| Depoimentos - Boletim ASA nº 112, mai-jun/2008 |
Na noite daquele 14 de maio de 1948 – amena, como costumam ser as noites de maio em Porto Alegre –, o garoto de 11 anos que eu então era subia a Rua João Telles, no bairro do Bom Fim, indo para casa. Era um trajeto que fazia regularmente; todas as noites descia até a Avenida Oswaldo Aranha, principal artéria daquele que era então um bairro essencialmente judaico, onde moravam as famílias dos emigrantes vindos em sua maioria da Europa Oriental. Na movimentada Oswaldo Aranha eu encontrava meus amigos e ficávamos conversando sobre livros e leituras, uma paixão comum entre os jovens judeus do bairro. Pelas 9 da noite, eu me despedia e subia a João Telles, que, àquela hora, costumava estar deserta e silenciosa: o pessoal do Bom Fim dormia cedo, porque de manhã deveria estar a postos nas pequenas lojas. Mas na noite de 14 de maio de 1948 foi diferente. Olhando pelas janelas, eu via pessoas celebrando, cantando e dançando – uma cena muito rara, sobretudo entre gente sofrida como era aquela. O que teria acontecido? Em casa, a radiante resposta: havia sido proclamado o Estado de Israel. Naquele tempo não havia transmissões de tevê ao vivo nem noticiário em tempo real; assim, o júbilo que percorreu as comunidades judaicas demorou um pouco a chegar a Porto Alegre. Mas, quando chegou, provocou a mesma explosão de alegria. Uma alegria que por milênios tinha sido reprimida. Por milênios a história do povo judeu foi uma história de perseguições, de discriminação, de humilhações e de extermínio, culminando com o Holocausto. Na verdade aquele não era um momento de uma única alegria, era um momento em que se somavam múltiplas e diferentes alegrias. Ali tínhamos, em primeiro lugar, a alegria daqueles que já viviam no, agora, Estado de Israel. Depois, a alegria das comunidades judaicas, cuja causa podia ser sintetizada em uma palavra: dignidade. A criação do Estado de Israel restituía-nos a dignidade. Já não éramos mais um grupo humano amedrontado, quando não desesperado. Agora, podíamos levantar a cabeça e percorrer com orgulho nosso caminho. Fosse este caminho a estrada para um kibutz ou uma tranqüila rua no bairro judaico do Bom Fim.
Nahum Mandel, Kibutz Gaash, Israel
Não me envergonho de confessar: este ano se completarão 60 vezes que me emociono no Iom Haatsmaút (Dia da Independência de Israel). Eu me recordo como se fosse hoje da euforia com que recebemos pelo rádio a notícia de que Ben Gurion proclamara o Estado de Israel, momento em que decidi fazer aliá (emigrar para Israel) para ser voluntário no seu novo Exército de Defesa. De todas as comemorações de Iom Haatsmaút, a que mais profundamente se gravou em minha memória foi a que se realizou em Jerusalém no 5º aniversário de Israel, que presenciei com minha filha primogênita, então com apenas 4 anos e meio. Na ocasião, inauguraram o trem para Jerusalém, e por ele viajamos, de manhã cedo. O trem estava superlotado igual ao bonde 48-Nothman com que eu viajava diariamente do Bom Retiro para o Ginásio do Estado, mas, em vez de me pendurar no estribo, fiquei “pendurado” dentro do vagão, com minha filha nos braços − para que ela pudesse respirar −, sem me apoiar em nada, pois não tinha para onde cair... Em Jerusalém, a multidão nos arrastou da estação ao centro da cidade. Nunca vi tanta gente amontoada. Já não agüentava ficar em pé com a menina montada em meus ombros. A uns cem metros de onde estava parado, espremido, percebi um muro, para onde consegui empurrar-me e nele assentar a minha filha, com a ajuda dos que já lá se encontravam, depois trepei os dois metros de altura para me ajeitar ao seu lado, com a merenda que trouxe pendurada nas costas. Juro que não sei como realizei a façanha... Depois de umas horas de espera, assistimos de nossa “frisa” ao espetáculo que mais me impressionou em Israel, a parada de nosso Exército: soldados tão jovens e esbeltos, moços e moças, marchando orgulhosos, aclamados pelos aplausos rítmicos dos espectadores. Chegamos de volta a casa à tardinha, mais mortos do que vivos, portando recordação de uma vivência inesquecível.
Helena Lewin, Rio de Janeiro, RJ
Estado de Israel, 15 de maio de 1948, alegria explodindo os corações judaicos de todo mundo!Um sonho sonhado, duramente sonhado durante 2000 anos de exílio e dispersão marcados por perseguições, pogroms e violentações físicas e morais que podem ser sintetizadas em dois acontecimentos históricos cruciais: a Inquisição e o Holocausto. Ambos dramaticamente terríveis para o mundo judaico. A criação do Estado de Israel! Lembro-me, perfeitamente bem, desse dia de júbilo e de emoção! A cada hora telefonávamos para Jerusalém, onde meu marido, Zwi Lewin, tinha irmãs e irmãos que gritavam de alegria e transmitiam o decorrer do ato celebrativo do nascimento de uma nação, uma nova milenar nação. Assim acompanhávamos os discursos, a leitura do documento de constituição, a certidão de nascimento, lida por David Bem Gurion. Quilômetros de distância nos separavam, mas era como se estivéssemos juntos, vibrando e gritando Mazal Tov pela sorte deste tão esperado recém-nascido. E juntos, mesmo de longe, dançamos nas ruas de Jerusalém juntamente com todos os judeus que ali se encontravam, nossos irmãos. Uma união espiritual e uma reunião de vontades assumindo e compartilhando a responsabilidade de manter forte esse desejo concretamente realizado. Brindamos naquela ocasião e brindamos nos dias de hoje pelos 60 anos deste jovem Estado, fazendo votos de paz e dignidade a seu povo e a seus vizinhos que quiserem se associar em uma relação produtiva de amizade e respeito à convivência pacífica.
