Minha vida desde menina (parte 2)
Bertha Vitis Feferman / Especial para ASA
Algumas indagações me foram feitas sobre se havia discriminação contra os judeus na região onde nasci e vivi alguns anos. A discriminação era ampla e geral em todo o país, da parte do regime tsarista vigente. Para “justificar” qualquer fracasso ou dificuldade do governo, este atribuía tudo aos judeus, contra os quais estimulava rebeliões e atos populares. Eram permitidos os maiores desmandos: invasões de lares, espancamentos e ataques às pessoas, todos os abusos e torturas (os chamados pogroms). Para fugir a essas desgraças, começaram, no início do século 20, os exílios voluntários daqueles que podiam dispor de alguns meios para viajar para outros países. Muitos foram, por exemplo, para os Estados Unidos, onde organizações de ajuda forneciam recursos para que os “retirantes” pudessem estabelecer-se dignamente. Muitos dos “exilados” tinham facilitada a emissão dos vistos de saída em virtude das cartas de chamada enviadas pelos parentes que já viviam no exterior. Minha família não sofreu, diretamente, os efeitos das perseguições e brutalidades.
Mas tornou-se obsessão para meu pai a idéia de sair para um país onde imperasse a LIBERDADE em que desejava criar suas filhas − ideal amplamente colhido em suas leituras sobre países dignos e liberais. De fato, nas maiores cidades da Rússia da época existiam centros de ensino superior, mas só para homens. As mulheres não tinham esse “privilégio”. Para conseguir passaporte adequado tinham que se declarar prostitutas!!! Lembro-me desse tema em filmes antigos, americanos ou franceses, focalizado de maneira crítica, naturalmente...Assim, às mulheres só restavam mesmo as funções de donas-de-casa e mães de família.
As israelitas, então, tinham suas funções redobradas, porque como tais, deveriam observar ritos próprios, sabido que:
- a comida devia ser preparada e consumida em vasilhames e louças separadas;
- em casa, as carnes, provindas de açougues especiais, deveriam ainda permanecer no sal durante um período e ser lavadas com generosos jatos d’água antes do seu cozimento, para retirar-lhes qualquer gota de sangue;
- as comidas lácteas deveriam ser separadas das carnes. Estas podiam ser cozidas, ensopadas ou grelhadas e acrescidas de temperos e acepipes das regiões em que viviam os consumidores. Só os peixes eram considerados neutros (pávere). É bem conhecido o guefilte fish, um peixe moído e recheado que, hoje, até se encontra à venda nos restaurantes e casas de produtos judaicos, na maioria dos países.
Passando a outros aspectos da vida judaica, lembro a figura do rabino, que, além de presidir a liturgia, tornou-se um amigo, uma espécie de juiz de paz e conselheiro especial, sendo consultado e resolvendo problemas e questões familiares. Sua atuação era até divulgada em canções críticas oriundas do teatro popular, dizendo que “a força do rabino tudo resolvia, até a suposta infertilidade dos casais” − em ídish, transparecia a malícia, que até eu , aos sete anos de idade, já apreendia e... adeus inocência!...
Sobre nossa instrução, não me lembro de escolas de primeiras letras! As famílias se encarregavam dessa parte, por meio de seus próprios conhecimentos e com professores particulares, em casa. Tal me aconteceu: meu pai me ensinou as quatro operações da aritmética e as primeiras letras nas leituras. Pouco antes de nossa viagem, as crianças já tinham seu professor em casa, para aulas de russo e hebraico, além de ídish. Durou pouco tempo, apesar de que muito me ajudou no estrangeiro, pois pude passar em testes nas classes acima de minha idade (em vez do primeiro ano, entrei para o terceiro primário; no ginasial, comecei no segundo ano, tendo feito em casa o primeiro ano do currículo.
Sempre fui muito ligada a meu pai, pela sua inteligência, relativa instrução e seu incentivo à minha vida escolar (sei que eu tinha também sua preferência entre as filhas como a mais velha e dedicada aos estudos). Como todas as crianças, meu pai, aprendeu as primeiras letras com o rabino; mais tarde, procurou aperfeiçoar seu estudo da Bíblia, o que lhe proporcionou o direito de celebrar casamentos etc. Não era muito religioso, mas gostava da liturgia e da música com que os atos eram celebrados. Seguia a tradição e, nos dias das grandes festas, assim como aos sábados, freqüentava a sinagoga. Não tinha vícios (ao que me lembre), gostava era ir às reuniões de fãs de algum rabino-cantor que visitava a cidade − isso gerava alguma “briguinha”, pois, não existindo qualquer meio de comunicação rápida, era difícil informar mamãe sobre seus atrasos. Papai não conhecia esportes. Mas era um bom papo, que todos admiravam, e também gostava de jogar xadrez e damas com os amigos.
