| Comunidades - Boletim ASA nº 113, jul-ago/2008 |
Andrea Telo da Corte/ Especial para ASA
Em 12 de maio próximo passado, o Centro Israelita de Niterói (CIN) e a Associação Davi Frischman de Cultura e Recreação (ADAF), esta última herdeira da memória e das tradições da Biblioteca Popular Israelita Davi Frischman, celebraram em conjunto o aniversário de 60 anos do Estado de Israel. Nada demais se considerarmos que semelhante comemoração foi repetida no mesmo dia, e ao longo de todo o mês de maio por inúmeras associações judaicas pelo Brasil afora. Porém, se examinarmos a trajetória da comunidade judaica de Niterói, e o conjunto de conflitos que permeou as relações entre seus diversos grupos, será possível verificar que esse foi um dos raros momentos em que essas organizações conseguiram negociar entre si para a realização de solenidade conjunta, precisamente a oitava vez em mais de 86 anos de existência! Os tempos difíceis, as disputas ideológicas entre progressistas e sionistas, e sua repercussão no plano cultural com o confronto constante entre “idichistas” e “hebraístas”, e entre religiosos e secularizados demarcaram lugares muito precisos entre os judeus de Niterói, que as transformações ideológicas e culturais do presente não apagaram. Assim, ainda é comum encontrar aqueles que usam as expressões “judeus do lado de cá” e os “do lado de lá” para definirem onde situam sua identidade judaica. A par das relações conflitantes, a coletividade judaica de Niterói desenvolveu uma rica vida institucional, que remete ao ano de 1917, quando surgiu aquela que foi considerada, pelo jornal A Coluna, a primeira associação israelita do antigo Estado do Rio de Janeiro, a União Israelita de Niterói, que tudo indica que seja a precursora do CIN. No ano de 1922, dois grupos comemoraram separadamente o Rosh Hashaná, e uma terceira associação foi criada, de carater progressista, em outubro daquele ano: a Biblioteca Davi Frishman. Posteriormente, no ano de 1925, foi criado o Centro Israelita de Niterói e a seguir o cemitério, situado no município de São Gonçalo. Em tese deveria constar do CIN, escola, biblioteca e caixa de assistência social. Nessas décadas várias escolas judaicas foram criadas na cidade, das quais existem apenas remotas lembranças. Em consonância a essas instituições, os comerciantes e prestamistas judeus das décadas de 1910, 20 e 30 criaram outros orgãos de assistência social como a União Beneficente Pró-Doentes de Nictheroy, que já existia em 1934, e a União dos Ambulantes de Niterói, datada de 1940, e dentro de seus propósitos estava tanto a função de caixa, como a de proteção aos ambulantes da repressão imposta Prefeitura. Além da rede informal de crédito, há notícias de outras entidades de auxílio financeiro, e pelo menos uma delas foi identificada, a Caixa de Ajuda Rachel Gueller. Vale lembrar que a capital fluminense foi um dos maiores redutos do integralismo no estado do Rio de Janeiro, e cenário cotidiano de conflitos entre integralistas e adeptos da Aliança Nacional Libertadora. Talvez por isso, os discursos de inauguração da sede definitiva do CIN, conforme relatado pelo jornal Diário da Manhã, de 6-7-1938, enfatizem tanto a operosidade, disciplina e lealdade dos judeus à ideologia dominante, assim como os valores “democráticos e libertários do governo de Getúlio Vargas”. As tensões ideológicas do período, entretanto, não foram empecilho para o desenvolvimento da vida associativa: no final dos anos trinta e quarenta, o Circulo Hatkva, composto pelos jovens ligados ao CIN promoveu inúmeras atividades culturais como passeios, bailes, palestras com personalidades da literatura brasileira, como Vinícius de Morais, Carlos Drumond de Andrade, e João Cabral de Melo Neto, entre outros; a Organização Sionista estabeleceu suas bases; a Sociedade das Damas também atuava na