Beco da mãe -Boletim ASA nº 113, jul-ago/2008

Do picolé à revolução

Henrique Veltman / Especial para ASA

                
O grande programa do fim de semana era ir até a Praça da Bandeira, chupar um picolé de frutas da Polar num dos quiosques, eventualmente encarar uma função do Circo Democrata e, mais eventualmente ainda, ir ao cine Bandeirinha.

Um dia, a novidade: um carrinho amarelo e azul vendendo o sorvete Eskibon na praça. Bem, era um sorvete realmente diferente:não era nem de palito nem de massa. Era um sorvete de palito sem palito. E de massa sem ser de massa. Claro, o Eskibon vinha para ficar, adeus sorvetes e picolés Polar, dos bares, padarias e quiosques. Isso deve ter acontecido aí por 1942.

Ao Eskibon seguiu-se o Chicabon, e a turma logo ficou dividida entre os dois sorvetes. Eu fiquei fiel ao Eskibon, acho que o Fraim optou pelo Chicabon.

 

“Efeito Proust”

No Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, a personagem principal revive todo o seu passado ao comer, já adulta, uma madeleine. Um biscoito. Assim, proustianamente, cada vez que eu saboreio um Eskibon, lembro momentos marcantes da minha infância. Da nossa infância, minha, do Fraim, do meu irmão Moysés, do Jacob, da Fanny irmã do Fraim, do José Lipes e de sua irmã, esqueci seu nome (estes, filhos do Moishe Lipes, que morreu na Guerra Civil na Espanha). A garotada judia do Beco da Mãe.

 

Comício

Nessa mesma Praça da Bandeira, os meninos do Beco travaram contato direto com o Partido Comunista. Foi em 1946, quando Luís Carlos Prestes incendiou mentes e corações, no comício que nos arrebatou. Difícil descrever a excitação e a alegria da garotada, envolvida diretamente na grande revolução mundial !

Os mais velhos chegaram a subir no palanque. Fraim e eu, claro, ficamos na fila do gargarejo. Não me lembro dos oradores do comício, nossos olhos estavam voltados apenas para Prestes. Mas eu tenho quase certeza da presença do Maurício Grabois ao lado do Cavaleiro da Esperança.

 

Neve em Jerusalém

Este ano, a neve cobriu de branco Jerusalém.

Isso me remete aos idos de 1974, também em janeiro. Também em Jerusalém. Fomos a um kínus sul-americano da Tnuat Aliá (movimento político sionista, apartidário, destinado a promover a aliá de jovens casais), mas a neve alta na Cidade Santa nos tornou quase prisioneiros do hotel (ou pensão, melhor dizendo), Nevê Soshana. As ruas estavam intransitáveis e o país estava mobilizado na Guerra do Iom Kipur. Faltavam combustíveis, o aquecimento era zero. Pra não morrer de frio, descobrimos a solução, comprando o estoque de conhaque 777 numa birosca da região. Enquanto os argentinos e uruguaios batiam queixo, os brasileiros tomavam um grogue muito bom, conhaque + chá inglês. Nós estávamos enfrentando o frio e a neve de forma legal. Tão legal que, depois de uns dois ou três dias, resolvemos limpar a nossa área. Fomos, Bernardo Hojda z’l e eu, ao que seria a subprefeitura do bairro. Conseguimos requisitar uma retroescavadeira e saímos limpando as ruas. Os outros brasileiros da tnuá se juntaram a nós e, rapidamente, o bairro ficou uma beleza! Fizemos tanto sucesso que a televisão, o rádio e os jornais vieram atrás dos brasileiros e viramos a notícia do dia ! Sionismo realizador. Os argentinos ficaram fulos de raiva, afinal, enquanto a gente batia uma bola de madrugada,numa linha de passes diante da pensão, eles ainda discutiam ferozmente Perón, Isabelita & adjacências. Ah, esses argentinos...

 

O Grande Templo

Inaugurado em 1932, o Grande Templo Israelita pode ser considerado o principal monumento da comunidade judaica do Rio de Janeiro. Ele foi, pelo menos durante umas três décadas, o ponto de referência para os judeus cariocas. Tombado em 1987, acho que, hoje, abre só para as Grandes Festas e eventos especiais. Não sei, vivendo em São Paulo, nas poucas vezes em que vou à Cidade Maravilhosa, o Templo não está no meu roteiro de visitas.Consta que o presidente da República Washington Luiz foi quem colocou a pedra fundamental da construção.

Havia uma sinagoga mais antiga que o Templo no começo da década de 20, a Beit Israel, no final da Rua de Santana, quase encostada no leito da via férrea. Ela foi derrubada para a construção do metrô já no governo de Chagas Freitas. Lembro que o Chagas chegou a atrasar as obras por ali, aguardando que a comunidade judaica se organizasse na defesa daquela sinagoga onde, para muitos, se poderia alojar o primeiro museu judaico do Rio. Mas, incrivelmente, as entidades ficaram em silêncio e a sinagoga tombou. Pena.

 

 

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.

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