Israel - Boletim ASA nº 112, mai-jun/2008


Israel sim, mas...

Peretz Kidron/ Especial para ASA

 

Meu pai, sionista toda a vida, visitou Israel alguns meses depois do seu estabelecimento.

Ao desembarcar no porto de Haifa, permaneceu parado, paralisado, recusando-se a deixar o cais enquanto seus olhos se deleitavam ante a visão gloriosa de um policial judeu, vestindo o uniforme da Polícia israelense. Muitos anos se passaram e muito poucas pessoas − israelenses ou outras − continuam tão fascinadas com a força policial que exibe muitos dos defeitos de suas correligionárias em outras partes do mundo.

A Polícia é ineficaz no combate ao crime, são freqüentes os exemplos de corrupção e ineficiência, há excesso de casos de brutal discriminação contra os cidadãos palestinos do país − uns vinte foram mortos pela Polícia na última década. Essa imagem desencantada do principal órgão de imposição da lei em Israel é típica de uma visão embaciada do Estado. Israel é uma entidade reconhecida internacionalmente, com embaixadores, bandeira e hino, um Exército e um presidente, todos os adornos que o elevam à condição de Estado. Todos se tornaram aspectos do dia-a-dia que mal merecem uma atenção mais detalhada, e quando a têm, é freqüentemente carregada de tristeza.

Sessenta anos de independência mostram uma história cheia de variações. Judeus mais idosos, que atravessaram os anos do Holocausto e lembram o seu sentimento de impotência enquanto comunidades judaicas eram dizimadas por gangues assassinas nazistas, sem força que os defendesse, podem nutrir um sentimento de orgulho e reafirmação de que agora existe um Exército judeu efetivo. Mas isso é acompanhado da desconfortante sensação de que o que é conhecido, ironicamente, como as Forças de Defesa de Israel é, com efeito, um Exército de ocupação empenhado não tanto em defesa quanto na opressão brutal da população palestina.

Seus métodos incluem freqüentes e sistemáticas afrontas aos direitos humanos, quase beirando crimes de guerra. Assim como ocorre com o seu Exército, a história de Israel como um todo é um “sim, mas”. De uma pequena comunidade de menos de um milhão, sua população cresceu para mais de 7 milhões; de uma economia rudimentar, desenvolveu a agricultura, sua indústria hi-tech está entre as mais avançadas do mundo, e o produto nacional centuplicou. Mas, embora o desenvolvimento tenha proporcionado afluência para um grande número de israelenses, muitos outros não participam dessa riqueza.

Quase um em cada quatro vive abaixo da linha oficial de pobreza; entre crianças, a estarrecedora razão é de uma em três. Vergonha nacional é a situação dos sobreviventes do Holocausto. Destes, admite-se que cerca de 80 mil vivem em condições de extrema penúria, do mesmo modo que muitos outros idosos. Nos primeiros anos de Israel, a pobreza foi contrabalançada por um sistema de bem-estar progressista. Porém, as imensas somas gastas na colonização dos territórios ocupados drenaram recursos dos serviços sociais: hospitais recebem poucos investimentos, da mesma forma que o sistema educacional. Testes internacionais conduzidos em países industrializados concluíram que o desempenho dos escolares israelenses é um dos mais fracos − estatística estarrecedora quando confrontada com a tradição judaica de erudição.

Universidades israelenses graduam jovens brilhantes que seriam um crédito para qualquer instituição acadêmica no mundo. Mas em número muito acima do aceitável esses gênios em vias de desabrochar partem para assumir postos em outros países porque a escassez de fundos para pesquisas não lhes oferece perspectivas de trabalho e progresso. A lista de sucessos e escândalos cobre a maior parte dos aspectos da vida israelense. Mas, sobretudo, é a ocupação e todos os seus conseqüentes males que lançam uma sombra sobre tudo o que Israel alcançou até hoje.

Enquanto Israel mantiver o controle repressivo de seus vizinhos mais próximos, sujeitando-os à tirania, pobreza e humilhação ao mesmo tempo em que se recusa a buscar uma solução pacífica para o conflito, virtualmente tudo que pode ser reivindicado para o seu crédito permanecerá na categoria do “sim, mas”.

Peretz Kidron é fundador e um dos principais ativistas do grupo Yesh Gvul.

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