cidade, onde se criou também a Sociedade das Damas Pró-auxílio de Niterói. A Wizo, denominada na época Estrela Vermelha de Davi já possuia forte inserção entre as mulheres da coletividade, e o Snif Riva Teitelboim, foi o segundo núcleo das Pioneiras fundado no Brasil, no ano de 1949. Em 1940, ainda, uma escola era mantida pelo CIN, e na década de 1950, outra, fundada e mantida pelas mulheres, e adequada ao currículo do MEC foi criada para atender aos sócios, do jardim de infância ao ginasial. Na Biblioteca Davi Frischman (BDF), cujo funcionamento variou entre o formal e o informal até 1947, sob os auspícios da redemocratização constituiu sede própria. Entre o final da déca de 1940 e a de 1960, sua atividade foi frenética: progressistas — homens, mulheres, jovens e crianças vivenciaram diariamentee sua associação participando na campanha para arrecadação de fundos para a sede, nas palestras, conferências, e festas promovidas; a ala feminina se reunia no lein Kraiz, e já em 1949 filiaram-se a Associação Feminina Vita Kempner, mais tarde Associação Feminina Israelita Brasileira, onde ajudaram a fundar e manter Kinderland; na Escola Anexa, as crianças aprendiam ídiche, hebraico e cultura judaica; O coral e grupo dramático da BDF ambos dirigidos por Moisés kawa, alcançou grande repercussão no eixo Rio-Belo Horizonte. Vale dizer que o teatro ídiche teve papel fundamental na vida dos judeus de Niterói, dos “dois lados”: tanto no sentido de lazer, visto que se tratava de uma cidade carente de entretenimento, assim como veículo constitutivo de identidade grupal. Os redatores do jornal Nossa Voz, assim como os lideres da BIBSA e do ICUF eram presença constantes nos eventos promovidos pela BDF, cujo ponto alto era o Levante do Gueto de Varsóvia. Entre os anos 1940-1960, as principais lideranças da BDF se converteram também em importantes dirigentes do ICUF, como Simão Graber e Leizer Faber, Isac Yarlicht, entre outros. Ainda nos anos cinquenta, a presença dos “rapazes de Niterói” era considerada indispensável nas festas do Clube Cabiras. Nos anos sessenta, a intensa vida associativa dos judeus da capital fluminense acelerou-se ainda mais, com a transferência de parte da coletivadade, em processo de ascenção social, para o bairro de Icaraí. Tal mobilidade, indiscutível sinal de status, ensejou uma corrida entre as associações para ver quem chegava primeiro ao novo bairro em vigoroso crescimento vertical. Porém, em episódio do qual pouco se sabe, parte dos associados do CIN fundou outra associação, a Sociedade Hebraica de Niterói, em Icaraí. Embora muitos considerem a Hebraica apenas como “clube social”, não há dúvida de que expressou uma substantiva transformação no seio da coletividade. A BDF, também desejosa de visibilidade social após intensa campanha para arrecadação de fundos para a construção de uma nova sede, chegou a Icaraí, em 1967. Entre os esforços empreendidos para tal distingue-se uma atividade de empresariamento de peças teatrais, de onde arrecadavam recursos para suas obras. Desta feita, artistas como Jô Soares, Chico Anízio, Fernanda Montenegro, entre outros, apresentaram-se na cidade. No final dessa década, os jovens da BDF/ADAF dividiam–se entre os campeonatos esportivos e as atividades do cineclube que promoviam, e ainda pressionavam o maestro para incluir músicas modernas no repertório, e assim adentraram a década de 1970 cantando “Hair”. Os jovens sionistas, e outros “nem tanto”, foram atraídos pelo carisma do Moré Dam, em grupo que ganhou a alcunha de Grupo DAM. Alguns fizeram Aliáh. O declínio, entretanto, marcou as décadas seguintes, como ocorreu com tantas outras coletividades. Pequena mas notável, a coletividade judaica de Niterói, teve uma vida muito além do seu tamanho: intensa, e sobretudo, autônoma à da Guanabara!
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