Esquerda e Israel - Boletim ASA nº 112, mai-jun/2008


Os primeiros anos

Dina Lida Kinoshita / Especial para ASA

 

O imediato pós-guerra constitui um momento de grande unidade do povo judeu. Sionistas e comunistas apóiam a criação do Estado de Israel − se para os primeiros essa criação simboliza a realização de um sonho milenar de volta à Terra Prometida ou a construção de um lar nacional nos marcos do liberalismo do século 19, para os comunistas tratava-se de um movimento de libertação nacional, em que o apoio soviético para um Estado judeu afetaria os interesses imperialistas numa região altamente estratégica como tem sido o Oriente Médio ao longo dos últimos cem anos. Embora na ONU houvesse um apoio efetivo da URSS e das Repúblicas Populares à criação do Estado de Israel, e a Tchecoslováquia tenha fornecido em grande medida as armas utilizadas pela Haganá, esta unidade se rompe pouco depois. Os motivos são vários.

Israel era, em 1948, um país economicamente inviável, e a URSS e as Repúblicas Populares, que haviam sofrido grandes perdas humanas e materiais durante a Segunda Guerra Mundial, não poderiam fornecer uma ajuda permanente. Para sobreviver, o governo trabalhista estabelecido em Israel inicia negociações com a Alemanha para que os sobreviventes do Holocausto recebessem reparações vitalícias e a soma referente aos 6 milhões de judeus exterminados fosse destinada ao Estado recém-estabelecido.

Outra preocupação do Estado de Israel que leva a um deslocamento para o centro se deve ao destino da grande comunidade judaica norte-americana frente ao surgimento do macartismo nos EUA. Por fim, a reconstrução da Internacional Socialista, em 1951, após esta ter praticamente desaparecido com a ascensão de Hitler ao poder, gera efeitos em Israel. Os partidos Trabalhista e Socialista de Israel, membros desta organização, apóiam a OTAN já no clima de Guerra Fria, o que resulta numa clivagem total.

Não se pode deixar de mencionar cisões ocorridas nesse mesmo período entre judeus comunistas, devido às denúncias dos crimes stalinistas na URSS e nas Repúblicas Populares, que enfraquecem sobremaneira a esquerda judaica.

 

A posição da esquerda argentina

Daniel Silber / Especial para ASA

 

Em 29 de novembro de 1947, a Assembléia Geral das Nações Unidas aprovou a Resolução 181 que dividia o território da Palestina, sob Mandato britânico, criando dois Estados: um árabe e outro, judeu. O plano original havia sido obra de Andrei Gromiko, jovem e já experiente embaixador da União Soviética na ONU.

Tanto o periódico Orientación como o diário La Hora, vinculados ao Partido Comunista da Argentina, acompanharam os debates com bastante precisão e atenção. Em lugares destacados de diferentes edições reflete-se a adesão do PCA à política exterior da URSS, cuja postura é dar, de forma simultânea, uma resposta bastante integral à complexa situação. Por um lado, encontrava-se uma saída às demandas nacionais do povo judeu massacrado pelos nazistas, e por outro, tratava-se de debilitar as posições dos imperialismos inglês e francês, que controlavam grande parte da região ou influenciavam diretamente as reacionárias monarquias locais.

Os artigos manifestam, ainda, uma nítida e definida posição classista, já que destacam sua oposição à aliança existente entre os administradores coloniais ingleses e os grandes proprietários de terras de origem árabe na região, cujo objetivo era preservar os seus privilégios − econômicos, estratégicos e geopolíticos.

A conjunção de todos esses elementos (classismo, internacionalismo, antiimperialismo, pró-sovietismo) fez com que, através de seus órgãos de imprensa, o PCA expressasse sua profunda simpatia pela criação do Estado de Israel e apoiasse decididamente a determinação da ONU nesse sentido.

 

Israel modelo 60

Daniel Silber / Especial para ASA

 

Para a coletividade judaica argentina, a criação do Estado de Israel foi muito significativa. Se para o sionismo o Estado deveria ser exclusivamente judeu, para o progressismo deveria ser um Estado nacional, com árabes e judeus compartilhando responsabilidades.