Eliahu (Adolpho) Wasserman, Kfar Saba, Israel
Lembro a Guerra de Independência e as referências que os noticiários radiofônicos faziam a ela. Não lembro como recebi, no Rio de Janeiro, a notícia da criação do Estado de Israel por dois motivos. O primeiro, um motivo político: Israel não tinha maiores interesses para o mundo. O segundo motivo é de caráter pessoal. Apesar de ter tido um professor particular desde os seis anos de idade, ensinando ídish, História Judaica em ídish e Húmash, eu, como minha família, estava afastado da tradição judaica e de suas raízes. Toda a minha atenção estava concentrada na sociedade em que eu vivia e seus problemas, com extensão para os problemas do mundo. Sabia que era judeu, que tinha que constituir uma família judaica, mas era um goi no pensamento e na ação. Embora não lembre a reação das pessoas nem como eu recebi a Declaração da Independência de Israel, minha mulher e eu estamos vivendo essa independência há quase 19 anos aqui em Israel. Somos parte dela e de sua história. Melhor, recuperamos nossas almas.
Gershon Knispel,Haifa, Israel
Alguns meses antes da criação do Estado de Israel, fui chamado, como adolescente de 16 anos membro da organização clandestina Lechi (Combatentes pela Liberdade de Israel), para participar do ataque com explosivos ao prédio do Serviço de Inteligência britânico, na Avenida King George, esquina com Rua Palmer, que leva para o porto de Haifa, naquele tempo o único que existia. O Lechi reunia comunistas (esquerda) e revisionistas (direita) com o objetivo comum de pôr fim ao Mandato britânico sobre a Palestina. Os membros do grupo deveriam permanecer ao longo da estrada principal do lado oriental da cidade, a 50 metros um do outro, até a ponte da Companhia Shell, sob a qual havia um caminhão com um enorme barril cheio de explosivos, a um quilômetro e meio do prédio a ser atingido. A ordem era avisar quando a calçada diante do prédio estivesse vazia de pedestres, com cada um de nós levantando a mão, até que o aceno do último jovem, numa rapidez de relâmpago, fizesse o motorista acelerar o caminhão para invadir o prédio, com um guincho caseiro e oculto que jogaria o barril por cima dos muros e da cerca de arame farpado. Morreram ou ficaram feridas centenas de pessoas, na sua grande maioria agentes da Inteligência britânica, e uns poucos policiais judeus e árabes que estavam no prédio, todos cobertos pelos escombros. Depois de alguns meses, surpreendentemente, sem aviso prévio, os soldados e policiais da rainha, em grandes comboios, com blindados e outros veículos, abandonaram a Palestina. O sentimento de profundo alívio com a libertação da dura ocupação se misturava com um sentimento de culpa, pois era preciso ser muito ingênuo para acreditar que aquela explosão e outros atos semelhantes é que levaram os britânicos a abandonar o país. As vítimas desse ato de sabotagem pesaram muito sobre a minha consciência, sabendo que outras razões é que levaram à rápida saída dos assustados britânicos. Os jovens que participamos das quatro organizações clandestinas − Haganá, Palmach, Etzel e Lechi − tínhamos sido preparados para a possibilidade de que a declaração da independência do Estado não ocorresse em paz. Os atentados que já haviam sido perpetrados entre os dois povos, cada um se julgando o herdeiro da Palestina, foram de pouca monta perto do que aconteceu depois. As danças populares judaicas em círculos, conhecidas como horas, acompanhadas de cantorias pelos alto-falantes levados por carros, na maioria canções soviéticas, como “Fui a Natasha esta noite”, “Florescem as peras e as maçãs”, “Os abutres sobre nossos campos de batalha”, criavam uma euforia misturada com o medo do que iria acontecer no dia seguinte. A multidão, em trajes modestos − na maioria calças cáquis e blusas brancas ou azuis, com laços brancos ou vermelhos (dependendo do partido) −, ocupava as ruas das cidades, dos assentamentos e dos kibutzim, e festejava como se todos fossem iguais. Como dizia uma canção composta décadas depois, “de repente, levanta-se um ser humano na madrugada, observando que virou um povo”. Poucas horas depois, milhares de jovens adolescentes e adultos já esperávamos os caminhões que nos levariam aos locais de combate. No norte, contra os sírios; no sul, na fronteira com o Egito; no leste, contra os jordanianos, todos comandados por ingleses, repelimos os invasores. Muitos dos meus amigos não voltaram para casa. Nessa época, tínhamos a clara consciência de que a nossa guerra era contra os colonialismos britânico e francês. Empunhamos com orgulho os fuzis tchecos e conduzimos os tanques russos, ignorando o embargo de armas imposto pelo mundo ocidental. Não permitimos que os ingleses voltassem para fazer a mediação entre os combatentes e renovar o domínio britânico sobre a Palestina.
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