Seguia a vida normalmente, mas, após a guerra russo-japonesa de 1905, ocorriam no país e em toda a Europa agitações e pequenas lutas, fazendo prever a eclosão de uma próxima guerra, que de fato ocorreu, de 1914 a 1918, reforçando o antigo sonho imigratório de meu pai.
Papai tinha vários irmãos e meio-irmãos, já radicados no interior da Argentina, numa província próxima de Buenos Aires, atuando principalmente em negócios agrícolas. Um deles, Ioine (Juan), era o mais antigo no caso: casado, alguns de seus 11 filhos já estavam se transferindo para a capital, Buenos Aires, em busca de outras atividades. A ele perguntou meu pai sobre a viabilidade de realizar lá seu plano, que o irmão aceitou com grande prazer, mandando logo a tal carta de chamada.
As viagens da Europa eram feitas de navio saindo para a América do Sul da cidade alemã de Hamburgo. Apesar da oposição da tia e de sua irmã Miriam, que conservaram em seu poder nossa irmã Eva, iniciamos a aventura. Devíamos atravessar a fronteira com a Romênia, o que, legalmente, era muito difícil. Atravessamos clandestinamente o Rio Prut, com a ajuda de uns camponeses “especialistas” no assunto. Chegamos a uma pequena cidade-dormitório de nome romeno, Nova Sulitza, onde pernoitamos. Triste, lamacenta, esta cidade oferecia, porém, uma surpresa: já tinha cinema! (umas figurinhas coloridas baseadas, decerto, na recente descoberta dos irmãos franceses Lumière!!!).
Noite escura. Atravessamos em silêncio absoluto a fronteira e seguimos de trem até Hamburgo. Lá, enquanto aguardávamos a saída do vapor, ficamos alojados em hotel “de classe”, bonito, higiênico e com ótimas refeições. Embarcamos no navio Blücher, terceira classe, mas relativamente confortável, que, segundo soubemos, foi afundado durante a guerra de 1914-1918 depois de ter afundado outros, inclusive brasileiros. Ao fim de quase 40 dias de céu e mar, chegamos ao porto de Buenos Aires. Aguardando-nos ali, um dos irmãos mais jovens do papai, incumbido de nos levar ao Centro, trouxe-nos o recado: que nem pensássemos em ir para o sítio do tio, pois fracassara a colheita e a situação lá era a pior.
Ficamos, pois, alguns dias em Buenos Aires, hospedados por tia Ester, uma das irmãs de meu pai, casada com Abraham Osajanki, que já era dono de uma próspera loja de móveis. Mas o parente não se dispunha a empregar papai, que “não tinha jeito para tais negócios”... Aconselhados e com a ajuda desse parente, fomos de trem para o interior (província de Junín, perto de Buenos Aires) e ficamos de aluguel em uma pequena casa de grupos geminados da Prefeitura, aos cuidados da sogra, que lá vivia e que assumiu parte das despesas.
O trabalho de papai lá seria o mesmo, o de prestamista (ambulante), como o de todos os imigrantes no país. Papai, que fora sempre muito elegante, mesmo no trabalho, não gostou das condições de trabalho, que o obrigavam a substituir o chapéu-coco por um boné e a carregar a mercadoria nos ombros. E lá voltou a idéia de seguir em busca de novas oportunidades...
Em Buenos Aires, nós, crianças, fomos entregues aos cuidados da tia mais nova, tia Celina, que nos levou a passeios e a um bar social, com mesinhas e cadeiras para lanches, e também para assistir a “cinema de verdade”. Lá, vi meu primeiro filme, Os Miseráveis (da obra de Victor Hugo), que nos impressionou bastante! A tia era muito gentil e apreciava nossa presença, porque estávamos sempre “bem vestidas” (cuidados do papai), mas ficava “encabulada” por só falarmos em ídish, enquanto ela, argentina, só se exprimia em castelhano.
O Rio de Janeiro (Brasil) nos esperava através de “informações”. Não havendo recursos suficientes para toda a família, só papai viajou, a fim de arranjar casa e trabalho para todas nós. Durante alguns meses de saudades, mantivemos correspondência com ele – eu e mamãe − no pouco ídish que sabíamos.
Depois de uns quatro meses de espera, chegam, finalmente, as passagens e os vistos no passaporte! Tomamos, assim, outro navio e viajamos para o Rio!
Célia desmaiou ao ver, no movimento de estiva, a presença de “várias negrinhas” no Porto do Rio. Eram lavadeiras que traziam grandes embrulhos de roupas sobre a cabeça!
Bertha Vitis Feferman
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