| Jerusalém - Boletim ASA nº 113, jul-ago/2008 |
De volta ao passado Esther Kuperman / Especial para ASA
Se algum dia Deus resolver aparecer no mundo dos homens, com certeza vai ser em Jerusalém. Porque em nenhum outro lugar existe uma atmosfera de religiosidade tão forte quanto nesta cidade. Como se toda a fé do mundo estivesse impregnada nestas paredes brancas. A viagem de Tel Aviv a Jerusalém é como uma viagem no tempo. Do futuro para o passado. Uma excelente estrada liga as duas cidades. Limpa, bem sinalizada, asfalto em perfeito estado, a rodovia é de dar inveja aos brasileiros, especialmente os que moram no Rio de Janeiro, onde os buracos das estradas e ruas são separados por pequenas porções de calçamento. Pena que o engarrafamento na entrada de Jerusalém seja tão grande. Sinal dos tempos, de progresso, diriam alguns. Talvez. Mas os israelenses, sempre preocupados com a verdadeira modernidade, já providenciaram uma solução: um trem. Sair de Tel Aviv para Jerusalém será, então, como entrar em um túnel do tempo que começará no século 21, terminando no período do domínio romano. Sem engarrafamentos! Como podem duas cidades tão diferentes pertencer ao mesmo país − e ao mesmo tempo? Coisas de Israel ... Como Jerusalém é emocionante! Caminhar aqui é andar sobre sítios arqueológicos, pisar no mesmo chão onde nossos antepassados andaram. É uma cidade onde se respira o antigo. Jerusalém está dividida em quatro partes: a área judaica, a cristã, a muçulmana e a armênia. Mas o fato é que, mesmo dividida, ela é única. As diferenças entre os quarteirões não anulam as semelhanças na arquitetura, no colorido, nos sons. Como se a cidade quisesse mostrar para todos os homens que é preciso parar de brigar, porque somos diferentes e iguais ao mesmo tempo. E que dá para viver sob o mesmo teto. Jerusalém é o único lugar de Israel em que se pode ver alguém pedindo dinheiro nas ruas. São homens e mulheres, de certa idade, que ficam em torno da região onde está o Muro sacudindo suas caixinhas com moedas e quase cantando: “Tsedacá! Tsedacá!” É engraçado – pensei −, eles clamam por justiça! Fiquei imaginando: seriam socialistas utópicos? Estariam anunciando alguma proposta de redistribuição de renda? Fui informada pelo pessoal da cidade de que são pessoas idosas, que recebem alguma ajuda do governo, mas, descontentes com o volume destes rendimentos, fazem da caridade uma “complementação de ganhos”. Outros me disseram: “Ah, são os russos!” Sempre eles! Outra criação interessante da sociedade israelense: o neoliberalismo à moda da casa. Aqui, como em quase todos os lugares deste planeta, o Estado foi encolhido. Privatizaram os bancos estatais, as universidades públicas foram transformadas em fundações, o transporte coletivo agora é privado e outras situações que bem conhecemos. Mas, em Israel, o Estado ainda está presente, garantindo alguma dignidade ao habitante destas paragens. Creche e escola para as crianças, pensão para os idosos, medicina pública de qualidade – a kupát holim −, entre outras coisas, foram mantidas. Ufa! Nem tudo está perdido... A gente que anda nas ruas de Jerusalém não é a mesma que circula em Tel Aviv. Sem dúvida, os hierosolimitanos não são tão “fashion” quanto os que vivem na “Bolha” – que é como chamam Tel Aviv, considerada uma bolha de modernidade. Aqui se anda com roupas longas, discretas, os gestos são contidos. Aqui, o Shabat é dia de silêncio e reflexão. Lá, em Tel Aviv, o Shabat é mundano. Lá, tudo é rápido. Aqui, a vida passa em ritmo mais lento, mesmo que os homens de barba longa, vestidos de negro, que são os que definem o ritmo desta cidade, corram pelas calçadas. Voltar a Jerusalém é sempre bom, nem que seja para constatar que há muita coisa nova: quando eu vivi aqui, o Yad Vashem era pequeno sem o impacto que tem agora. É porque os fatos do Holocausto, à medida que se afastam no tempo, precisam ser recordados com mais força. Além disso, tornou-se um centro de estudos e pesquisas sobre o Holocausto. Acho que, independentemente da origem ou da religião, todo ser humano deveria passar por este museu. Seria um aprendizado. Talvez, ao verem o que foi feito durante a Segunda Guerra, as pessoas se tornassem mais tolerantes. A Universidade de Jerusalém virou fundação e perdeu muito do seu charme. Os prédios parecem maltratados e os professores estão em greve. Parece que nisso Jerusalém não é única nem original. Uma pena! Mas as ruas estão cheias de gente de todo o mundo, há joalherias, lojas de souvenirs de todos os tipos, preços e gostos. E há o shuk, grande mercado, onde se pode comprar desde kefiot – aquele lenço que os muçulmanos usam sobre a cabeça e que se tornou um símbolo para os palestinos − até menorot e mezuzot. Uma babel de línguas, objetos, referências. Uma festa! Espero voltar a esta cidade, em breve, para poder dizer que todos se tornaram mais cordatos e que aprenderam a reparti-la, sem dividi-la, com toda a Humanidade. Espero, quando aqui voltar, que haja paz na cidade e no mundo. Esther Kuperman, é historiadora e colaboradora do Boletim. |
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