Beco da mãe -Boletim ASA nº 112, mai-jun/2008

Partilha e independência

Henrique Veltman / Especial para ASA

                
Era novembro de 1947, na véspera tinha sido aprovada a partilha da Palestina e nós íamos, de bonde, para o Grande Templo da Rua Tenente Possolo, para a comemoração oficial da comunidade carioca.

Quando passávamos próximo à Rua André Cavalcanti, dava pra ver que havia uma grande movimentação dos linke idn (ídish: judeus “tortos”, isto é, marginais − ladrões, proxenetas e prostitutas). Do alto dos meus 11 anos, eu já conhecia a história das polacas, e perguntei ao meu pai o que acontecia ali. Resposta do velho Chico: “Elas também estão felizes e comemoram a Partilha. Muito justo.”

A Partilha, vocês sabem, aconteceu no dia 29 de novembro. Mas eu confesso que essa história de dividir a Palestina não me soava muito bem.

Não lembro como foi a comemoração no Templo, totalmente lotado. Na verdade, eu e meus amigos do Herzlia aproveitamos a oportunidade pra bater papo, trocar figurinhas e até ensaiar uma roda de futebol onde a bola, claro, era uma pedra…

Não sei se foi na comemoração da Partilha, ou já na proclamação de Independência, em 1948, que o rabino Tzikinovsky foi dançar com a Torá na Tenente Possolo, em frente ao Grande Templo. Ele era uma figura extraordinária da comunidade carioca. Antes de mais nada, ganhava o seu sustento com uma papelaria. Ele não achava correto ser sustentado pelo ishuv. Apesar de ser o rabino do Templo.

 

“Colosso”

A própria vida, diz Gabriel Garcia Márquez, não é aquela que uma pessoa viveu, mas a que ela recorda e como recorda para contá-la.

Em 1961, acho que pela primeira vez no rádio carioca, a Globo dedicou um programa comemorativo à Independência do Estado de Israel.

E quem produziu esse programa fui eu mesmo com a colaboração inestimável do José Levinson. Ele forneceu a trilha sonora daquele programa.

Terminada a audição, falei com meus pais pelo telefone. Minha mãe, como sempre, derramou-se em elogios exagerados. Mas o que me ficou gravado até hoje foi a curta e carinhosa manifestação do meu pai: “Colosso, Hérshale. Colosso!”

Foi a última vez que ouvi a voz de meu pai. Ele faleceu dias depois desse programa de rádio.

 

Consulado

Eu já havia feito o meu bar mitsvá quando, em novembro de 1949, na Avenida Calógeras, ali na Esplanada do Castelo, onde antes funcionava o Comitê Pró-Palestina, inaugurava-se o Consulado de Israel. Uma festa emocionante.

Jacob Schneider hasteou a bandeira de Israel, sob o olhar atento de Samuel Malamud, o primeiro cônsul honorário. E no mesmo dia e local, o rabino Tzikinovski recebia o seu visto, o primeiro concedido pelo consulado.

Henrique Veltman, carioca, 71 anos, casado, jornalista, sociólogo e torcedor do América, é colaborador deste Boletim.

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