reflexão mais profunda sobre valores éticos se torna indispensável, seria razoável impedir que as novas gerações e os interessados em aprofundar seus conhecimentos sobre a lógica dos fatos que nos cercam fossem privados do direito de conhecer uma obra que afetou de maneira tão dramática o curso da História no século 20? Parece que não. Então, por que algumas pessoas se posicionam contra a publicação dessa obra? Uma possível alegação é que ela poderia talvez incentivar movimentos de caráter neo- nazista e manifestações de anti-semitismo, que têm surgido em vários países.Ou então, contribuiria para fazer ressurgir idéias, teorias e conceitos já desmascarados há décadas como incorretos, como tem demonstrado o extraordinário avanço da Ciência . É de importância vital conhecer os fundamentos (falsos) de teorias que levaram a grandes catástrofes. E como já demonstrou a experiência histórica , o cerceamento da liberdade de expressão e da busca de informação sempre trouxe resultados desastrosos. Fanny Tabak é socióloga, pesquisadora, autora de livros sobre Participação Política, Sociologia do Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia, Relações de gênero, Democracia e Autoritarismo.
Pela liberdade, contra o crime. Francisco Moreno Carvalho/ Especial para ASA
Proibir livros é um ato que deve ser repudiado. Qualquer que seja o conteúdo dos mesmos, o uso que deles seja feito, as conseqüências de sua divulgação, nada deve nos afastar deste ideal maior, pilar de qualquer sociedade democrática. Incitar o ódio e o racismo é crime. Deve-se coibir a propagação de idéias que advoguem a supremacia racial, que atentem contra a paz social e que propaguem a perseguição contra qualquer grupo humano. Diante destes dois princípios norteadores nos defrontamos com a questão: o que fazer com o livro Mein Kampf, de Adolf Hitler? Coibir sua reimpressão e divulgação? Pedir que seja feita só com comentários alertando sobre seus malefícios? Deixar que o princípio absoluto da liberdade de expressão impere e o livro circule livremente? O lugar do Mein Kampf como livro teórico é problemático. Escrito quando seu autor se encontrava na prisão, mistura autobiografia com análises geopolíticas e teorias racistas que não eram novidade no contexto da época. Sua tese de “luta de raças” pela supremacia mundial já existia em textos racistas que o antecederam. A idéia da superioridade de determinada “raça”, no caso a dita “ariana”, já vinha do século 19. A defesa do pangermanismo e da supremacia alemã era partilhada por diversos outros grupos políticos. Não se encontra no texto nenhuma referência explícita à política de extermínio de judeus, ciganos e outras minorias. Nenhum plano detalhado sobre campos de concentração e extermínio. Longe de ser um texto teórico, com argumentos consistentes e um programa político fundamentado, o livro é enfadonho e mal escrito, sem qualquer inovação ou idéia original. Quando transformado em leitura obrigatória entre os alemães, após a ascensão dos nazistas ao poder, era motivo de piada entre alemães descontentes com o regime que viam nesta obrigatoriedade em si um castigo redobrado: não apenas viver sob o nazismo, mas ter que agüentar a leitura das “mal traçadas linhas” do líder máximo. Não obstante, não se pode deixar o livro no plano da piada de mau gosto ou como sub- produto do rufianismo de seu autor. Mesmo que não seja um texto de nível intelectual, sua existência serviu como catalisador para a monstruosidade que se figurou no nazismo − movimento que, embora tenha contado com simpatia e apoio de intelectuais, como Martin Heidegger, primou exatamente pelo desprezo à reflexão intelectual, substituindo-a pelo uso da força bruta e por um regressismo que afetou todas as esferas do saber e gerou a barbárie no seu estado mais aprimorado. Proibir o livro nos dias de hoje é tarefa quase impossível. Na internet é possível encontrar-se vários sítios que oferecem a possibilidade de baixar seu conteúdo nas mais diferentes formas digitais. Uma campanha ampla por sua proibição só gerará mais curiosidade a seu respeito. Publicá-lo com comentários levará a uma ampla discussão sobre quem será o autor dos mesmos. Na medida em que o nazismo padece de circularidade paranóica, onde nenhum argumento racional é capaz de demover o preconceito, qualquer escolha será apontada como fruto de algum complô “judeu-maçônico-bolchevique-ciclista” ou o que o valha. Quem realmente quer ler o livro para propagar e alimentar idéias nazistas, ou lerá os comentários com escárnio ou simplesmente os descartará. Deixá-lo circular impune também não é atitude recomendável, pois, apesar de suas grandes limitações como obra teórica, seu conteúdo, o contexto no qual foi usado e os crimes do nazismo são suficientes para configurar tal atitude como apologia ao crime.Penalizar os que dele fizerem uso, vigiando e combatendo sem trégua o racismo em todas as suas formas e o nazismo, em especial, parece a única maneira de não se colocar os inimigos da liberdade como “vítimas” de censura sem que a tolerância ao princípio de liberdade de expressão permita que idéias criminosas ganhem o status de legitimidade num debate intelectual. Francisco Moreno de Carvalho é médico e historiador.
Mein Kampf ? Não, obrigado Mauro Nadvorny/ Especial para ASA
Como é possível conciliar liberdade de expressão e censura?
Mauro Nadvorny é membro fundador do MOPAR – Movimento Popular Anti-Racismo
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