Os acontecimentos posteriores impediram a materialização desse conceito. Assim, o progressismo aceitou a alternativa proposta na ONU de partilha da Palestina em dois Estados, um árabe e outro, judeu, nos territórios administrados pelo Mandato britânico. A independência cobriu de júbilo toda a coletividade, com grandes festejos e uma alegria enorme nos bairros judeus de Buenos Aires (Once, Villa Crespo).

Com a idéia de Israel como pólo de progresso social, paz e desenvolvimento para a região, o progressismo criou a Campanha Popular de Ajuda a Israel. Seu objetivo: reunir dinheiro para colaborar na efetivação do Estado. Uma atividade foi coletar fundos para construir um bairro de casas populares em Tel Aviv; outra, desenvolver iniciativas em prol de mulheres e imigrantes e para fazer frente a emergências.

Em junho de 1949, um documento do setor progressista assinala que “o Estado de Israel [...] é questão de todo o povo judeu. Saudamos fervorosamente os combatentes e construtores de uma vida estatal livre e democrática em Israel”. Em 1952, um folheto em castelhano e iídish com fotografias e mais de cem páginas mostra o destino da soma coletada, descreve as características das obras e o grau de realização, e relata os muitos obstáculos político-burocráticos enfrentados junto à comunidade local e às autoridades israelenses.

Estes são pequenos exemplos do compromisso ativo e militante assumido pelo progressismo judaico argentino com a criação de Israel. Mais do que palavras, foram fatos.

 

O PCB acompanhou a URSS

Jacques Gruman / Especial para ASA

 

O Partido Comunista Brasileiro acompanhou a posição da União Soviética no processo que levou à criação do Estado de Israel. Durante muitos anos, era rotina o alinhamento automático dos partidos comunistas de todo o mundo com as diretrizes do partido soviético, e na partilha da Palestina não foi diferente.

A revista mensal Problemas, editada pelo PCB e dirigida por lideranças históricas do Partido (como Carlos Marighela e Diógenes Arruda), publicou dois artigos esclarecedores. O primeiro, de outubro de 1948, foi “A questão palestina”, assinado por L. Vatolina, e revela os principais detalhes da posição soviética. Segundo o autor, o país dos sovietes não podia ficar indiferente à sorte de povos que lutavam contra o imperialismo (referia-se à dominação britânica e aos avanços dos interesses norte-americanos no Oriente Médio, concentrados no petróleo). Além disso, “a sorte do infeliz povo judeu, tão maltratado pela guerra, não pode deixar de despertar sua simpatia”. Andrey Gromyko, representante da URSS na ONU, apontou, em discurso decisivo, duas soluções para a situação da Palestina:

1. Criação de um Estado único árabe-judaico, onde os dois povos conviveriam com direitos iguais.

2. Divisão em dois estados democráticos e independentes, um árabe e outro judeu.

Embora defendesse a primeira solução como a melhor para os dois povos, Gromyko afirmou que, face aos contínuos enfrentamentos entre ambos, insuflados pelos britânicos, a alternativa viável naquele momento seria a dos dois estados.

Esta foi a proposta encaminhada e aprovada nas Nações Unidas. Na edição de outubro de 1949, Problemas publicou o artigo “As forças de classe na luta pela independência de Israel”, assinado por A. B. Magil. O texto complementa o anterior, destacando os três fatores que teriam permitido a criação do Estado judeu: “a luta de massas dentro da Palestina e o apoio que lhes foi dado pelos povos de outros países; a posição firme e enérgica da União Soviética e das democracias populares no seio da ONU; e o conflito anglo-americano, que deu à opinião pública dos EUA a oportunidade de forçar o governo a votar, após muitas vacilações, pela resolução da partilha”.

Magil, judeu militante do PC norte-americano, diz que o voto soviético não mudou a posição da URSS sobre o sionismo: “A URSS sempre se opôs ao imperialismo no Oriente Médio, como em qualquer parte, e sempre foi solidária com as lutas antiimperialistas de todos os povos. O socialismo é, em princípio, contrário a todas as formas de nacionalismo burguês, inclusive o sionismo(...). Os nacionalistas burgueses nunca são conseqüentes na luta contra o imperialismo”. Finaliza: “A URSS foi a única entre as grandes potências a demonstrar genuína amizade a Israel e fidelidade à decisão da partilha”.

 

 

 

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